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domingo, agosto 21, 2022

MARIA JOYCE, UM TALENTO XEXEUENSE

 

 

Inteligente, talentosa, criativa, inquieta, eis uns dos tantos dos adjetivos para qualificar essa artista xexeuense: a cantora, compositora e produtora musical, Maria Joyce.

 

Entre uma e outra curiosidade que ela desperta, uma delas é que na sua certidão de nascimento consta que ela nasceu noutro município, mas não. É que quem nasceu em Xexéu antes de 1992 ou é palmarense ou aguapretano, razão que a faz mais múltipla por conta de haver nascido quando a localidade era ainda distrito.

 


Desde menina ela começou estudar clarinete na Banda Ipiranga, legendária reunião de músicos daquele município, mas além de dominar o instrumento ela executa e muito bem expressivas apresentações ao violão, ao teclado e faz ousadas peripécias na bateria, razão pela qual ela completou recentemente 30 anos de carreira. Já? Isso mesmo.

 

Não só isso: ela é bacharel em Direito, empresária, afora mexer e muito bem como designer, ornamentadora, artesã e também fabricante de cachaça – isso mesmo, dela é o aperitivo rotulado como Sabor do Interior que, inclusive, fabricada por ela mesma de forma artesanal, embora já prometa bastante orgulhosa que acrescentará mais uma às suas múltiplas profissões: a de industrial no ramo.

 


Mas o foco aqui transitará mesmo por seu talento musical, no qual ela se faz diversa: intérprete de verve, compositora arrojada – ela é detentora da autoria de mais de 50 músicas, instrumentista ousada e criativa executante de um tanto de instrumentos, desde a percussão, passando pelos sopros, cordas e teclas. Ela seria aquilo que o ditado popular costuma mencionar: se ela botar para trabalhar tudo que sabe duma só vez, desemprega meio mundo de gente. Verdade.

 


Foi quando tive acesso às suas buliçosas apresentações desde menina pelas bandas do Recife, São Paulo e meio mundo de lugar, até as mais recentes, como a sua participação da Seresta dos Pais, que aconteceu no último dia 13 de agosto, no Clube Municipal de Xexéu, ao lado Orquestra Nostalgia e convidados; como também da que fez no Natal Feliz, ocorrido no dia 22 de dezembro de 2021, em Xexéu, com a Turma de Sensa, Banda Musical Ipiranga e Inaldo Lins.

 


A oportunidade de conhecê-la pessoalmente se deu pelas mãos do atual presidente da banda Ipiranga, Anderson Fillipe. Foi um papo demorado e muito risível pela grandeza de espírito da moça. Conheci o seu estúdio de ensaio – em breve transformado em de gravação -, ocasião em que pude ter em mãos um vasto material com o seu trabalho. Dali ela me levou para a sua cachaçaria, na qual ela expõe destacada nas prateleiras a sua grife Sabor do Interior. Um ambiente aconchegante de quase me seduzir a sentar e virar freguês na hora, tomando umas e outras de virar a noite pelo dia. Fiquei encantado com a disposição e layout por ela empregado, desde a arrumação dos móveis e utensílios, até a ornamentação do recinto. Confesso: fiquei um bocado de tempo apreciando tudo tentando entender como cabia aquilo tudo ali.

 


Diante do meu encantamento ela quebrou a monotonia e me encaminhou proutro estabelecimento que servia de depósito e local do fabrico da cachaça, explicando-me o tratamento dado até o engarrafamento. Foi aí que ela começou a debulhar ideias umas atrás das outras do que pretendia fazer dali uns dias, coisa de super-heroína que não se cansa de fazer mil coisas ao mesmo tempo.

 


O mais interessante é que, ao se manter contato pessoal com ela, logo de chapa tem uma certidão: ela é divertida, articulada, buliçosa e desembaraçada, indo de um assunto a outro, inventando ideia, reaprumando outras, quando não soltando boas e largas gargalhadas com o humor de taurina para lá de alto astral.

 

Logo virei seu fã a ponto de segui-la por todas as redes sociais: YouTube, Palco mp3, Instagram, Twitter e Facebook, aplaudindo o seu talento e a sua promissora carreira de artista.



sexta-feira, fevereiro 25, 2022

NÉSTOGAS & MARWIN LIMA

 

 

I

  

O futuro da guerra

Ursos pardos de guerra

Naquela esfinge as muralhas absolutas

Da mente, da poesia

Reveste a travessia o plano quântico

Automóveis de pedra

Tudo veio do sol de pedra

Amarras d’outros dias

Presas fáceis as plantas corridas

Ora pro nobis da China continental

Amarelo voa por cima das águias

Intuição dos cavalos alegando cobras

Culpando cervos na poesia dura

A arte é a fotografia de vida-sociedade

  


II

  

Os espanhóis ficaram atônitos!

Não se sabe das ideias

Grilos dos meus ombros esporros

Néstogas sinfônica na cabeça

Na cabeça do cabelo

Amarelo a cor do céu

Pitágoras esmurrou Néstogas

  


MARWIN LIMA – O jovem compositor musical, produtor e professor de teoria musical, Marwin Lima, em uma conversa informal com o poeta Vital Corrêa de Araújo foi tomado pela imantação de suas criações néstogas, proporcionando no exato momento daquela conversa a cometer dois poemas instantâneos sob a rubrica absoluta vital. Veja mais aqui.

 



domingo, julho 05, 2020

FIZ UMA CANÇÃO, LUZ&AR



Hoje é comemorado o dia de nascimento de Freya, a senhora das Valquírias. Na mitologia nórdica, ela é a deusa do amor, sexualidade, beleza, fertilidade, ouro, guerra e morte. É a dona do colar Brísingamen, com seu javali do lado, seu manto de penas de falcão e montando uma carruagem puxada por dois gatos. Ela com seus vários nomes governa a vida após a morte e atua no auxilio da fertilidade e do amor.
Na festa de Freya eu escrevi Plenilúnio e cantei Fonte para ela.
Também é o dia de Iaravi, a filha do fogo, caingang. 
E como todo dia é dia do aniversário dela, no meu coração & tudo daqui é pra ela: Luciah Lopez.

LUZ&AR: LUCIAH LOPEZ




domingo, janeiro 26, 2020

A ARTE MUSICAL DE BONNY BROWN EM ENTREVISTA TTTTT



LAM - Bonny, vamos para a pergunta de praxe. Como e quando se deu seu encontro com a música?

Aos meus 14 anos aproximadamente, costumava frequentar uma esquina, próxima da minha residência , no bairro do recife onde ali se reunia alguns rapazes com violões e flautas doce e eu achava muito bonito e prazeroso. Ao completar meus 15 anos, recebi do meu pai um violão (Gianini Trovador) e continuando a frequentar a mesma esquina fui aprendendo as primeiras notas.


LAM - Quais as influências da infância e adolescentes que foram preponderantes para definição de sua profissão pela música?

Observava com tamanha admiração o meu  pai a curtir belas músicas na voz de Nelson Gonçalves , Altemar Dutra ,Calbi Pexoto , Ivanildo sax de ouro entre outros.


LAM - Como e quando se deu a sua primeira apresentação pública?

No ginásio, costumava levar o violão para a escola e me reunia com alguns colegas para tocar e cantar. Certo dia a coordenadora me intimou a fazer uma apresentação no auditório do colégio no dia do estudante e me deu então uma das obras mais bonita interpretada por Milton Nascimento, Coração de estudante, a qual realizei todo trêmulo e tímido.


LAM - Você participou de diversas edições do Forromares. Conta pra gente como foi esta experiência?

A minha experiência ao participar de vários Forromares, além da emoção ,foi muito significativo , naquela fase eu dividia o palco com outro músico de uma bagagem imensa, principalmente na área cultural, o chamado hoje de Zé Linaldo (Linaldo Martins) onde aprendi muito mais na área musical cultural além de me familiarizar com mais um enorme público.


LAM - Em 2000 você lançou um cd acústico e ao vivo. Como foi a realização desse projeto?

Esse projeto foi realizado com muita dificuldade, por fatores financeiros mas ,com ajuda dos amigos empresários e músicos realizei a obra.

LAM - Em 2017 você lançou o cd Bonny Brown, fala pra gente acerca dessa realização.

Mais uma vez enfrentando as dificuldades financeiras, recebi o apoio de outro músico de Recife ,do bairro de Areias , o amigo citado tem um pequeno estúdio montado em sua garagem, facilitando assim a gravação, juntando os músicos que participaram desta obra, meu filho Paulo Raphael (percussão) e o contra-baixista (Marcelo Nunes) meu irmão.


LAM - Em 2019, você lançou o cd Interpretação. Como se deu essa experiência e qual a receptividade.

O disco Interpretação foi uma ideia de um amigo de recife que admirado com a forma e o timbre de cantar forró, me apresentou alguns playbacks do gênero junino e eu resolvi aplicar a voz em um pequeno estúdio em Palmares.


LAM - Você participou de gravações de diversos CDs de amigos, inclusive, o das parcerias de Zé Linaldo & Genesio Cavalcanti. Conta pra gente dessa festa com os amigos.

Recebi vários convites do compositor Zé Linaldo para gravações em seus pois naquela oportunidade trabalhávamos juntos dividindo o mesmo palco. Outros convites surgiram nos lançamentos dos livros do poeta Genésio Cavalcante anexados aos respectivos CDs, onde participei de algumas interpretações.


LAM - Como é cantar na noite e procurar desenvolver um trabalho de cantor nos tempos atuais? Faz uma avaliação da sua trajetória.

Não vejo dificuldades em cantar nas noites, meu trabalho como cantor ou interprete é bem aceito por onde passo, de forma modesta, digo que toda área artística enfrenta hoje, grande dificuldade no momento político que já vem se arrastando por vários anos. No nosso país, a cultura artística precisa de uma melhor atenção.


LAM - Quais os projetos você tem por perspectiva de realizar?

Anseio gravar um novo disco, desta vez com músicas inéditas e usando um melhor recurso, para que possa adquirir melhores qualidades em execução, sonoplastia e etc...


BONNY BROWN – É cantor e violonista que participa de eventos e realizações, possui vários discos gravados e é presença marcante na noite pernambucana. Veja mais aqui.



sexta-feira, junho 01, 2018

28º CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM MÚSICA (ANPPOM)


28º CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM MÚSICA (ANPPOM) – Acontecerá entre os dias 27 e 31 de agosto de 2018, na Faculdade de Artes da Universidade Federal do Amazonas, em Manaus, o XXVIII Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música (ANPPOM), com fórum de coordenadores, mesas redondas, conferências, assembleias, simpósios e comunicações. Maiores informações aqui.


quinta-feira, dezembro 14, 2017

A POESIA DE FÁBIO DE CARVALHO


POEMA LIMPO

A tempestade permanece.
O vendaval aí está.
Mas eu permaneço.
Larga é a minha esperança.
Longa ainda será minha caminhada.
Inconcluso é este meu ser.
Peregrino ponteiro que olha adiante.
Mas para trás também se olha.
Não é preciso volver a face.
Fechar os olhos relembra.
Sente-se o peso dos passos sobre a terra.
O chão está aí para isso.
Como sempre estará.
Eu não deixo que a minha chuva cesse.
Não vai de mim este temporal que explode.
Acabo por ouvir-me no próprio vento.
E vejo que também sou ouvido por ele
do alto desta montanha, que sou eu...
A caminhada nunca terminará.
Sempre ando até mim e me abraço.
Sonho com a calma deste vento que me acompanha
concluindo que é em vão querer livrar-me.
Então paro na caminhada que é minha missão
mas logo vejo que também é em vão.
Devo ir sempre, como meus vendavais.
Vem e cura-me, tempo só meu.
Sinto que a palavra já não alivia.
Eu sou assim como o abstrato feito deste poema limpo...

CIRCUNSPECÇÃO

Meus olhares são sensatos.
Observo a sombra que transmito.
Vejo minha alma de perto.
Toco-a com minha visão.
A sabedoria dos meus olhos me convence.
Vejo em mim este brilho de alma natural.
A minha sombra que lembra escuridão
é a expressão mais intensa daquilo que sou.
Vago em meus brilhos sombrios.
Preciso do sol para iluminar essa aura que me acompanha.
Pondero tudo àquilo que chego a crer.
Preciso muito da resposta que o tempo guarda.
O juízo que aplico é de caráter consciente.
Busco na escuridão de mim uma luz de sabedoria.
Meu discernimento é como o de uma cachoeira.
Deixo que passe por mim tudo o que vier sem que eu seja pedra nem desvio.
Pertenço às coisas que meu semblante desconhece.
Mas se o tempo é surpresa que não tarda
e os meus dias não são meus e que passam logo,
hoje eu sou o que nunca fui, sem destino nem caminho estreito.
Meu discernimento é natural como alguma porta aberta.
Caminham até mim incertezas e solidão.
Mas quando o vento rodopia e enfim devasta,
recomponho-me como um vendaval sem rumo e guia.
A gravidade de me encontrar é algo simples.
Vejo-me, toco-me e reconheço-me.
Abraço-me, olho-me e juro que ainda não sou
o que devo ser e que julgo necessário.
Veio de longe o meu olhar, e por essas distâncias,
perdem-se largas interpretações da minha mente.
Vejo-me por fim, um eco agudo e de ano-luz.
Sinto-me enfim, semente plantada, mas sempre em busca...

VENDAVAL

O vento se dissipa,
mas eu sou o próprio vento.
Vai de mim longa tempestade!
Vago vendaval humano...
Cai uma chuva de brasa.
O vento se transforma em melancolia.
As minhas incertezas, todas se diluem.
Sou eu o vento em brasa.
Sou eu brasa humana quase apagada.
A minha indecisão é olhar este sol
que hoje não quis sair.
Vejo-me como esta nascente
sem hora de talvez, surgir...
A orla já não existe.
Sou eu a própria orla.
As minhas ondas se desvaneceram
como esse dia que se foi.
O clamor da noite já se prepara.
Anoitecer de poente triste
é o meu coração talvez jazido
em lápide florida em lodo.
Eu, o vento longe, vago...
...fui-me talvez sem horizonte
a refazer-me, a recompor-me.
Fiz-me a cinza, o pó, a bruma
para renascer da alta chama...

FOLHA

A liberdade é uma folha que caminha.
Vai-se pelo chão, empurrada pelo vento.
Eu também me vou.
Mas o vento não me inspira.
A folha é quem me desperta a liberdade.
É-me natural ver a liberdade de uma folha.
As folhas são livres!
Mais livres do que muitos homens independentes.
Eu não possuo a liberdade de uma folha,
mas eu caminho contra a direção dos ventos,
guiando meu próprio destino.
Por trás desse gesto natural eu me disperso...
...e fico a procurar fora de mim
um sentimento natural
que não seja trazido pelo vento.
O meu caminhar é sempre contrário.
Mas eu não caminho contrariando-me.
É por isso que eu não me rastejo
como a folha que o vento leva.
Eu sigo caminhando
contra ou a favor dos ventos,
desenhando o meu destino,
com ou sem emoção.
É mais uma folha que eu escrevo
e que este vento não leva.

DECLIVE

A montanha não se move,
e eu me encontro aqui
contemplando este monte, sem pressa.
Ponho-me a imaginar a montanha se movendo.
[ A montanha sou eu. ]
Do alto dela vejo-me contemplando-a.
Minha cabeça é o alto deste monte.
Daqui do chão vejo sua altura.
Vejo que a montanha também é chão.
[ Então piso-me levemente. ]
Se eu chego ao monte alto,
sinto o vento mais forte.
Mas se fitá-lo de baixo,
mais forte é a minha emoção.
[ Quero escalar-me. ]
Se eu paro no meio do monte,
paro em mim mesmo,
sentindo-me percorrido,
vendo-me na própria distância.
[ Desejo caminhar até mim. ]
Diante de mim
vejo-me no monte.
E diante do monte,
vejo-me nele próprio.
[ Sou este eterno monte que desejo escalar. ]

AVE

O meu nome é liberdade.
Eu sou aquela ave que submerge as nuvens.
Assim saem de mim as prisões celestiais.
Os meus voos confundem-se com as minhas livres caminhadas.
Mesmo sem que os meus braços
transformem-se em asas
sinto-me nas alturas
em elevação humana.
Assim mais próximo deste firmamento
sinto-me divino na humana maneira de imaginar.
Vejo que sou livre e que no alto eu me encontro.
A cada metro deste chão reafirmo-me mais seguro.
Do alto, sou uma ave que vaga e que busca
no céu, o chão da liberdade que sobrevoa.
Eu fiz uma trilha que é o meu “caminho-firmamento”.
Não vago triste,
pois sou este que se liberta.
Surge de mim a vastidão livre do mundo
enquanto voo neste meu sonho precioso.
Do chão busquei asas
que me fazem ser sempre mais.
E sendo mais, creio que há mais para ser.
Clama de mim verdadeiro desejo de ser livre.
Nos céus eu me ponho em liberdade que se renova.
É vasto o tempo e imensa a minha busca.
É livre o meu pensar
que encontra aquilo que me completa
e me renova,
pois tenho asas que me liberta.
O céu é largo, mas ínfimo à liberdade.

VAPOR

Eu sempre me desfaço como a água.
Sempre escorro pelos lugares mais dispersos.
Faço-me um lago de fendas sem rumo.
Adentro o chão e evaporo para o céu.
Abro meus braços como as asas de uma águia.
Tenho olhos visionários, talvez, como os de um falcão.
Preso no céu a terra parece evaporar-se.
A cada longo caminho, a caminhada se renova.
Deixo para trás tudo aquilo que me desfalece o espírito.
Sinto que um dia ele fará como as águas.
E evaporando para os limites dos céus,
encontrará no vapor etéreo, a graciosidade do desconhecido.
Vingam em mim contemplações da mente humana.
A cada marcha, largo pelos caminhos minha essência e suor...
...que se evaporam.
Contudo, a mente prossegue,
mesmo tendo as pernas amarradas.
Submerjo meus olhares nos atos neutros.
Neutralizado, penso em desvanecer-me enquanto há tempo.
Mas o tempo também se evapora
e com o passar dos dias, eu evaporo como o tempo.
Espero sempre que a minha alma se recolha.
O silêncio também dissolve em bolhas, em ar quente, meus pensamentos.
Mas sempre que um pensamento se esvai,
logo um outro chega, e sem que eu perceba, ele se evapora.
Eternamente, as minhas conclusões são feitas de vapor.
Logo que as retiro de mim ou das coisas, perco-as.
E enquanto vejo-me, assim, disperso como a folha seca que cai da arvore,
concretizo meu dia como o canto de um pássaro quando acaba.
De contínuo, como tudo se perpetua, sigo atravessando com os dias, ideais.
Prontamente, concluo-me como um calendário passado.
Logo tenho a certeza que fui vapor, e ainda assim, evaporarei...
...como o gás emanado da metamorfose da água.

ARTE

Eu sempre desenho a vida escrevendo.
Mas para isso eu devo sentir-me vivo.
Desconhecer a vida em si não é tarefa minha.
Por isso eu não pinto a vida.
Eu escrevo-a vivendo intensamente.
Jamais coloco fatos nas páginas do meu destino.
Ele representa para mim
um desenho natural.
Nunca rabisquei um dia
Ou uma semana para vivê-la.
Por isso eu crio a obra executando-a
como quem fala sem meias palavras,
como quem vive, vivendo...
Esta obra composta por mim
é a minha existência vivida profundamente.
Meu gesto mais forte em vida é compor.
O meu ato maior, o cerne em si de viver.
Viver para mim é sentir-se vivo,
achar-se pleno, ver-se no amanhecer,
que renasce, ressurge...
...como se um sol vivo dentro de si explodisse.
Nunca reprovei um gesto meu de criação.
A vida para mim é uma constante poesia.
Uma arte derradeira que renasce a cada ato.
As minhas ações não perecem quando findam,
pois de pronto surge um novo ato
fazendo renascer a vida nova
diante de mim e de tudo mais...

DESENHO

Descrevo-me como a natureza.
Ela faz o sol se pôr.
Eu me ponho em muitos lugares
e concluo que não brilho como o sol.
Sempre observo a noite vertendo escuridão.
Estrelas rompem a penumbra celestial.
Madrugada serena origina o silêncio.
Mas interrompo o silêncio com a poética que emana
do meu silêncio-metamorfose.
O amanhecer me abre os olhos.
A luz do dia ergue-se me erguendo.
E enquanto a fome encoraja passarinhos a voarem sem destino,
vou acordando os meus dias.
E com todos já traçados,
não há como descarregar deles, incertezas,
para redesenhar o esboço da obra,
e deitar sobre a moldura, recompostas pinceladas,
com iguais  cores, mas de profusos sentidos.
Calma é sintoma quando a alegria de algum dia me invade.
Mas a alegria dos dias sempre existirá.
E é para todos.
E me define, como qualquer tristeza,
que carrega o sintoma que também desenha
e redesenha qualquer um que se faça triste,
ao inquietar-se, em tormento,
ao abrandar-se, quando sossega.
É justo desenhar-se.
Redesenhar-se é retidão.
Ainda a natureza, igualmente, é mutante,
em ascensão e declínio,
configurando-se por direito
no declínio ou na ascensão.
Somos natureza, que precede e incide,
letárgica e ressuscitada.
Natureza humana e Santa Natureza
a quem o mundo glorifica e profana.
Cultivemos seringais!
É preciso coragem!
Todos nós precisamos de borracha...
Eu caminho em direção ao tempo,
Mas recuo.
Abro a janela do destino,
buscando-me a cada dia, procurando conhecer-me,
inconscientemente.
O lado oposto da estrada
é o meu lado do coração.
A reta contínua do destino confunde-me,
mas prossigo.
Vejam: há adiante caminhos eternos.
Todos eles me constituem.
Por isso percorro-me.
Sou de profundeza singular e de caminhos plurais.
O mesmo eu reproduz-se.
Mas insurgem de mim vastidões de egos.
Sou as estradas que percorro,
a curva, a reta,
as direções sem fim...
Eu sou o destino.
Sempre perto, sempre longe.
Alegre e triste.
Acontecido e para acontecer.

ESPERANÇA

A noite decai sobre mim.
Mas eu sou a própria noite.
Abandona-me, escuridão celeste.
Vasta inquietação humana.
Hoje a tempestade não veio.
Mas a correnteza continua seu trabalho.
O ponteiro não para, seu ato é externo.
E a minha sombra continua e me acompanhar.
O vento também semeia do céu as aves.
Esta é a sina de cada estação.
Existir não é uma questão de querer.
Ouvir-se é o primeiro passo.
O farol do meu templo é de grandeza perpétua.
Portas se abrem com a arte de sonhar.
É intenso partir sem olhar para trás.
Cada pedra existente é o desenho da esperança.
Busco em um outeiro o reflexo da luz do meu horizonte.
Mas sei que logo o ocaso voltará.
Cada circunstância da vida deixa resquícios atemporais.
Por isso a estrada é o espelho de toda caminhada.
Cada gesto da natureza é uma metamorfose constante.
Por isso chove e eu sei que sou a própria chuva.
Cessa e deixa-me, vendaval dos tempos.
Faz-me folha livre, mas que o vento não me guie.
A escultura de cada estação é feita de destino.
Descobrir-se na escultura é achar-se arte humana.
Amanhece em mim a expressão do pensador
me eternizando como o mar que não evapora.
Não há retorno de tempo. Tudo é chama.
Cada dia que surge é uma passagem derradeira.
Ser e estar são o mesmo que ouvir-se e existir.
Verte-se o vapor que a expressão dos olhos lança.
O futuro estar no agora que será qual folha que vento leva.
É ilimitado este presente que se procria.
O princípio deste agora é o que se vive.
“Esperança não é vir, é não dissipar-se quando for...”.
Mas a noite se debruçou.
Sinto-me por fim essa escuridão.
Mas logo serei o intenso amanhecer.
Infinita luz de vida humana...

TEMPESTADE

Despedaça a tempestade.
E eu escorrendo.
Anda em mim terremotos,
chuvas, imagens
deste céu que aniquila
trovões...
Relampeio na solidão noturna.
Vejo meu brilho que rasga o silêncio.
Sou a luz que se esconde.
Sou a voz que não fala.
Vendaval de dilúvio que se prepara.
Gotas temporais saem de mim vorazmente.
Meu segredo é saber ser esta tempestade.
Algo diz que meu céu só desaba desgosto,
que de mim despontam tufões e extensas ventanias.
Por fim cessa a tempestade.
Cessa porque preciso dormir.
Estanco estes invernos estrondosos
sempre que choro-me.
E quando minhas lágrimas sustam
esta tempestade,
este eu-temporal se esvai.

EU, DENTRO DE MIM...

...mas eu vago na noite que é longe e que passa.
Esta é a natureza das coisas.
Passo por esta noite como o vendaval.
E fico na memória de um só dia.
Não me sinto chama como o fogo alto.
Basta-me a liberdade de andar em meu declive.
Sou substância humana que não cessa
como este vento que traz tempestades.
O que pensar diante do próprio ego?
Dentro de si nem sempre nos achamos.
Perder-se do próprio ser é sempre a pior tragédia.
Prisão não é estar preso é não querer ser livre.
Mas mesmo sendo peregrino,
- “o caminhante de cada estação” -,
encontro em mim meu eu em liberdade
capaz de ser meu principio eterno,
terno ser, de começo sem fim...


FÁBIO DE CARVALHO - Poemas extraídos da obra Poema limpo: eu, dentro de mim (Amazon, 2017), do poeta, historiador, professor, arte-educador, compositor e músico Fábio de Carvalho Maranhão. É idealizador do projeto Lançando Poetas, desde 2010, com lançamento de 16 poetas na antologia Um tiquinho de cada (2010), e 31 na antologia Palavras da Vida: poemas que ensinam a viver (2010). É editor dos blogs Poeta Fábio de Carvalho, A crônica da semana & outras prosas & Toda Opinião. E veja muito mais aqui.