sábado, março 09, 2013

JU MOTA




JU MOTA – a cantora e compositora carioca radicada em Limoeiro, Pernambuco, Ju Mota, vem duma família onde sua avó paterna era pianista e os pais possuíam uma belíssima voz cantarolando sempre música brasileira. Foi aí que aos 7 anos ganhou um piano e começou a estudar o instrumento, além de se apresentar no teatro da escola. Logo abandonou o piano porque não foi avisada que teria que começar pelo erudito, quando ela já era voltada para o pop, bossa-nova, xote e forró. Daí dedicou-se à poesia durante a adolescência, cursou até o 6º período de Administração, até que, em 2005, passou a participar do grupo Seresta Adalberto Moreira. Em 2007 lançou seu primeiro cd, “Em tudo está você”, ganhando dois prêmios do Clube dos Compositores do Brasil, em São Paulo. Ela agora está lançando o seu segundo cd “Ju Mota Amando”, com lançamento previsto para muito em breve. Dona duma belíssima voz, a simpática Ju Mota concedeu uma entrevista exclusiva pra gente. Confira.

LAM - Em primeiro lugar, me conta logo essa história de nascer carioca e findar em Limoeiro? Como você faz essa ponte hoje divisando o Rio de Pernambuco?

Pois é amigo, meus pais são pernambucanos e em busca de uma melhora de vida, foram morar no Rio. Lá se encontraram, casaram, tiveram seus 3 filhos e depois de algum tempo, voltamos para Pernambuco.
Eu me considero pernambucana com muito prazer. Adoro tudo isso aqui, seus costumes, sua cultura e o sotaque...tenho totalmente....rsrs. Mas, também amo de coração minha cidade natal, o samba corre nas minhas veias. Ainda desfilo na Sapucaí!!! Acredito que um dia ainda volto.



LAM - Você começou aprendendo piano, depois fez teatro e apareceu a música.  Rasgou todos os poemas e aí? Quando foi e como se deu seu encontro com a arte mesmo, hem?

Na minha família, a arte sempre esteve presente. Minha avó paterna era pianista e também tocava serafina na igreja.
Meus pais, donos de uma belíssima voz. Então desde criança, só ouvia música de qualidade e adorava cantar. Ele vendo o meu jeito, comprou logo um piano e comecei aprender aos 7anos. Só abandonei porque sempre amei MPB, Bossa Nova, samba, pop e queria começar por aí no piano, e não é assim. Temos que começar pelo erudito.
Mas...
Então, fazia minhas poesias, representava nos teatros da escola e da cidade, dançava e cantava.
Recursos aqui para realizar meu sonho eram zero.
Fiquei muito triste e não vi nenhuma perspectiva de seguir em frente. Então rasguei minhas poesias que hoje, poderiam ser músicas.
Quem tem a arte no sangue, em algum momento, aflora, não é verdade?

LAM - Quais as influências da infância e adolescência que marcaram a personalidade da artista?

Artistas que amo como: Elis Regina, Maria Betânea, Claudia Telles, Zizi Possi, Maysa, Maria Creuza, Nana Caymmi, Joanna, Carmem Miranda. E homens, Gonzaguinha, Roberto Carlos, Tim Maia, José Augusto, Ivan Lins, Miltom Nascimento, Djavan, Tunai, Nando Cordel, Zé Rodrix... pô,muita gente legalll, ainda citaria bem mais..rsrs



LAM - Você fez Administração e abandonou, também participou do grupo de seresta Adalberto Moreira, fala dessas experiências distintas?

A arte sempre foi em primeiro lugar. Mas não tendo espaço aqui, optei por outros caminhos.
Na realidade, gostaria de ser veterinária, amo os nossos verdadeiros amigos, os animais. Mas como não deu, fiz Administração de Empresas, mas no 6º período abandonei. Não tinha nada haver comigo...
Então, aparece alguém em meu caminho, que me escuta e me dá forças para lutar. Foi quando entrei no Grupo de Seresta, onde, graças a DEUS, tive uma receptividade muito boa do público e dos colegas.
Depois disso, decidi fazer carreira solo.

LAM - Em 2007 você lançou seu primeiro cd “Em tudo está você”. Fala do processo, da experiência e da receptividade desse primeiro trabalho?

Foi maravilhoso por estar realizando meu grande sonho. Me senti assustada, confesso, mas foi legal. Novos aprendizados. Um mundo novo na verdade.
Não foi totalmente como eu queria, porque, eu queria mesmo de MPB, mas não tinha grana pra isso.
As autorizações custavam caro...
Parti para composições minhas, xote e forró de amigos compositores como Xico Bizerra, Petrúcio Amorim e outros, que me liberaram sem custos.
Graças a DEUS, esse trabalho mostrou que eu não deveria desistir!!!

LAM - Você é bem eclética, reunindo no seu repertório Paulo Diniz, Acioly Neto, Dominguinhos, Nando Cordel, Petrucio Amorim, Xico Bizerra, mas também Tunai, Adriana Calcanhoto, por aí. Como se define o seu repertório? Qual a proposta?

Eu canto o que gosto e me faz sentir bem. Não quero ser rotulada. Apenas isso.



LAM - Você além de cantora dum timbre belíssimo, também é compositora. Fala das experiências de cantar e compor? Ambas se complementam?

Olha, compor uma música, é como ter um filho... MAGNÍFICO!!!
Não tenho nenhum critério para criá-las. Na realidade, elas surgem em qualquer lugar e a qualquer hora. Às vezes no banho, daí saio correndo do chuveiro, ou deitada, já pra dormir, e vem. Não tem jeito, é levantar, anotar e gravar logo. E com certeza, ambas se complementam.

LAM - Você agora está lançando o seu segundo cd, “Amando”. Fala da expectativa e das perspectivas deste novo projeto?

Esse é mais um filho adorado. Gravei como queria, com músicas que amo, de artistas que amo.
Desejo mostrar ao Brasil, que apesar de morar no Nordeste, aqui também temos artistas que cantam MPB, Bossa Nova, samba, etc. E fazem bem. Olha o Lenine, por exemplo. O cara é show!
Mostrar ao Nordeste que também devem valorizar esse tipo de artista, que normalmente, só crescem no sul do país.
O Nordeste tá cheio de cultura.
Espero com esse novo trabalho poder mostrar ao mundo que eu existo, além de tantos novos talentos por aí, ainda não reconhecidos.
Contanto que: isso acontecendo, que eu nunca perca a humildade.
Muitos já se acham entendidos de tudo, mas enquanto tivermos um segundo de vida, temos algo a prender.



LAM - Você tem um belíssimo sítio na rede, a internet tem contribuído para a difusão do seu trabalho artístico?

Demaissss!!!!
Através da internet, já toco em todo o país e atravessei as fronteiras, onde cheguei a Portugal e ao Japão.
Vendo minhas músicas, meus cd. Estou muito feliz.

LAM - Quais os projetos e perspectivas que a artista Ju Mota tem por realizar?

O meu projeto atual, está em fazer o lançamento do cd em várias capitais. Estou na batalha, correndo atrás de apoios. Não é fácil...
O primeiro será agora em maio, aqui em Pernambuco.
Também estou aguardando a qualquer momento ser chamada para receber 2 prêmios, pelo Clube dos Compositores do Brasil em São Paulo, que ganhei por duas composições minhas do primeiro cd.
Desejo viajar por esse nosso país, divulgando música de qualidade, que hoje por sinal, estamos bem carente...
Finalizo agradecendo o carinho e a atenção e uma frase que serve para muitos: Desistir dos sonhos é morrer antecipado!
Paz!



Confira mais no sítio da Ju Mota. Contato p/fones: 0xx81 8891-4255/9712-2573


MARCIO BORGES, UMA ENTREVISTA




Foto: Fernando Fiuza.

MÁRCIO BORGES: OS SONHOS NÃO ENVELHECEM! – Poeta, escritor e compositor musical, é autor, entre outras tantas canções, de “A sede do peixe”, “Vera Cruz” e “Clube da Esquina 2”, com Milton Nascimento, “Contos da lua vaga”, com Beto Guedes, e “Quem sabe isso quer dizer amor” e muitas outras com seu irmão Lô Borges.
Integrante do Clube da Esquina, Marcio contou a sua poética história ao publicar o livro “Os sonhos não envelhecem – História do Clube da Esquina”, onde ele talentosamente conta tudo que se passou desde os anos 60, com suas utopias e anseios, enfrentando a arrogância do autoritarismo, escrevendo letras para canções dos seus parceiros, sonhando um mundo melhor, tomando biritas e muita poesia no ar. Narra no livro os momentos históricos dos últimos 50 anos, como num filme em que ele e seus parceiros são os protagonistas.
O livro “Os sonhos não envelhecem – História do Clube da Esquina”, tem prefácio de Caetano Veloso e posfácio de Milton Nascimento, contando com três partes, a primeira delas abordando sobre o Edificio Levy, Jules e Jim, viagem a Tres Pontas, festival da fome, o vendedor de sonhos, outras vozes e cidade vazia. Na segunda parte ele traz Travessia, Vera Cruz, Beco do Mota, os deuses e os mortos, Para Lennon e McCartiney, Mar Azul e Nada será como antes. Na terceira e última parte, ele conta sobre o Milagre dos peixes, Gran Circo, Pão e Água e muito mais. Simplesmente imperdível.

Depois de realizar duas entrevistas com Milton Nascimento e uma outra com Fernando Brant, agora chegou a vez de um bate-papo com Marcio Borges.

Com vocês, Marcio Borges!

LAM - Márcio, vamos para minha pergunta de praxe: como foi e quando se deu seu encontro com a arte?

Encontrei a Arte a primeira vez passando na porta lá de casa. Eu era menino, convidei ela pra entrar, mas ela ficou lá no portão, me olhando de longe.
Ela fazia coisas impressionantes: rodava a saia, tocava cavaquinho com sete dedos e meu irmão mais velho saía ao portão para acompanhá-la num violãozinho velho, de som rachado. Um dia ela resolveu entrar no meu quarto e se mostrar. Primeiro, mostrou a cara de um jovem homem com a mão no queixo, chamado Chega de Saudade.
Noutro dia, a cara que ela me mostrou foi a de um garoto preto, com ares de príncipe africano. Depois, a fotografia de uma turma de loucos geniais. Quando eu quis cortejá-la pra valer, enchendo meu baú com cartas de amor, ela me convidou para ir ao cinema. Na porta, me comprou umas revistinhas de heróis, alguns livros misteriosos, e me disse que eu precisava aprender a vê-la com outros olhos. Quando tentei fazer isso e olhei para o lado, lá estava uma garota incrivelmente bonita e gostosa. Ela sorriu pra mim, toda convidativa. Saímos quase correndo do cinema e fomos parar no segundo andar de um boteco enfumaçado. Ali sim. Entre garrafas e tocos de cigarro, ela beijou minha boca, escandalosa, surreal. Mas quando eu quis fazer amor de verdade, ela já tinha me dado o fora.

LAM - Quais as influências de infância e adolescência que marcaram a formação do compositor?

Meu tio-avô era maestro da orquestra da PM, minha avó tocava clarinete, mamãe era professora primária e dava aulas de solfejo e canto orfeônico, numa família de onze filhos. Meu pai era jornalista, copidesque, que não nos deixava falar nem escrever errado, ao custo de alguns beliscões raros e radiantemente aplicados. Um dia, ele descobriu uma mala velha que eu mantinha debaixo de meu andar térreo do beliche, cheia de escritos, cartas, contos, versos, ensaios, roteiros, que eram minha expiação e minha vergonha. Eu tinha uns quinze anos Quando vi meu pai com minha mala aberta, lendo e relendo meus escritos secretos, primeiro me senti um menino flagrado dentro do banheiro. Ele olhou pra mim e disse: "você escreveu isso?" Quando eu confirmei com a cabeça, ele ficou muito emocionado: "você está começando por onde eu ainda não cheguei." Recebi aquilo como uma ordem. Nunca mais escondi nada que escrevi. Isso marcou minha formação como ser humano e meu primeiro contato com o leitor.

LAM - O seu começo ocorre com a sua primeira parceria com Milton Nascimento, por volta de 1963, ou já rolava coisas antes disso?

Bom, meu começo foi esse começo secreto que eu falei, em 60, 61. Depois, quando resolvi escancarar, compus um samba chamado "Eu e o Violão" com um garoto vizinho nosso, o Marcelo Ferrari, que deve ser uns dois anos mais novo do que eu. Este samba fez o maior sucesso no Edifício Levy, onde morávamos, era cantado nas festinhas e na portaria. O Bituca também morava no Levy e era frequentador de minha casa, onde rolavam uns ensaios com Wagner Tiso, Marcelo Ferrari e Marilton, meu irmão mais velho. Foi depois desse início aí que fiquei amigo do Milton, Bituca pra nós. Então, certa noite Bituca e eu compusemos três músicas de uma vez só e declaramos definitivamente aberta a temporada de caça aos leões e às garrafas de batida de limão.

LAM - Consta que você tinha uma forte predileção por cinema, fala, então, daquele seu sonho de cineasta.

Minha paixão pelo cinema vem desde meus dez anos de idade, quando assisti o primeiro filme de minha vida, "Simbad, o Marujo", com Sabu. Eu quis ser aquilo, ser o ator, ser a cena, ser o mar, ser o próprio cinema, ser aquela luz jorrando no escuro. Na tal mala velha, o que mais tinha era roteiro de filme. Roteiro de curta, roteiro de curtíssima, roteiro de média, roteiro de longa. Eu era um cinéfilo total, era associado do CEC - Centro de Estudos Cinematográficos - que tinha palestras do Paulo Emilio Salles Gomes, Glauber Rocha, do Dib Luft, do irmão dele, o Sérgio Ricardo, Maurice Capovilla, Ronaldo Brandão, Mauríco Gomes Leite, Cyro Siqueira e tantos craques. A gente via todos os clássicos, de David Ward Grifith a Murnau, Nosferatu, Nascimento de uma Nação, Abel Gance, Hitchcock, Dziga-Vertov, Pudovkin, Eisenstein, Vitorio de Sica, Rosselini, Antonioni, Fellini, Pasolini, Godard, Truffaut, os americanos, John Ford, George Stevens, Raoul Walsh, Howard Hawks, Nicholas Ray, Sam Peckimpah, a gente via e estudava tudo.
Em 1966, fiz um curta-metragem "Joãozinho e Maria", tão doido que o Festival de Cinema Amador JB-Mesbla precisou arranjar um prêmio pra ele que não existia, não estava no script: "Melhor Inventiva Formal". Esse curta foi premiado também no Canadá, no Festival Mundial de Filmes da Juventude da Expo' 67.
Bituca é outro cinéfilo. Até ator do Werner Herzog o cara já foi. Fora suas participações nos filmes do Carlos Alberto Prates Corrêia.
Agora, acontece o seguinte: o cinema foi a arte por excelência do século 20, mas terminou antes do século.
No século 21, então, o cinema está pra lá de morto. O filme virou só mais um produto audiovisual, coisinha à tôa, telefilminho, telinha, televisão, salinha de exibição em shopping center, artigo de locadora de vídeo. Não é mais cinema. Mesmo Hollywood hoje faz outra coisa, mais ligada à indústria da computação e dos eletrodomésticos do que ao espírito das pradarias e do sonho americano.

LAM - Você integra uma família de músicos que, inclusive, são seus parceiros em muitas das suas músicas, ao lado do Milton, do Beto Guedes, do Flavio Venturini, entre outros. Fala, então, do trabalho de "Os Borges", como se deu? E, aproveita, dá um toque sobre o trabalho e relação com seus parceiros musicais.

Aquele disco "Os Borges", no início dos anos 80, foi ideia da Duca Leal, mãe dos meus dois filhos mais velhos. Ela havia acabado de produzir um disco sensacional, uma raridade, que todos deviam ir atrás, da cantora mineira Aline, hoje falecida. Um disco com participações de Wagner Tiso, Toninho Horta, Jaime Além, Jotinha de Morais, Jamil Joanes, Paulo Braga e mais um monte de craques. Aliás, foi a primeira gravação de "Vento de Maio". Por causa dessa gravação da Aline é que a Elis gravou também.
Pois bem, no embalo desta bela produção, a Duca levou a ideia do disco dos Borges ao Adail Lessa, diretor da EMI-Odeon. Ele comprou a idéia e colocamos dentro do estúdio uma verdadeira tropa de elite, tudo canja, tudo tocando de graça, além daquela Borjaiada toda, Elis Regina, Milton Nascimento, Naná Vasconcelos, Guilherme Arantes, Chico Lessa, Toninho Horta, Fredera, César Camargo Mariano, Gonzaguinha, Nivaldo Ornelas, Wagner Tiso, Toninho Costa, Rubinho Batera, orquestra e mais um tantão de gente boa. O trabalho de "Os Borges" então se resumiu a isso. Tentamos fazer uns shows em São Paulo, e até fizemos alguns bons, com casa lotada, mas não éramos suficientemente profissionalizados pra dar sequência. Quem foi, foi. Quem não foi, tratou de fazer outra coisa.
Quanto aos meus parceiros musicais, continuo em atividade principalmente com o Lô. Com o Toninho Horta fizemos agora uma linda "Canção da Juventude" depois de vinte anos, e estou começando uma parceria nova com a sobrinha dele, a genial pianista Diana Popoff, filha do Iuri, contrabaixo.
Com o Beto Guedes e o Bituca, ando meio parado nas composições, mas não no resto, que é a amizade.
O Bituca agora, de parceiro virou concorrente meu, porque ele anda compondo muito mais letras do que músicas.
O Flávio, a gente tem uma fita cheia de temas inéditos, mais ou menos prontos pra ganhar letra.
E pinta um ou outro parceiro novo, como o Rodrigo Borges, meu sobrinho, e o Celso Alves, compositores danados de talentosos, também o Amarildo Silva e o Francisco, do grupo Cambada Mineira, com quem gosto muito de compor. E tem também, quer dizer, teve, o Tunai, que foi meu vizinho em Santa Tereza, Rio. Fizemos umas duas ou três músicas porretas naquela época e só não compusemos tudo que tínhamos direito naqueles dias porque eu era um sujeitinho muito, digamos, avoado.
Agora tô avoando menos, e em (des)compensação, compondo muito menos também. E já vi que ele está cheio de parceiros no glorioso Carpe Diem. Humildemente também me habilito. Ou melhor, me reabilito, no sentido auto-ajuda do termo. E devo ter mais parceiros por aí, sumidos de mim, na poeira dos tempos, no turbilhão da vida, Davi Tygel, Zé Renato....



LAM - No seu livro "Os sonhos não envelhecem" você faz um relato minucioso de descobertas e realizações. Como foi construir uma obra poética libertária e universal num tempo tão adverso como o período da ditadura militar?

Foi como respirar. Foi como gritar junto com o Bituca: "me deixem cantar!". Foi chorar de tristeza e raiva, porque o velho Dorival Caymi não podia mais cantar meus versos, escritos com tanta paixão, "Hoje é dia de El-Rey", porque alguma burocrata tinha censurado tudo. Versos ingênuos? Tudo bem. "A canção mesmo que ingênua / mudou as nossas vidas / guiou os passos que seguimos / que éramos felizes bem sabemos / escrita em nossas almas tão unidas / total garantia que a emoção tomou conta da vida / e tanto amor jorrou" nas palavras do Bituca.

HOJE É DIA DE EL REY
(Milton Nascimento e Márcio Borges)


Filho – Não pode o noivo mais ser feliz
Não pode viver em paz com seu amor
Não pode o justo sobreviver
Se hoje esqueceu o que é bem-querer
Rufai tambores saudando El Rey
Nosso amo e senhor e dono da lei
Soai clarins pois o dia do ódio
E o dia do não são por El Rey

Pai – Filho meu ódio você tem
Mas El Rey quer viver só de amor
Sem clarins e sem mais tambor
Vá dizer: nosso dia é de amor

Filho – Juntai as muitas mentiras
Jogai os soldados na rua
Nada sabeis desta terra
Hoje é o dia da lua

Pai – Filho meu cadê teu amor
Nosso Rey está sofrendo a sua dor

Filho – Leva daqui tuas armas
Então cantar poderia
Mas nos teus campos de guerra
Hoje morreu a poesia

Ambos – El Rey virá salvar...

Pai – meu filho você tem razão
Mas acho que não é em tudo
Se o mundo fosse o que pensa
Estava no mesmo lugar
Pai você não tinha agora
E hoje pior ia estar

Filho – Matai o amor, pouco importa
Mas outro haverá de surgir
O mundo é pra frente que anda
Mas tudo está como está
Hoje então e agora
Pior não podia ficar

Ambos – Largue seu dono e procure nova alegria
Se hoje é triste e saudade pode matar
Vem, amizade não pode ser com maldade
Se hoje é triste a verdade
Procure nova poesia
Procure nova alegria
Para amanhã...


Construir uma obra poética libertária foi construir a nossa própria liberdade. Universal a obra se tornou à nossa revelia, porque a eram nossas filhas, que correram na frente dos pais e rodaram mundo antes de nós. Foram elas que fizeram valer a pena a gente ficar e atravessar a barra pesada, chorando e curtindo, na paranoia e na ousadia, passo a passo, gole a gole, trago a trago, puxando e prendendo, passando a bola, segurando a onda e acolhendo os amigos clandestinos. Entrando nas cadeias. Nas passeatas e palanques.
No livro eu nem fui tão minucioso, só selecionei 12 ou 13 episódios daqueles tempos, aliás, contados com bastante inexatidão. Só depois de cutucado pelos amigos, "olha, não aconteceu desse jeito", "eu estava lá e você não citou." "Não foi em Diamantina, foi na Alemanha Oriental" aí é que eu fui me lembrar de mais umas 20 ou 30 coisas mais precisas que eu devia ter escrito naquele livro. Que pena, já estava feito!

LAM - E agora nesse inicio de novo milênio, como você vê o Brasil? A esperança resiste ou os tempos são outros para novas descobertas?

Amigo, eu vejo o Brasil totalmente contraditório dentro desse mundo porra louca e contraditório. O Brasil é o avesso do avesso do avesso. O mundo todo está uma porcaria, aliás, dominado por essas "imporcorações" transnacionais todas aí. Escapou das mãos de Stalin e Hitler, sobreviveu a Hiroshimas e Pearls Harbors, Garrastazus e Pinochets, mas não escapou das garras do Bill Gates, do Steve Jobs, dos meninos do You Tube e do Google, os atuais seis ou sete donos do mundo. Caralho! E tem o Lula, o Obama!
Por falar nisso, a Dilma foi minha amiga de adolescência e outro dia ela se lembrou de mim numa entrevista de uma revista feminina, dizia toda convicta, e com razão, porque ela também viu de perto essas coisas todas acontecerem: "você sabia que o Clube da Esquina começou na casa do Marcinho?" Quando eu li aquilo me lembrei de nossa juventude e confesso que chorei. Se dependesse daquela amiga, minha esperança continuava para sempre a correr solta nas ruas de Belo Horizonte, "Tupinambás, Aymorés, todos no chão."

LAM - Para você o que você faz é poesia ou letra? A seu ver é a manutenção da tradição de excelentes construções poéticas da música brasileira e o caminho da poesia contemporânea é outro, ou as duas se confundem dificultando uma distinção entre ambas?

Essa velha, clássica, e sempre boa discussão...
Eu e o Telo Borges, meu irmão, de vez em quando damos umas oficinas de criação de letras e músicas, para pessoas de qualquer idade, relacionadas ou não com a música ou as atividades ditas culturais. Quer dizer, pra qualquer um que se habilite. Numa delas eu comecei dizendo que o letrista mais antigo que eu conhecia era um tal de Homero, que havia composto duas enormes músicas chamadas Ilíada e Odisséia. Claro que isso era só uma "boutade", fazia referências não muito exatas ao mundo grego, porque na verdade os coros vieram depois de Homero, nas festas dionisíacas, onde surgiram os ditirambos cantados, bla bla bla.
Tem Aristóteles, tem Hegel, tem Nietszche, tem muita gente boa que gastou muito tempo explicando o que é poesia, onde residem o fato e o fazer, etc e tal.
Tem o Mallarmé dizendo que um poema não se faz com idéias, mas com palavras. Acho que ele, com isso, queria dizer o que eu mesmo penso desse papo: a poesia é um estado especial de receptividade dos sentidos e da mente humana, sensibilidade que pode ser provocada por um entardecer magnífico, uma lembrança emotiva, uma brisa, um gosto, uma ideia ou um encadeamento sonoro de instrumentos e palavras.
Agora, o poema e a letra de música não são isso. São resultado de uma operação humana de outra ordem, mais complexa. Elas são frutos de um fazer. Por isso mesmo, essas duas formas de fazer tem mais coisas em comum do que são estranhas entre sí.
Primeiro de tudo, ambas são construidas por palavras e vocábulos. Ambas conduzem ritmo. Ambas ocorrem numa duração, no tempo, e não no espaço. Ambas buscam despertar aquele sentimento de que falei, de receptividade especial dos sentidos, a tal poesia. E qual a diferença fundamental entre cantar e recitar? Respiração? Entonação? Inflexão? Seja o que for, não está na poesia.
O Brasil tem excelentes poetas-poetas, como o Carlos Figueiredo, Claudio Willer, Edson Cruz, Tonico Mercador, dezenas, centenas de ótimos poetas, dos que publicam e recitam, e tem também dezenas de excelentes poetas-letristas, como alguns caras do rap, os caras do Rappa, o Arnaldo Antunes, o Murilo Antunes, o Chico Amaral; alguns me incluem aí, mas eu realmente me incluo mais da praia do Ronaldo Bastos e do Fernando Brant, do Erasmo Carlos, do Paulo Sérgio Valle, somos uns fazedores de canções, uns operários das letras.

LAM - Para você, qual a situação do compositor nesse tempo de pirataria e crise do mercado fonográfico?

Situação volátil. A indústria fonográfica vive uma derrocada irreversível. Os últimos dias de Pompéia. Um salve-se quem puder.
Agora os ex-magnatas querem se agarrar ao que resta, já que a sua fabriquinha de vender bolachas redondas com buraquinhos no meio não tem mais utilidade, porque agora os ex-compradores preferem fazer em casa. O que restou então, o que eles finalmente enxergam agora, nos seus estertores, foi o conteúdo. Ah, agora eles reparam que o conteúdo da bolacha é o próprio artista, o compositor. Então, vamos investir tudo nas editoras, agora. A bolacha acabou, viva o recheio da bolacha! Creative Commons, etc e tal. Pra enriquecer ainda mais o Bill Gates, o Steve Jobs, os meninos do You Tube e do Google, mas pelo menos, pensa o derrotado, sobra uma merreca pro ex-poderoso executivo da quase extinta indústria fonográfica, se ele topar fazer uns DVDzinhos aí, colocar na internet, etc.
Pô, a internet já tem dono. Quem acha que não, feche o computador ou crie outro código. Quer saber? Eles que se fodam agora, porque o artista já estava fodido faz tempo.


Imagem: Milton Nascimento e Márcio Borges no lançamento da Associação dos Amigos do Museu do Clube da Esquina. Belo Horizonte, MG - 2004. Foto: Juvenal Pereira Site Museu Clube da Esquina

LAM - E o projeto do Museu Clube da Esquina? Fala a respeito das propostas, atividades e realizações dele. O sítio do museu é muito interessante, o conteúdo tem além das composições do grupo, também uma série de seções como de quadrinhos, exposições, trabalhos acadêmicos, entre outros. Quais as perspectivas?

Já fizemos muitas coisas nesses 5 anos de operação viva e virtual, muitos shows, eventos, exposições pelo Brasil todo, palestras, oficinas, parcerias, quase tudo realizado graças ao trabalho incansável da Claudinha Brandão, idealizadora, produtora executiva e locomotiva do Museu Clube da Esquina. A ideia original, de juntar essas atividades todas num espaço físico dedicado à preservação de memória e criação musical, esta depende do Estado e do Município. Aí precisa ser, não é? já viu. Em duas palavras: Dom Quixote. Em uma: Sísifo.

LAM - Quais os projetos que Márcio Borges pretende realizar?

Pretendo realizar o espaço físico do Museu Clube da Esquina em Belo Horizonte, do jeito que a arquiteta Marisa Hardy projetou. Não importa quanto tempo isso vá demorar. Se eu morrer antes, meu fantasma vai assombrar o ex-cine Santa Tereza até a Prefeitura doar o lugar para o Museu. Enquanto estou vivo, pretendo publicar dois livros ainda este ano, sendo um romance de ficção e uma coletânea de textos históricos. Pretendo continuar compondo, escrevendo livros, dando palestras e oficinas. Se ainda houver tempo, pretendo também virar mascate, como aqueles das mil e uma noites, sair por aí vendendo trapizongas e truques mágicos em praça pública.
Quem quer comprar meus sonhos?




SUELI COSTA



Foto: Rogério Reis



SOLIDÃO

Luiz Alberto Machado

Se um dia eu tivesse a canção
Uma apenas seria o bastante
E se a tanto chegasse à paixão pelos alto-falantes
Há tempos que eu não sei

Ah, há o hesitante teibei
Eu sei por que não ganhei tudo
Que a vida me deu, nem perdi nem me iludo,
Só aconteceu

É tudo medonho
Até quando o sonho se foi e valeu
Por todas as vozes que são minhas
E guardo sozinha às braçadas
Das guerras perdidas regadas
E eu nada mais sei
Mais nada.

E calada, todas as vozes sou eu gritando xexéu na barra do dia
Todos os risos são meus na alegria,
Todas as dores são minhas quando vivo à tardinha
Todas as sombras do que vivi.

Sobrevivi e meu canto
É a minha carne em postas pelo amor
Dissolvida em gemidos, em versos decomposta
O sabor na resposta da iguaria
Que é a minha poesia que acendeu,
Venha se servir, a mesa esta posta
Só sou eu e o amor, nada mais,
Nada mais, só sou eu.


Tinha eu lá uns 15 anos de idade, por aí, quando tive às mãos o primeiro disco da Sueli Costa. Como sempre fui pesquisador desde menino, eu queria sempre ver coisas novas. Nunca tinha ouvido falar. Gostei de cara, uma poderosa descoberta, como foi a de Joyce, Dolores Duran, Maysa, Amelinha, Fátima Guedes.
Ouvi por todo panteão da música brasileira, começando por Elis, coisas dela. Muitas por Simone e por aí vai.
Quando “Face a face”, “Jura Secreta”, “Alma”, “Coração ateu”, “A canção brasileira” e, especialmente “Cão sem dono” – esta última que passei noites e noites regadas a muitos goles e baforadas, curtindo eternElis, que eu já sabia que ali estava uma compositora e seus muitos parceiros, gente do primeiro time. Cada melodia encantadora, cada verso envolvente e mágico, cada canto maravilhoso.
Com o tempo fiquei sabendo que ela nasceu no Rio de Janeiro e que se tornou mineira de coração. Aprendeu piano com a mãe que dava aula de canto coral, integrou o Trieto familiar com as irmãs Telma Costa e Lisieux Costa, além de ser irmã de um pianista e de outro violonista.
Compôs sua primeira canção na adolescência, aos 17 anos de idade: Balãozinho. Até que Nara Leão gravou em 1967 sua parceria com João Medeiros Filho, “Por exemplo, você”.
Em 1969 abandona a faculdade de Direito e se muda pro Rio de Janeiro dando inicio a uma carreira de muito sucesso ao lado dos parceiros Cacaso, Tite de Lemos, Ana Terra, Aldir Blanc, Capinam, Fausto Nilo, Paulo Cesar Pinheiro e Abel Silva, entre outros.
Hoje é um baluarte da música brasileira, grandiosa em sua serena majestade. Com um detalhe: acessível, genial e gentil. De forma simpática ela conversou com a gente nessa conversa exclusivíssima.



LAM - Sueli, vamos pra pergunta de praxe: como foi e quando se deu seu encontro com a música?
Meu encontro com a música se deu desde sempre.Ouvia música em casa desde que nasci. Minha mãe era professora de piano, quando eu era pequena, e aos 4 anos, ela viu que eu já precisava aprender música, ao cantar certo uma nota que a aluna tinha tocado errado...Antes mesmo de ser alfabetizada já estava tocando piano.

LAM - Quais as influências da infância e da adolescência que marcaram a formação da compositora?

Ah, o repertório de Nara Leão, as canções lindas de Johnny Alf, Silvia Telles cantando, a música do Tom, João Gilberto, e o jazz costurando tudo, principalmente Miles Davis

LAM - Você vem de uma familia em que todos estão ligados à música, isso contribuiu para o fato de você, aos 17 anos, compor Balãozinho, sua primeira canção? Como se deu isso? O que motivou você a bater o centro na carreira de compositora?

Não dava pra ser de outra forma. Minha mãe era professora de música e quando cresci, era professora do conservatório de Juiz de Fora. Ali estudei, fiz o curso de professora de música. Meus irmãos todos eram compositores, e minha irmã, Telma, já falecida, era cantora, mas tinha uma composição com o Tite de Lemos, e gravou com o Chico Buarque"Eu te amo"., e gravou também um LP muito bonito com arranjos de Dori Caymmi e Cesar Camargo Mariano. Meus dois irmãos são violonistas e minha irmã, Lisieux Costa gravou também um LP que foi lançado pela gravadora Velas.

LAM - Conta pra gente como foi seu começo, o ensino de música nas escolas até chegar no Alice no país do divino maravilhoso com o Sindey Miller!

Em Juiz de Fora, quando estudava Direito, já dava aulas de música nos colégios. Quando vim para o Rio, fiz concurso para lecionar no Estado. Sidney Miller me convidou para dividir com ele as canções de um musical "Alice no país divino maravilhoso" O parceiro dele neste musical, Grisolli, aí resolveu também chamar o Tite, para escrever com ele o texto. Assim conheci o Tite. Também entraram Luiz Carlos Maciel e Marcos Flasckman, ambos ligados ao teatro e o que se chamava contracultura. Cada capitulo dessa história era debatido na casa do Sidney, com direito a muito uísque e cerveja.

LAM - Como foi que se deu a realização do seu primeiro lp, que contou com produção de Gonzaguinha, em 1975?

Em 74 Maria Bethania fez o show A Cena Muda, com direção de Fauzi Arap e cantou no show 8 músicas minhas. A Odeon, que já teve o melhor cast que se pode imaginar, e tinha o Gonzaguinha, logo me convidou para fazer o LP e o Gonzaguinha se ofereceu para ser o meu produtor. Aprendi muito com ele, durante as gravações. Eu nunca tinha entrado num estúdio e, ele me deu a confiança de que eu precisava.

LAM - Em 77 você lança seu segundo lp com produção da dupla João Bosco & Aldir Blanc e, depois, manda ver com Vida de Artista (1978), Louça Fina (1980), Intimo (1984) e Minha Arte (2000), em todos eles desfilando, suas canções, letras e poemas seus e de seus sensacionais parceiros que nos presentearam com sucessos que foram embalados pelas mais representativas vozes da música brasileira. Fala, então, desse seu trabalho autoral e da relação com os parceiros poetas e letristas. É na sua música que você mostra a sua poesia? São também músicas para as vozes dos poetas ou poesia para suas músicas?

Tive muita sorte com meus parceiros. É um elenco estelar e são todos amigos do peito. Foi também decisivo para essas parcerias o fato de um me apresentar ao outro. Assim João Medeiro Filho, meu primeiro parceiro me apresentou ao Cacaso e ao Abel. E o Abel me apresentou ao Capinam e ao Fausto Nilo. Aldir era amigo de amigos meus e do João. Não vejo minhas músicas como voz para a poesia, embora já tenha musicado Cecilia Meirelles e Fernando Pessoa. Acho que todo mundo quer coisa boa e de qualidade, e, claro, poesia! Acho que a poesia, enfim, é que invadiu a minha música.

LAM - Em 2007, você lançou Amor Blue, um cd trazendo as parcerias com Carlinhos Vergueiro, Fausto Nilo, um poema de Fernando Pessoa, entre outros novos e velhos parceiros. Fala da expectativa e as perspectivas desse trabalho.

Gravei o "Amor Blue" para comemorar meus 40 anos de músicas gravadas, em 2007. A primeira gravação foi de 1967 pela Nara Leão. Entrei na Lei Murilo Mendes, de Juiz de Fora, e fiz o cd independente com a produção da Fernanda Cunha, minha sobrinha e cantora. Convidei as 3 pessoas que mais me gravaram nesses 40 anos, que foram,Bethania, Simone e Nana, e também 3 cantores mais novos, que gosto: a Fernanda Cunha, Daniel Gonzaga e Celso Fonseca. Todos vieram com o maior carinho e disposição.
Pela primeira vez toquei piano e fiz os arranjos do cd, e, acho que para comemorar mesmo o melhor era gravar coisas novas., isto é, começar tudo de novo. Meu sobrinho, Breno Cunha, fez a foto da capa, meu filho fez o encarte, a Fernanda Cunha produziu, meu amigo e parceiro Luiz Sergio entrou na Lei MM em Juiz de Fora, e o cd saiu assim, com esse amor, todo mundo ajudando. Fui campeã de vendas na Loja Modern Sound, disparada, por quase dois meses. Gostei mesmo de ser independente, fazer tudo, acompanhar toda mixagem, ter noção de que ninguém está mexendo no que vc fez, e pronto, está ali o que vc quer mostrar para as pessoas.

LAM - Como você vê a música brasileira atualmente? Há algum destaque ou está tudo num processo de transição esperando uma mudança radical?

A música brasileira acho que é mais amada fora do país.Temos a melhor música do mundo, assim como o futebol,se a gente puder comparar.Mas sai todo mundo, não é?As cantoras e compositores midiáticos não me interessam, sei que todo mundo precisa trabalhar, tá legal,mas tb tocar só isso, é demais para mim. Acho que as gravadoras estão apanhando da pirataria, mas elas não procuram remediar isso. Vender um cd novo a 40 reais é demais para a minha cabeça.Quem gosta de um cantor quer comprar o cd, mas por esses preços não há como competir com a pirataria.Pelo contrário, alimenta a pirataria


LAM - Quais os projetos e perspectivas por realizar?
Não faço muitos projetos.Faço músicas e espero coisas boas chegarem, isso sim.



Depois dessa simpática entrevista realizada em 04 de maio de 2009, veja mais sobre esta grande artista, acesse o sitio da Sueli Costa e no MySpace.


ENTREVISTA: MÁCLEIM


Gente, pelo que tenho divulgado aqui, acredito que dê para deixar uma pontinha de possibilidade de sacar que tenho me dedicado a realizar pesquisas. E olhe que desde que me entendo por gente que pesquiso música, principalmente a brasileira. Isso não quer dizer que não tenha me dedicado à pesquisa musical ampla, claro que não, desde que passei estudando mais que brevemente na adolescência pelo Conservatório de Música de Pernambuco, que me dediquei às músicas de raiz – xote, baião, repente, coco, caboclinhos, maracatu, armorial -, como também a erudita, o jazz, o rock progressivo, sem falar de ter vivido o apogeu da Bossa-Nova, Jovem Guarda e Tropicália.


Não lembro como nem quando comecei a procurar por sons, vozes, tons, sotaques, timbres, notas, acordes, ginga, suingue e o escambau.

Como eu nasci curioso, acho que essa curiosidade me levou desde menino pra isso. E não será de estranhar porque nasci já doidinho com o ouvido colado no rádio que não era na época tão monótono assim, nem tocando só os mesmos o tempo todo.

Não, repito, não era o rádio só panelinha e jabaculê, pois eu ouvia desde menino nas emissoras Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Caetano Veloso e, como era inquieto, pegava também as que tocavam Villa-Lobos, Lupicinio Rodrigues, Noel Rosa, sambas e batuques.

Depois veio a televisão e com ela a monotonia piorou: só tinha um ou outro canal. Triste isso. Mas, pelo menos, passava aqueles festivais de músicas e outros especiais com gente talentosa, uma vitrine. Mas isso era pouco pra mim.

Foi quando no começo da adolescência comecei a invadir lojas de discos atrás de novidades. E olhe que tenho a coragem de levar uma coisa que nunca ouvi só para ter o prazer da pesquisa. Não me arrependo disso, normalmente acerto na escolha. Ou não, sem culpas nem arrependimento.

Quisera eu ter dinheiro para sair comprando as novidades que explodem por aí Brasil afora e que se encontram fora das emissoras de radio e tevê, dos palcos, dos eixos e circuitos.

Pois bem, nesses mais de 30 anos dedicado à pesquisa musical, eis que nos últimos 5 ou 8 anos, tive uma surpresa ímpar. Foi isso mesmo, uma daquelas surpresas que me fez vasculhar lojas aqui em Maceió de forma insistente, mas como as boas coisas de Alagoas você pode encontrar em qualquer outro lugar, menos em Maceió, quase perdi a esperança, não fosse a sorte de ouvir certa música numa emissora de rádio. Como é? Isso mesmo. O que eu procurava, enfim, estava tocando numa emissora de rádio. Pasmem. Claro que só podia ser rádio pública das que são educativas, evidentemente. Hoje não perco mais meu tempo ouvindo as baboseiras das rádios comerciais. Mas vamos lá.

Retomando a conversa, foi assim: ouvi uma música. Curioso, saí perguntando por aí até que descobri tempo depois o nome da música: Internet Coco. De quem é? Mácleim. Como é? Isso mesmo: Mácleim. Na hora fui logo pros nomes daqueles cantores que surgiram nas décadas de 70 que usavam nome e cantavam em inglês. Mas a música era ótima e não necessitava que eu procurasse saber a razão do nome do rapaz.

Doutra feita, estava eu bebericando quando ouvi a dama da música alagoana, Leureny Barbosa, cantando uma lindíssima canção. Confesso: uma das músicas mais lindas que já ouvi na vida! E saí querendo saber o nome da música: Atriz. De quem é? Mácleim. De novo? Demorou.

Tempo vai, tempo vem e me deparo com outra simplesmente arretada. Não pude me conter e demonstrei minha enorme satisfação em ouvir aquela música. Nome: Das Dores. Autor? Mácleim.

Não foi diferente quando ouvi pela primeira vez a música Outubro ou nada. De quem? Mácleim. Peraí! Ou eu estou endoidando brabo, ou esse tal de Mácleim é um compositor da porra!!! Felizmente deu a segunda opção porque fiquei encangado onde havia show do cara para assistir. Mas desconfio ter os parafusos do quengo afrouxados mais depois de conhecer Mácleim pessoalmente. Um rapaz vindo do interior alagoano, da cidade de Murici, viajado como a praga. De cara, um cabra bom, sorridente, articulado e com ar de quem não tá aí nem pra quem pintou a zebra ou morreu afogado no aquário. Músico excelente. Compositor, invejável. Sabe das coisas o rapaz. E não me deixa mentir o Aquiles MPB-4 que já escreveu resenha elogiosa sobre o rapaz em coluna de jornal. Prova que o cabra é bom mesmo. Mas melhor que eu falar dele, é evidentemente deixar ele falar, né não? Então, com você, Mácleim.

LAM - Mácleim, primeiro vamos para a pergunta de praxe: como e quando se deu seu encontro com a arte?

Agora, com o distanciamento cronológico, percebo que desde criança eu já me sentia atraído pela música. Já gostava de ouvir os discos do meu pai e montava baterias, com as panelas da minha mãe, para acompanhar as músicas do rádio. Enquanto meus coleguinhas só queriam brincar de cavalhada, futebol e etc., eu sempre propunha conjuntos musicais, palco e essas coisas relativas à música. Gostava também de ir à feira para ouvir os emboladores de coco e os violeiros repentistas. Lembro que gastava todo o meu trocadinho comprando instrumentos musicais artesanais, ao invés de carros de lata, petecas e outros brinquedos vendidos na feira. Costumo dizer que não fui eu quem escolheu a música como profissão e expressão. Não se escolhe uma expressão artística como profissão. Ela é que nos escolhe.

LAM - Quais as influências da infância e da adolescência que marcaram a personalidade do artista?

Bem, não há como negar que somos influenciados em vários momentos e por determinados artistas. Portanto, foram várias as minhas inspirações. Eu cresci ouvindo o serviço de autofalantes de Murici. Em cada esquina tinha um autofalante tocando musica brasileira. Nelson Gonçalves, Luis Gonzaga, Dolores Duran, Caetano Veloso, Ataulfo Alves e os sambistas tradicionais. Além, claro, de Jacinto Silva e Jackson do Pandeiro, que faziam um samba diferente, mais sincopado, com uma divisão bem característica. Tudo me atraia como um imã. Embora eu seja de uma geração onde a música internacional, principalmente a americana e o rock inglês, dominou a cena brasileira e fez a cabeça de muitos, nunca prestei muita atenção nos Beatles, nem nos ícones do rock mundial. Sempre gostei mais da música brasileira. Talvez, porque intuitivamente já soubesse que se trata de uma das melhores músicas produzidas no planeta. Disso restou minha tentativa permanente em desenvolver minhas particularidades e assumir minhas limitações. Assim, faço e farei a música que me identificará como artista e propositor, onde as influências estão amalgamadas num liquidificador que produz o que me é palatável.

LAM - Você na música passou pelo Conservatório Villa Lobos, por vários estúdios no Rio de Janeiro, show na Europa, ganhou festivais e participou, entre outros, do Projeto Pixinguinha. Fala a respeito dessas experiências na formação e identidade do artista.

Basicamente, e o básico é tudo, a partir dos festivais, passando pela academia, à experiência em estúdios, os shows internacionais e o Projeto Pixinguinha, tudo isso me deu a percepção de que fazer música, ser um propositor, poderia ser o que mais me distanciaria da mediocridade. Continuo pensando assim. Sem dúvida, os festivais dos anos 70 e 80 foram primordiais para a formatação do que hoje se costuma chamar de MPB. Nos festivais foram forjadas carreiras que ainda hoje são referências do que de melhor se produz na música brasileira. Participei de vários festivais e, aqui, no aquário, por duas vezes, tive canções escolhidas como melhor música e melhor arranjo. Embora seja uma questão por demais subjetiva, não há como negar que é uma sensação bacana ter seu trabalho avaliado e aprovado. No entanto, para mim, importante mesmo sempre foi participar, trocar informações e aprender num ambiente totalmente musical.
Trabalhar em alguns dos maiores estúdios do Rio de Janeiro foi uma grande escola, uma oportunidade maravilhosa que a vida me deu de estar em contato com grandes nomes da música brasileira, e aprender vendo-os atuar no lapidar dos seus trabalhos. Além disso, aprendi também a desmitificá-los. Vi o lado humano de qualquer pessoa, que na maioria das vezes as luzes e efeitos dos palcos camuflam sob a aura necessária ao estabelecimento da catarse entre artista e platéia.
Na academia (cursei também música, na UFAL) logo descobri que não era minha praia. Música é uma das expressões de arte que possibilita interação, partilha, agregação. Portanto, todas às vezes que terceirizo minha proposta musical, com músicos e arranjadores afins, agrego valores à música que faço. Daí, quando quero um arranjo de cordas ou metais, convido alguém que estudou e está habilitado para isso. Se preciso escrever uma partitura, chamo alguém que estudou e sabe escrever, assim, enriqueço o que proponho. Portanto, quando a ficha caiu, relaxei quanto à formação teórica que em determinado momento busquei na academia.
Já a experiência internacional é fundamental para deixar de olhar apenas para o umbigo, sair da redoma e poder voltar arejado, bafejado de novas possibilidades. É sempre um processo enriquecedor para qualquer artista. Além disso, na Europa, por exemplo, tenho a oportunidade de tocar com músicos de outras nacionalidades e através da música manter um diálogo fértil, onde ambos os lados usufruem de sugestões e conhecimentos musicais e interpessoais.
O Projeto Pixinguinha, entre outras coisas, me proporcionou a percepção de que todas às vezes que tenho meu trabalho avaliado fora da minha aldeia, e o Projeto Pixinguinha “era” perfeito para isso, é sempre por um público descompromissado com algumas amarras pretéritas, sintonizado apenas na música que nos conecta, sem pré-julgamentos e satisfações a dar nem a mim nem a ninguém. Portanto, nesses momentos, eu também tenho a verdade em minhas mãos através do que o público me revela. Resulta sempre num exercício de humildade, onde avalio e, às vezes, até repenso o que estou propondo.



LAM - Primeiro você lançou o Panambiverá, pelo selo francês Bongo Records. Como se deu a iniciativa de realizar este primeiro projeto e quais os resultados desta experiência?

O Panambiverá foi gravado em 1996, aqui no Brasil. Produzido pelo Zé da Flauta, com arranjos do maestro Eduardo Morelembaum. Foi um disco produzido de forma independente, com recursos próprios, embora, eu, à época, fosse o primeiro artista alagoano a ter um projeto aprovado pela Lei Rouanet. Obviamente, não consegui captar nem um centavo. Igual está acontecendo agora com o Esses Poetas. Mas fui adiante, vendi tudo que eu tinha e fiz o disco como eu queria. Para encurtar a história, após bater de porta em porta nas grandes gravadoras da época, às vezes sem sequer a decência de uma resposta, o disco foi parar no selo Bongo Records, em Bordeaux, na França. Quando eu já estava quase desistindo, jogando a toalha e resolvendo me dedicar definitivamente à produção de TV - meu trampo à época -, surgiu uma proposta de lançamento do disco e turnê pela Europa. Assim, o Panambiverá foi lançado no velho continente em 1998, o que resultou em uma turnê de 29 shows e 45 dias por diversos países.

LAM - Depois você lançou o festejadíssimo Internet Coco, pelo selo suíço Soluar. Conta pra gente como foi fazer e realizar este trabalho?

Acredito que cada disco cumpre uma função. A importância se estabelece desde a concepção, o propósito em realizar, indo até aos resultados que permeiam cada etapa desta nada fácil construção. Portanto, cada disco é importante pela materialização de uma idéia, pela existência de algo palpável e repleto de informações a cada audição e manejo. Às vezes vai além de tudo isso. Foi o que aconteceu com o Panambiverá. Além de ele me proporcionar a primeira turnê européia, gerou também a gravação do Internet Coco e o contrato com a Soluar. O Internet Coco foi gravado nas horas vagas da turnê de 98, em Gèneve. Foi bacana porque os músicos, aqui do aquário, que haviam viajado comigo, gravaram toda a base do Internet Coco. No fim da turnê, após os shows no Festival de Montreaux, eles voltaram para o Brasil e eu fiquei finalizando o disco e fazendo uma temporada no Latitude Brasil, em Gèneve. Acabei ficando bastante tempo e tendo a oportunidade de concluí-lo com calma. Aproveitei e convidei vários músicos, de diversas nacionalidades, para participarem do Internet Coco. Isso acabou dando um caráter bem globalizado a esse trabalho. O disco foi lançado em 2001, apenas na Europa, e fizemos mais uma turnê super bem-sucedida.

LAM - Veio então o Ao Vivo e Aos Outros, pelo selo Batuta. Como é que está a recepção deste seu trabalho e fala a respeito deste selo.

No encarte do Ao Vivo e Aos Outros tem um texto onde eu digo que o que me motivou a gravar ao vivo não foi o modismo que esse tipo de proposta representava à época. Na verdade, foi certa ousadia e a vontade de registrar (mesmo sem as condições técnicas desejáveis) a estética sonora do show Depois do Carnaval, que estávamos fazendo à época. Daí, eu e o Felix Baigon, co-produtor do disco, fizemos um planejamento até onde era possível e gravamos um disco sincero, verdadeiro e totalmente transparente. Costumo dizer que é um disco cheio de “defeitos especiais”, mas que tem a pegada de um som realmente ao vivo, com as nuances que só o feedback e a interação de cada pessoa presente aos shows poderia nos dar. Como eu disse, cada disco cumpre uma função. O Ao Vivo e Aos Outros me levou até a turnê de 2006, pelo Projeto Pixinguinha.
Quanto ao selo Batuta, ele nasceu da necessidade de ter uma marca, um selo, mesmo que totalmente independente e pobrezinho, porém, capaz de respaldar o disco. Por experiência eu sabia que fica ainda mais difícil, para qualquer artista, ao levar o trabalho para uma emissora qualquer, quando o programador pergunta: foi lançado por qual selo? Se você não tem o que responder, alguns sequer se dão ao trabalho de ouvir.
Lembro-me também que, à época, percebi que assim como eu, que estava com um trabalho pronto e sem saco para sair batendo de porta em porta, outros artistas alagoanos como o Carlos Moura, Ricardo Mota, Basílio Sé, Lene e a Dulce Miranda, também tinham trabalhos prontos para serem lançados. Daí, propus o inverso: ao invés do selo lançar os artistas, que tal os artistas lançarem o selo? Generosamente, todos toparam e assim nasceu o Batuta, respaldado pela qualidade do trabalho e pela carreira desses talentosos artistas e, claro, nascia com um catálogo digno de respeito.

LAM - Você tem um projeto que está se vestindo já há algum tempo, que é o Esses Poetas. E nesse projeto tem poemas de alagoanos, participações especiais e meio mundo de coisa interessante. Fala pra gente o que você pode adiantar de detalhes deste seu projeto.

Pois é, esse urdimento tem bastante tempo mesmo. Para ser exato, desde a primeira poesia musicada por mim, Caminhante Caminhando Tanto Passo Até Que Cansa, do Otávio Cabral, já percorri mais de oito calendários. Às vezes me desespero pela impossibilidade de finalizá-lo, tamanhas são as barreiras financeiras. Aí, nesses momentos, reflito e me acalmo, pois sei que este é um projeto, um disco atemporal. A começar pela própria sonoridade acústica dos arranjos, e, principalmente, pelo conteúdo poético e estético de alguns dos poetas mais significativos da poesia alagoana. Só na etapa de composição (musicar os poemas) passei seis anos laborando. Entendo que a poesia é uma obra acabada em si mesma. Portanto, interferir em poemas de poetas como Jorge de Lima, Ledo Ivo, Jorge Cooper, só para citar alguns dos ícones da poesia alagoana, além dos demais que estão no Esses Poetas e, generosamente, autorizaram e avalizaram minha ousadia, não foi um exercício qualquer. Foi preciso imersão, dedicação e, sobretudo, estar imbuído da responsabilidade necessária a essa tarefa nada fácil. 
Na verdade, não considero o Esses Poetas mais um disco meu. Ele já ultrapassou essa resumida latitude. A começar pelo espectro da poesia alagoana contida neste projeto e pela participação de colaboradores importantíssimos como o Pedro Cabral, que criou sua versão plástica para os poemas. O Enio Lins, através das caricaturas dos poetas. O Brandão que escreveu e cifrou todas as músicas para o encarte. O Fernando Neves, com o projeto gráfico. A Djanira Macêdo, produtora executiva e anjo da guarda e, finalmente, pela honra que tenho em partilhar esse trabalho musicalmente com convidados mais que especiais. Enumerá-los resultaria em uma lista extensa e, como toda lista, passível de algum esquecimento. Porém, acho pertinente colocar por que só alguns artistas da cena local estão dividindo algumas canções comigo e outros, também queridos e importantes, não estão. Primeiro, porque são apenas 13 faixas e, obviamente, não caberia todo mundo. Tive que estabelecer um critério: convidei aqueles que em algum momento prestaram atenção ao que eu fazia e, generosamente, gravaram minhas canções. Assim, Clara Barreiros, Junior Almeida, Leureny Barbosa e a Wilma Araujo agregam inestimável valor ao Esses Poetas. Aliás, seria maravilhoso se eu pudesse ter tido a participação do Carlos Moura e da Irina Costa que, por motivos alheios à minha vontade, não puderam gravar durante a fase de gravação do Esses Poetas. Além, é claro, do Djavan que, apesar de não se enquadrar no critério citado, ao ser convidado gentilmente prometeu que participaria. Se isso realmente acontecer, voltarei a estúdio e quem sabe dessa vez o trabalho ficará completo com a participação da Irina, do Carlos Moura e do Djavan.



LAM - Você já teve uma convivência com gente da melhor estirpe da Música Brasileira, como Hermeto Pascoal, Djavan, Antonio Adolfo e muitos outros. Fala pra gente da experiência com esses artistas para o seu trabalho e, especialmente, como se deu aquela sua estada com Hermeto Pascoal e DuoFel nos palcos do Brasil?

Gerenciei durante alguns anos o Estúdio Verde, no Rio de Janeiro. Era e ainda é um dos melhores estúdios de ensaio do Rio. Lá, tive a oportunidade de presenciar ensaios dos grandes nomes da música nacional e alguns internacionais, tipo Pat Metheny. Vê-los atuando com músicos do primeiro time, criando, lapidando suas músicas geniais, foi uma grande escola para mim. E tudo começou quando eu trabalhava com o mestre Antonio Adolfo. Aliás, o Antonio foi e é como um pai para mim. O Antonio Adolfo é uma daquelas sólidas amizades que só a música é capaz de proporcionar. Devo muito ao Antonio pelo o que me ensinou sobre a vida e crescimento pessoal, sobretudo, os caminhos musicais que hoje trilho. Ele me proporcionou também a felicidade de, pela primeira vez, ver meu nome na ficha técnica de um disco como produtor. Foi no disco dele, Conexões, produzido para o mercado japonês.
Bem, o lance do Hermeto e DuoFel aconteceu dentro de um projeto do governo de Alagoas, na gestão do Ronaldo Lessa. Aliás, gostaria de abrir um parêntese aqui, para fazer uma observação, já que citei o governo do Ronaldo Lessa. Ele foi sensível e respeitou à produção cultural de Alagoas. Incentivou e de fato tentou contribuir com ações proativas. Principalmente, se fizermos uma comparação com governos anteriores ao seu e, mais ainda, com o atual governo Téo Vilela. Este - e seu inoperante secretário de Cultura - um zero a esquerda, uma nulidade, um empecilho a mais, um retrocesso absoluto.
Mas, voltando ao tema: foi realmente muito bom em alguns momentos estar no palco com o DuoFel, com os quais tenho uma relação de amizade, sem falar que o Fernandinho também é alagoano e muito, muito gente-fina. Aliás, um dos melhores momentos do Esses Poetas é a participação dele, tocando divinamente com zigzum e tudo mais... Já o Hermeto dispensa comentários. Foi uma dessas raríssimas oportunidades que um simples mortal como eu tem de atuar ao lado de um gênio contemporâneo. O Hermeto pode ser avaliado dessa forma, pela sua indiscutível genialidade musical. Foi uma oportunidade maravilhosa, principalmente se levarmos em consideração que os grandes gênios da humanidade não habitam mais este planeta.

LAM - Você além de um cara ligado à música, também é um sujeito antenado, jornalista e radialista, escrevendo e publicando seus textos, artigos e crônicas. Fala a respeito dessa manifestação jornalística e do seu trabalho de radialista.

Olha, tudo começou quando eu recebi um convite para escrever semanalmente no jornal Extra. Daí, passei dois anos escrevendo toda semana sobre os mais diversos temas, porém, priorizando sempre a nossa cena cultural. Na maioria das vezes minha abordagem era crítica, pois eu procurava, e ainda faço isso, mostrar outros pontos de vista do fato abordado, visto que absolutamente nada é unilateral. Com isso, para muitas pessoas, deixei de ser o artista bonzinho, conveniente, conivente e acrítico. Deixei de ser um bobo da corte e por isso várias portas se fecharam. Mas, como citei, nada é unilateral. Em contrapartida recebi muitas manifestações de apoio às minhas ponderações, principalmente de pessoas que não tinham como se manifestar publicamente. Sabe, engraçado: nessa época eu era cumprimentado na rua por leitores do Extra. Percebi que estava me tornando conhecido pelo o que eu escrevia e não pela minha música. Achava isso muito louco e, ao mesmo tempo, ratifiquei o quanto pode ser poderosa uma mídia consolidada. Por isso, sei exatamente o quanto pode ser nociva a postura da atual editoria do Caderno B, do jornal Gazeta de Alagoas, por exemplo. Mas, esse é um longo assunto... (risos)
Como radialista, estou na função de programador musical da Rádio Educativa FM. Escolhi essa função, quando fiz o concurso público, porque além de extremamente prazerosa, ela me proporciona a possibilidade de propor uma estética musical para uma grande parcela da população. A direção da Rádio Educativa nos deu carta-branca. Assim conseguimos contemplar, dentro da nossa programação, toda a diversidade da música brasileira. Porém, sempre a partir de critérios pré-estabelecidos, onde o conteúdo estético e cultural é determinante. Além disso, posso fazer pelos meus colegas o que eu gostaria que fosse uma prática comum nas demais emissoras. Ou seja: tocar, difundir seus trabalhos a partir de uma ótica não-comercial.

LAM - Vamos falar de Alagoas? A sua música tem o gosto da terra, das belezas, gentes e das grandezas alagoanas. Como você vê Alagoas para produzi-la no seu trabalho?

Olha, não é a primeira vez que alguém enxerga esses matizes no meu trabalho. E, para ser sincero, sempre me surpreendo com isso. O fato é que eu nunca tentei reproduzir Alagoas na minha música. Talvez, lá, bem no comecinho, eu tenha tido um discurso mais voltado para esse universo de mar, sertão e ritmos regionais. Porém, isso foi há muito tempo e, obviamente, por eu estar limitado a esse universo. Depois que sai e fui para o mundo, retomo esse universo em pitadas, no que me é inerente, e só. Com exceção da inquestionável beleza natural, não consigo ver Alagoas com ufanismo nem o bairrismo que, invariavelmente, embaçam a realidade. Pelo contrario. Sem qualquer maniqueísmo, um Estado se traduz pela estrutura social do seu povo. E, sinceramente, Alagoas tem essa estrutura esgarçada, corrompida, dilapidada pela incompetência estatal (portanto, das elites política e econômica) em gerar desenvolvimento.
Que tipo de discurso eu traria para minha música se de fato eu fosse olhar para Alagoas? Como olhar para o Estado de Alagoas e não ver sua vergonhosa e cruel precariedade em todos os índices do desenvolvimento humano? Como olhar para os gestores e instituições deste Estado, em todos os níveis, e não ver uma oligarquia retrograda e provinciana, que mantém Alagoas sob o atraso de uma economia primaria, onde o poder do homem cordial prevalece em todas as relações sociais e de trabalho? Como olhar para esse povo e não vê-lo sob o jugo do analfabetismo, da ignorância e fisiologismo, capazes de reconduzir, por exemplo, um Fernando Collor à vida pública? Portanto, não vejo como poderei olhar para Alagoas e enxergar poesia. Não, enquanto o cognitivo tiver um lampejo de lucidez em mim.



LAM - Você tem sido um artista produtivo que constantemente se encontra trabalhando e se expressando não só nos palcos do Brasil, como de Alagoas. Que avaliação você faz da receptividade do seu trabalho artístico no Brasil e, evidentemente, nos meios artísticos, órgãos públicos de cultura, instituições de fomento artístico local, imprensa e sociedade alagoana em geral?

Tai uma pergunta ao mesmo tempo fácil e difícil de responder. Devo respondê-la pelo que observo da minha posição na cena musical e não do ponto de vista dos diversos segmentos citados por você. Até porque, desconheço o que pensam sobre o meu trabalho. A não ser pontualmente, como feedback de um show, por exemplo. O fato é que apesar de atuante sou um artista desconhecido pelo público alagoano. Houve um tempo em que eu carregava essa culpa de ser um desconhecido no meu próprio aquário. Depois, descobri que os artistas locais, de diversos segmentos, assim como eu, cumprem os rudimentos básicos na divulgação dos seus trabalhos e, ainda assim, padecem do mesmo mal. Portanto, o desinteresse do alagoano pela sua própria cultura e seus atores, passa, antes de mais nada, pela questão da alto-estima surrupiada a cada novo escândalo político. Passa pela carência cultural e educacional e, sobretudo, pelo descaso da maioria dos veículos de comunicação. Além, é claro, da incompetência das instituições que, por obrigação, deveriam fomentar as diversas expressões e atividades culturais.
Com relação ao Brasil, tudo é ainda mais pontual e circunstancial. O público que me prestigia é o que comparece às apresentações que faço. Na grande maioria não por um prévio conhecimento do meu trabalho. Porém, o resultado é sempre muito positivo. Nunca aconteceu de acabar um show e ficar aquela impressão de falta de sintonia entre nós e o público. Não nos palcos onde atuei, fora de Alagoas.

LAM - Você participa de um projeto denominado COMUSA. Fala a respeito dessa iniciativa, como você tem acompanhado a manifestação da categoria e quais as suas expectativas e perspectivas do músico alagoano?

Bem, COMUSA é a sigla de uma tentativa pioneira em criarmos uma cooperativa de música em Alagoas. Sinceramente, não sei onde isso vai dar. Sinceramente, também, torço para que dê certo e que os princípios que fundamentam o cooperativismo possam prevalecer, sobrepondo-se aos interesses individuais. Temos diversidade musical e isso é, sob vários aspectos, extremamente positivo. Além, é claro, de ser uma das características da música alagoana. Trazer essa diversidade para dentro do cooperativismo não deve ser mesmo uma tarefa fácil. Em uma das reuniões da COMUSA ficou bem evidente o quanto a maioria dos futuros cooperados ainda está longe do pensar coletivo. Mas, enfim, o cooperativismo tem regras e quem não se adequar não é obrigado a permanecer. Vejo muitos pontos positivos nessa iniciativa. Proponho-me a ajudar no seu fortalecimento e, obviamente, torço para que realmente vingue. Talvez essa seja a última luz no fim do túnel, em termos de perspectiva, para o músico alagoano.

LAM - Agora vamos falar de Brasil: como o cidadão Mácleim está vendo o Brasil de então? Tem esperanças deste país se transformar um lugar melhor, ou está perdido de vez porque não tem mais jeito mesmo?

Pois bem, o Brasil, como não poderia deixar de ser, está inserido no contexto de uma crise maior. A crise do capitalismo. E agora, com a globalização de fato, não é mais como antigamente onde as crises eram setorizadas e localizadas geograficamente. Isso pode ser totalmente desalentador, pois não temos mais nenhum modelo ao qual possamos recorrer. O resultado é o esgarçamento do tecido social, que nos põe diante de uma total inversão de valores e nos arrasta, em todas as classes sociais, a uma existência tão sombria que nem Dante Alighieri poderia imaginar. No Brasil, todos os segmentos sociais estão em crise. Religião, política, economia, educação, cultura, saúde, segurança, e por aí vai. Se ainda não chegamos, estamos bem próximos do fundo do poço. Sempre a partir da perspectiva cruel do capitalismo. Instituições como o Congresso Nacional, por exemplo, que deveriam reagir, balizar e propor soluções, encontram-se atoladas na lama fétida da corrupção e falta de ética. Perderam completamente a credibilidade e o respeito, proporcionando ridículos espetáculos onde a impunidade e permissividade corrupta são a tônica, com infinita capacidade de renovação de repertório, dia após dia. É deprimente quando a política, o fazer político, tão inerente ao exercício da cidadania, chega à degradação desmoralizante que chegou em nosso país, em todos os níveis.
Porém, sendo objetivo e tentando responder sua pergunta, minha esperança reside apenas no fato de habitarmos um planeta que gira em torno do próprio eixo, e, por sua vez, gira em torno do sol. Portanto, tudo aqui é cíclico. Todos os dias o sol nasce, as marés acontecem e o sol torna a se por. No entanto, sempre de forma diferente, se renovando. A palavra crise vem do grego krises e significa mudança. O problema é que não sabemos quanto tempo temos que esperar.



LAM - Por fim, quais os projetos que o Mácleim tem por perspectiva de realizar?

Bem, já faz algum tempo que coloco como profissão, nas fichas dos hotéis em que me hospedo, o termo propositor e não mais compositor. Faço isso porque a ficha caiu e compreendi que não dava mais para me achar um compositor, sem antes olhar para trás. E, quando olhei, percebi que os mestres já haviam feito tudo. Daí, descobri-me como um simples propositor. E não seria nem isso se não houvesse projetos. E ainda bem que projeto é o que não falta. Portanto, só para citar os mais imediatos, tem a conclusão, lançamento e pé na estrada do Esses Poetas. Tem também a gravação do próximo disco, que será o MaNoDuo. Na verdade, trata-se do registro, talvez em vídeo também, de uma formação que deu super certo em apresentações que eu e o Norberto Vinhas fizemos por algumas capitais do país e aqui no aquário também. Em paralelo, comecei a musicar algumas obras de artistas plásticos alagoanos. A idéia é transformar em disco o resultado desse trabalho, como fiz com os poetas. E, finalmente, com certeza, a retomada da minha história na Europa, no próximo ano, pois já tem um tempo que não faço nada por lá.

Entrevista concedida em 18 de agosto de 2009. Para conhecer melhor o trabalho do Mácleim acesse o site do artista e o MySpace.