NUNCA CHORE POR MIM – Era noite estrelada na praça da prefeitura, uma noite com data perdida no céu de Palmares, Pernambuco.
Ali, aboletado num banco da praça, Santanna, o Cantador solfejou uma canção. Ele parecia iluminado e me fez testemunhar um verdadeiro ato mágico: um canto clarividente no qual toda a minha vida se passava num caleidoscópio, uma melodia feita Aleph na minha existência.
Saquei o violão com o fito de acompanhar seu canto: um prelúdio que me dava a sensação dum solilóquio comovedor. Ele soltava a voz e eu agraciado cada vez mais me empenhando em acompanhá-lo.
À certa hora silenciou parece que emocionado e tomado pela iniciação: vi-lhe os olhos na imensidão. Que música linda é essa? – perguntei-lhe. Não sei, estou fazendo agora -, respondeu. Como é?
Com sua resposta, às pressas corri até o carro estacionado no meio fio da outra calçada, peguei papel e gravador, e voltei imediatamente no intento de registrar tudo.
Ao me acomodar refeito, dedilhei no pinho com um lalarilará desajeitado, enquadrando os acordes na sua melodia.
Repete -, insisti. E ele voltou a cantarolar enquanto eu seguia na tentativa de gravar, anotar e interagir na sua criação, acompanhando ao violão pelos possíveis refrões e estribilhos.
Foi aí que ele bradou melodiosamente: Nunca chore por mim, não chore não, que um dia eu volto pra te buscar...
Então, virou-se feito um oráculo com a dádiva do prêmio: - Toma -, disse-me ele – faz a letra.
Nem conversamos mais. Arrumei tudo no alforje, dei-lhe um abração de boa noite e zarpei pra casa carregando a música na cabeça e no gravador, anotada em todos os seus detalhes no caderno.
Daí, dias e dias insones, ela parida e ubíqua transpirou nas minhas entranhas e ideias, até virar refrigério de missão cumprida.
Avisei-lhe e nos encontramos noutra noite: sacudi na caixa dos seus peitos o que inicialmente se chamou de Balada de Quem Vai Embora.
Em mim havia a expectativa de sua anuência. Ele ouviu atentamente e mandou que eu novamente executasse o violão e começou a cantar a letra impressa no papel.
A satisfação estampava na sua face e uma vírgula sequer de rejeição havia emergido das suas repetidas releituras.
Novamente virou-se com o ar da graça de quem comunga e me abraçou efusivamente: - Poeta!
Pronto, estava instituída a minha trilha sonora pro resto da vida, nascendo uma parceria que renderia depois mais algumas músicas.
Veio, então, João Silva, anos depois, para o projeto de gravação do primeiro disco só com músicas da parceria dele com Luiz Gonzaga, vez que Santanna já era famoso por esse repertório em suas apresentações contratadas. Depois das gravações das músicas da dupla João Silva/Luiz Gonzaga, ele me liga para eu ir até o estúdio em Recife, passar os acordes da nossa parceria pros músicos. A festa foi grande por reencontrar naquela ocasião o guitarrista Vavá de Aprígio, amigo meu de infância e que não via há anos, bem como a de conhecer pessoalmente o legendário sanfoneiro Camarão. Isso feito, já à noite, estávamos todos num restaurante onde eu autografava o meu livro Paixão Legendária e, logo após, Santanna faria um show. Foi uma verdadeira confraternização. E o que era uma balada de quem ia embora virou uma toada Nunca chore por mim no disco Gonzagão, meu professor, de 1992.
Em 2001, nove anos depois da primeira gravação, ele repete a dose regravando a nossa Nunca chore por mim no seu cd Xote pé de serra, agora com nova roupagem. Foi exatamente quando ele me concedeu a entrevista publicada aqui.
Em 2008, a nossa música ganhou um clipe feito pela saudosa Derinha Rocha, reunindo um vídeo com apresentação do Santanna e o áudio dele na música. Esse presente deveu-se ao fato dela sempre me ver cantando essa música nas minhas apresentações alternativas.
Até que em 2011, quando da realização do meu show Crônica de amor por ela, no projeto Palavra Mínima, da Cooperativa da Música de Alagoas (Comusa), em Maceió, fui flagrado pela filmagem do Sidclei Gomes, interpretando a música na forma e jeito que ela foi criada. Resultado: um presente chegou agora num clipe produzido pela querida Meimei Correa.
Sou feliz e grato por essa parceria. Mais ainda por ter privado da amizade do cantador, possibilitando que cometêssemos novas parcerias que ainda se encontram inéditas e que fazem parte do rol das canções que comporão meus projetos musicais mais adiante. E viva Santanna, o Cantador, salve, salve.
DESEJO – A minha música “Desejo” nasceu de sopetão. Foi assim mesmo: teibei.
Tudo começou um dia quando a namorada me ligou de manhã com um convite para o almoço. Estava eu, na época, como redator geral de uma emissora de rádio, carregado de trabalho até as pestanas. Coisa de louco. Toda manhã era correria da grande, iniciada pelas 4 da madrugada e só se concluía por volta do meio dia, quando eu entrava no ar para apresentar outro programa jornalístico. Era uma barra ter que preparar um jornal com uma crônica diária que ia pro ar às 7 em ponto, elaborar notícias para serem veiculadas de meia em meia hora, até fechar o programa noticioso de meio dia. Estafante, porém, tarefa deliciosa demais.
Foi exatamente no meio dessa loucura, que recebi a intimação com hora e local marcados e, não tendo escapatória, aceitei. Afinal, era uma convocação irrecorrível.
Lá, por volta das 13 horas, eu cheguei todo avexado, como sempre. O suor correndo da tampa aos fundos aumentava mais o meu vexame. Entretanto, era hora de relaxar da labuta diária e tomar ciência da razão do convite.
Foi quando de forma inexorável e com cara de poucos amigos, a namorada tascou:
- Sabe que dia é hoje, Luiz Alberto Machado?
Ih! Pelo soletrado do meu nome completo, sabia que coisa boa não viria para minha banda.
- Sei -, respondi.
- Então, me diga que dia é hoje?
- Sexta-feira!
- Sexta-feira de que mês?
- Sexta-feira, 18 de abril de mil novecentos e…. -, soltei sem nem saber direito mesmo que ano era (acho que foi de 86, 87 ou 88, por aí, um desse).
- Certo. E o que isso representa, Luiz Alberto Machado? -, cada vez que ela dizia meu nome de forma repuxada, enfática e detalhada, mais eu percebia que o mar não estava para peixe.
- Hum?!?
- Isso mesmo, senhor Luiz Alberto Machado. O que representa o dia de hoje?
Gente, eu vasculhei todos os arquivos do cérebro e só me vieram à memória as comemorações do Dia de Monteiro Lobato e, por causa disso, o Dia Nacional do Livro Infantil, também Dia do Amigo, aniversário de morte de Einstein e… (era me lembrando e gaguejando em voz alta, e ela só sim, sim, sim…. e que mais?).
Vixe, que aperto! Que mais? Será que esqueci algo importante? Danada dessa minha ignorância, sempre passando batido em tudo. Ô memoriazinha essa para me deixar sempre na mão.
- Que mais? -, indaguei com a cara mais atarantada de quem perdeu o bonde do mundo e com a sensação mais cínica de que estava passando em branco por algo que não deveria jamais farrapar.
- Sim, isso mesmo, senhor Luiz Alberto Machado.
- Peraí -, pedi arrego e fiquei matutando enquanto tapiava com pedido de cerveja.
- Hum…. deixa ver, 18 de abril, é… e…. -, rebuscava até dos registros acásicos para minha salvação naquele momento cilada e ingerindo ligeiramente a cerveja. Que saia-justa! E me arrependi de ter aceitado o convite na hora.
- Pois é, senhor Luiz Alberto Machado. Já que não se lembra, vou refrescar sua cabecinha tola: hoje é meu aniversário. E agora vou deixá-lo num mato sem cachorro: cadê meu presente?
Minha nossa! E agora? Procurei terra no chão, não encontrei. Procurei um buraco para me socar e nada. Danou-se! Como sair dessa, hem? Não deu outra. Com o riso mais amarelado impossível, peitei:
- Surpresa! O seu presente está na mala do carro! Queria mesmo ver a sua carinha de invocada! Peraí, deixa eu tomar uns goles que já vou trazer o seu presente.
Fiz o que pude para empurrar com a barriga a situação.
O que eu tinha para dar de presente? Nada.
Sair correndo para comprar àquela hora só confirmaria que eu esqueci bonitinho da data.
Não podia.
Tinha que sair do aperto de qualquer jeito e tome gole e as catracas do quengo fumaçando.
Gente, que viela!
Pensei comigo: agora tô fudido mesmo. E tome gole de cerveja e blá blá blá.
- Luiz Alberto Machado não enrole, cadê meu presente?
As idéias davam nó no juízo quando arrisquei:
- Vou buscar, dois minutos só.
Virei o copo, saí do restaurante sem saber o que fazer enquanto ela me acompanhava com o olhar aos mínimos movimentos.
Abri a mala do carro e só tinha uns papéis, dois gravadores e o violão.
Ih! E agora?
Fiquei remexendo na mala do carro como que estivesse procurando algo.
De vez em quando eu voltava o olhar para ver a situação e ela lá vigilante, inexorável.
Fiz uma procura demorada mexendo nas coisas, remexia tudo, revirava, mãos na cabeça, coração saindo pela boca, garganta seca, a terra rodando, a coisa ficando feia, quando resolvi pegar um calhamaço de papel, um dos gravadores e o violão.
Voltei atrapalhado, papel voando, gravador se espatifando no chão me fazendo voltar para pegar outro providente gravador, apanhei o rebentado e segui pra mesa.
Quando me sentei, ela cruzou os braços e fez a cara mais reprovadora do mundo.
Ora botava as mãos nos quartos com ar nada açucareiro, ora se fechava com a mão no queixo, sobrancelhas cerradas e olhar interrogativo de quem vai mandar ver numa sentença pra lá de condentória.
Ah essa minha mania de estar sempre pulando aperto. Sempre assim. Contudo, não dei o braço a torcer e comecei a dedilhar o violão dizendo:
- Olha só, o seu presente está pronto, só que não decorei ainda. Vou ver se me lembro detalhadamente. É assim….
E fiquei enrolando versos criados na hora, cantarolando uma melodia que não existia e fazendo e refazendo tudo, sempre dizendo que havia lembrado, eita, já esqueci, ah, lembrei de novo, sim, é isso e assim foi.
Ao cabo de meia hora mais ou menos de peitica e peleja, eu disse:
- É isso, seu presente é esse:
Quero ficar no seu coração
E assim poder sonhar
Toda aventura que pintar da emoção
Todo fervura que brotar da sua mão
Para iluminar a reticência que aprumou a minha vida
E um dia ser feliz e nada mais
Quero ficar no seu coração
E assim me agasalhar
Do frio impune que semeia a solidão
E feito imune repetir a sensação
Que vai para lua na volúpia mais fervida
E um dia ser feliz e nada mais
E quando o jeito de você virar absoluta adoração
Será o véu perfeito e a ternura abraçará minha ilusão
Quero o meu destino a confundir-se com o seu
E sermos um, o que a sina prometeu
E o que sobrar de nós será um ninho verdadeiro
E um dia ser feliz e nada mais
Gente, verdade! Do jeito que fiz, ficou. Enrolei tanto que a música ficou prontinha com a letra e tudo.
Ufa!
Como estava em processo de criação não deu para acompanhar as feições que ela deve ter exposto na maior das desconfianças. Só sei que ao terminar de cantá-la todinha (devidamente registrada no gravador para não perdê-la e nem confiar na memória), eu abri os olhos e flagrei um lindo sorriso dela.
- É pra mim? -, perguntou-me com o jeito de menina angelical e com as faces risonhas de quem ganha um presente daqueles sonhados e que muito gostou.
- Sim, pra você. É sua.
- Não acredito!
- Verdade. Vou copiar a letra agorinha aqui para que você guarde como o meu presente pro seu aniversário.
E copiei a letra numa folha, coloquei a data e assinei. Pronto, estava dado o presente.
Passaram-se os anos, o namoro se foi, mas a música ficou.
Incorporei a letra nos meus livros publicados “Paixão Legendária”, de 1991, e na antologia “Primeira Reunião”, de 1992. E eu sempre cantarolei a canção nas minhas modestas apresentações musicais, em recitais, saraus, lançamentos e por aí, até o dia, muito tempo depois, em que Derinha Rocha pegou uma câmara e me filmou cantando a dita canção.
A minha performance não estava lá grande coisa, mas gostei e aceitei a indicação de abrir uma página no YouTube.
Por causa disso a coisa pegou e com poucos dias tinha mais 2 mil visitas.
Fiquei, claro, maravilhado com isso.
Por causa disso, em 2007 (ou foi 2008?), a Sônia Mello me liga e diz que quer gravar essa e outras músicas minhas. Sonia Mello? Exatamente a cantora que nos anos 70 e 80 gravou uma penca de long-playngs só com músicas de Roberto & Erasmo Carlos. Eu mesmo já havia me apaixonado por ela só por causa da capa de um dos discos em que ela está encostada num SP2 (lembram? Era o carro dos meus sonhos adolescentes!). Oxe! Então, um pedido desses a gente não nega, né? Fiquei mais assanhado que pinto no lixo. E todo atabalhoado fiz atender seu pedido. Peguei o violão, gravei do jeito que saiu, passei pro computador e enviei duas: “Desejo” e “Aurora/Minha Voz”. Fiquei com o coração na mão. A expectativa, nossa! Um abismo de espera.
Quando ela falou comigo pedindo as músicas, ela me disse que era para integrar um projeto de um cd que ela estava gravando sob o título de “Destino” e que, entre outras músicas, uma delas era uma feita pela respeitável dupla Roberto & Erasmo exclusivamente para ela. Ora, estar ao lado dos compositores mais aclamados pela população brasileira, não era coisa para se relevar, não acha? E apois, foi. Quando dei por nada na vida, recebo um mail e uma ligação dela.
- Luiz, dá uma olhada e me diz se Desejo ficou ao seu gosto.
Como é? Abri a caixa de mail e lá estava. Ouvi, ouvi, reouvi e não me contive. Estava bem demais com o arranjo que o Guga Mendonça fez. Nossa, dessa vez o presentação era meu. E o melhor ainda estava por vir. É que ao invés de “Destino”, ela nomeou seu disco “Desejo”, ou seja, a minha música se tornava o carro-chefe do seu projeto. E Roberto & Erasmo? Claro, não só inseriu a música deles, como também a minha “Aurora/Minha voz”. Nossa, uma festa!
Em 2008, mais de 20 anos depois da criação da música, me encontro com a Sônia Mello e ela me entrega o cd em mãos. Fiquei tão abestalhado que falei pelos cotovelos, a ponto de me esquecer uma coisa importante: de agradecer. Pois, foi. Veja que sujeito mais melepeiro sou eu. Esqueci do aniversário da musa, esqueci de agradecer também a intérprete. Coisa de ingrato brabo.
Quando é em 2010, “Desejo” me proporciona mais um momento de alegria: foi premiada com o primeiro lugar no FEMI 2010 (Festival da Música Independente), promovido pelo Projeto Sociocultural Vozes do Meu Brasil e do Clube Sua Arte na Rede, que reuniu no Japão mais de 600 composições do planeta, peneiradas para 60 avaliações, resultando em 20 escolhidas. Eita! Realmente foi. Fiquei todo ancho, chega me senti maior que o meu próprio tamanho (desce, desgraçado!). Só me resta uma coisa: a minha gratidão pela interpretação e iniciativa da Sônia Mello.Também do flagrante para criação dos clipes (primeiro, o meu solo; depois, a homenagem à Mônica Belucci com a canção na voz de Sônia) feitos pela saudosa Derinha Rocha. E mais ainda agora quando a querida Memei Correa realiza mais uma expressão de sua arte, primeiro com a interpretação de Sônia Mello e, em seguida, com a minha apresentação no show Crônica de amor por ela, em 2011, ao me presentear com mais esses clipes para essa canção.
Se sou merecedor ou não, não importa, o fato é que essa canção tem sido agraciada pela simpatia de pessoas tão especiais para mim, o que já é o suficiente para me fazer feliz além do mérito. Nada mais justo, então, demonstrar para vocês que fizeram dessa canção o meu grande prêmio, por isso, o meu muito obrigado eterno.
PS: Publicado originalmente no dia 13/08/2010 no Tudo Global e todos os registros da canção no BlogAgenda.
Sonekka é um desses caras que a gente simpatiza de chapa! Aquele
tipo de gente que, ao primeiro contato, a gente parece que já conhece desde
longa data de tanto entusiasmo. Diriam, então, os místicos de todos os matizes,
que isso se deve ao fato de que essa empatia está devidamente explicada por
outras encarnações anteriores, onde a gente pode ter se encontrado por aí. Pode
ser, admito. Ou porque ele deixa se mostrar com uma benignidade tão expressiva
que comunga, de chofre, com a solidariedade que nos emoldura nas ações
participantes. Então, dou meu testemunho porque foi exatamente assim que senti.
E basta conversar com ele, seja pessoalmente, seja virtualmente, para constatar
logo tratar de um sujeito que carrega um jeito especial de ser.
O meu primeiro contato com ele foi na Rede Social da Música
Brasileira – RSMB. E lá, no primeiro mail, vi logo que era daqueles que
participariam logo da minha trupe e sem restrições.
Claro, Sonekka é o que podemos chamar de sangue bom mesmo: não tem
estrelismo, nem pacutia, nem pantim e logo mostra que não milita pelo
bloco-do-eu-sozinho. E vou provar isso.
Primeiro, é um desses sujeitos que mais parece com aquela grande
idéia do eminente pedagogo pernambucano Paulo Freire: “Ninguém se liberta
sozinho. Ninguém liberta ninguém. Os homens se libertam em comunhão”. Foi assim
que encontrei Sonekka.
Depois vi que ele divulgava no RSMB não só coisas atinentes à
música, mas ao que deve estar na agenda de qualquer pessoa que milite na arte:
o seu trabalho sintonizado com o seu tempo e a sua terra. Sim, porque não é só
de tons e sons que vivem músico e compositor, mas de poesia, de pessoas, de
política, de participar contras as injustiças, de somar para a busca de um
mundo melhor, dentre outras tantas necessidades interiores que permeiam a alma
da arte e do artista.
Daí conheci a seu sítio na Internet: http://clubecaiubi.ning.com/profile/sonekka.
Tem de tudo até hoje: ele e uma penca de gente que com ele divide as emoções de
sua existência: cardápios, contos do Zé, contato, letrário, rádio A, meio mundo
de coisa e informações diversas, dele e de todos.
Foi aí que procurei saber de quem se tratava realmente e encontrei
um profissional formado em processamento de dados que trabalha como consultor.
Também fiquei sabendo que tocou no circuito universitário e no interior de São
Paulo, participando de diversos festivais. Além disso, é cantor e compositor,
toca violão, cavaco e viola caipira.
Pois bem, o mais recente contato com o Sonekka, foi “Incríveis
amores”, o seu cd lançado em 2003 com a sua interpretação e sons tanto de sua
autoria como de parceiros, produzido por Fernando Lee e contando com
participação de músicos, tais como Fábio Schmidt, Peninha, Ivan Pelliciotti,
Marcos Oliva e o Fernando Lee. Ouvi da primeira até a última faixa do álbum.
Fiquei ouvindo e ouvindo: havia algo subjacente que me chamava atenção e eu não
conseguia decifrar. A primeira música que me pegou foi Fugitiva, uma parceria
oriunda do livro Poecrias, com Greice Munhoz. Interessantíssima. A segunda que
destaco, é Ontem, a décima segunda faixa do disco, com letra e música do
próprio Sonekka. Devo dizer, no entanto, que o cd não se restringe a essas duas
músicas. Muito pelo contrário: Impasse, Tanto Faz. Falando Sozinho e Sinto
Muito, todas do Sonekka, mais Na boca, uma parceria dele com o Fernando Lee.
Para melhor entender o que eu digo, em 2003 Sonekka teve canções
suas incluídas nas coletâneas “Brasilidade”, lançada no Brasil e na Europa, e
também na “Estação XXI”. Possui outros parceiros como o Zé Edu Camargo,
Fernando Cavallieri, Leo Nogueira, Ricardo Moreira, Vlado Lima, Paulinho
Tapajós, Zé Rodrix, Élio Camalle, Osmar Reiex, Isielly Ramos, Apá Silvino,
Fernando Guerra, Carlos Machado e Vasco de Britto, dentre outros.
Para ser mais enfático no que estou querendo dizer, basta fazer
uma leitura do que escreveu o músico e crítico de MPB, Julinho Bittencourt,
publicado no jornal A Tribuna, de Santos, mencionando que: “(....) Incríveis
Amores é divertido, engraçado, desabusado, rancoroso às vezes, saudoso quase
sempre e principalmente bem feito, gravado e tocado. Sonekka tem uma qualidade
rara. É humilde no fazer. Não se arroga. Faz sua música de forma leve,
aparentemente descontraída, sem grandes mirabolâncias e consegue resultados
bons de ouvir. O pop enfim em toda a sua extensão. (...) Com nítida influência
das bandas de rock da década de 80, Sonekka voa acima delas e encosta na MPB de
forma sutil. Se comporta exatamente como um roqueiro que amadureceu, sofreu e
se divertiu muito com as mulheres e resolveu contar tudo de uma vez. Tudo segue
em tom corajosamente coloquial”.
Já o Zé Edu Camargo, na coluna “O Zé falou”, advertiu que “(...) o
cantor e compositor Sonekka fala de amor. Mas não fala de amor como qualquer
um. Ele fala de amor para qualquer um. O disco Incríveis Amores fala do meu
amor, do seu amor, do amor como gente como a gente. As 12 canções do disco não
usam disfarce. Ferem firme, algumas. Assopram, outras. Embalam. Relembram.
Explicam. Complicam. Você não vai passar indiferente. Afinal, quem neste mundo
passa indiferente a ele, o velho e bom e incrível amor?”.
Concordo em gênero, grau e número com ambos. Tanto o Julinho
Bittencourt, como o José Eduardo Camargo foram no âmago sonoro e poético de
Sonekka. Mas isso porque a música do Sonekka é cristalina, simples, de uma
simplicidade estonteantemente tão natural, como as coisas advindas do impulso,
do instinto, da intuição. Aí onde está: trata do mais trivial sem ao menos
chegar ao banal. Entendeu? Pois é, este é o segredo, aquilo que está subjacente
rolando da primeira à última faixa. O simples em sua mais espontânea expressão.
Até o jeito do Sonekka cantar é simplíssimo mas com a carga de
quem revela o mistério embutido nos sentimentos da natureza humana: do flerte à
possessão, do enleio ao passional, do namoro ao desastre da incompatibilidade,
do chegar enamorado e partir desiludido, do amor à perplexidade do desamor,
tudo isso sem rancor como se fossem águas que represam e passam na maturidade.
Este, portanto, o Sonekka. E digo: o melhor mesmo é ouvi-lo e
conhecendo seu trabalho no seu sítio. Bote fé e vamos nessa.
Pois bem, tempos atrás, numa das vezes que estive em Sampa, cruzei
com o Sonekka, bebericamos, trocamos idéias, curtimos o Caiubi e, depois disso,
ficou martelando na minha cabeça uma entrevista com ele.
Pois bem, vamos conhecer melhor, com vocês: Sonekka!
LAM - Sonekka,
primeiro, vamos para a pergunta de praxe: como se deu a descoberta pela arte,
pela música?
Luiz, acho que isso meio que nasceu comigo. Eu tenho lembranças
muito remotas de quando trocava qualquer brinquedo por outro que fizesse algum
som. Um dos meus primeiros brinquedos, que eu me lembro, foi uma sanfoninha.
Mas a real afinidade veio ao 13 anos quando soei os 3 primeiros acordes no
violão e não "consegui" mais parar.
LAM - Quando
foi que o Osmar Lazzarini optou pelo Sonekka?
Soneca é um apelido de infância que eu tinha desde os 7 anos de
idade, eu morava numa cidade pequena e algumas pessoas me chamavam por esse
apelido. Nos tempos de colégio a coisa do apelido se expandiu e nos de
faculdade chegou ao ponto de não saberem como era meu nome real ...rsrsrs.
Acabei percebendo que as pessoas tinham facilidade de guadar o apelido e essa
empatia acabou me conquistando também.Os dois "K" no Sonekka só surgiram
há uns 5 ou 6 anos quando decidi trilhar uma identidade musical via internet.
Na web você pode encontrar milhões de Sonecas mas se encontrar um Sonekka,
serei eu.
LAM - Quais
influências marcantes fizeram consolidar a sua opção pela música?
O gosto pelas rodas de viola e violão, a fascinação pelos
festivais(embora não tenha participado de muitos, sempre acompanhei).
A MPB feita pelas figuras que surgiram nos festivais dos anos 60
era minha discoteca básica, juntando-se os repertórios dos cantores de barzinho
no interior de São Paulo e uma boa dose de sambas e modas de viola. Nunca fui
de ouvir muito rock e minha experiencia com musica internacional foi bem pouca.
LAM - Agora
vamos falar de Incríveis Amores. Como se deu o processo de criação desse
projeto? Como se deu a receptividade desse seu trabalho?
O incríveis amores começou com o desejo de gravar um demo, e ainda
a intenção inicial era um demo de sátiras.Depois ficou decidido que faríamos um
disco com as canções próprias de amor que tocava em shows intimistas, os
músicos com quem eu farei a demo, por gostarem das musicas, acabaram me
convencendo disso. Como componho em muita quantidade, durante a seleção das
músicas optei pelo "conceitual" de ser só canções de "amores que
não dão certo" com todo o zêlo pra não cair no piegas, na dor de cotovelo
vã e outros perigos das canções de amor. Durante a seleção mesmo o projeto ja
evoluiu para um disco todo. Ja que estava à beira do estúdio,tinhas as músicas,
porque não levar adiante até a concepção de um CD? Até hoje não encontrei uma
só pessoa que tenha feita uma crítica negativa sobre o disco como um todo,
pontos de fraqueza sempre tem mas o Cd esta calcado em POP-rock de fácil
assimilação, não vai a extremos do gosto pessoal, nem em letra e nem em
melodias e arranjos. O clima é suave. Quem gosta de MPB e quem gosta de rock
consegue se identificar. A dificuldade maior é a receptividade comercial, por
ser um disco feito quase artesanalmente, onde a gente atuava como autores,
arranjadores e "marchands" ao mesmo tempo, enfrentamos barreiras de
distribuição e divulgação expressiva.
LAM - Você
assina todas as músicas do Incríveis Amores, algumas em parceria com Zé Edu
Camargo, Fernando Lee, Fernando Guerra e Greice Munhoz. Como é que se processa
esse trabalho, essas parcerias?
Eu sou preferencialmente melodista, normalmente recebo letras dos
prontas dos parceiros que faço. O Zé edu camargo foi um dos primeiros
parceiros, de lá pra cá eu passei de 50 parceiros musicais. Minha aptidão pra
letras esta cada mais rara, em contrapartida minha intuição para rítmos
variados de melodia está cada vez mais forte.
LAM - Você tem
uma proposta de variedade, transita por ritmos e se insinua por vertentes
inusitadas numa verdadeira heterogeneidade. Como se dá essa proposta?
Eu me ancoro totalmente nas letras que recebo. Quando me ponho a
musicar uma letra recebida eu me concentro totalmente na mensagem que deve ser
passada, a minha heterogeneidade vem diretamente da variedade de parceiros e
por ser um artista indepente, sem vinculos , faço minha criação livremente sem
me ater a rítmos definidos, nem modismos, faço o que acho que fica bem para
aquela letra.
LAM - Comumente
vê-se seu nome enturmado com uma penca de gente de talento e propostas. Quer
dizer, vi você a partir da RSMB, depois ativo no Clube Caiubi e sempre fazendo
uma série de participações. Há sempre um sinal de comunhão, é essa uma das
bases da sua proposta?
Isso eu faço questão de continuar, depois que comecei produzir em
grupo passei a ficar muito mais fértil. De quando entrei na RSMB até agora com
o Clube Caiubi e a M-música só tenho colecionado alegrias. Quando as
organizações surgidas em listas de discussão de internet saem do virtual e vão
pro mundo real, vira uma coisa irresistível, a comunhão de amizade e
talento.Poder fazer coisas que sozinho não seria possível como organizar shows
e gravações cada vez mais profissionais, poder sorver da experiencia de alguns
e oferecer a sua para o crescimento dos outros é um momento mágico.A arte como
ela deve ser : possível , bela e acessível e não meramente um produto comercial
como vem sendo jogada há tempos.
LAM - Como você
vê a alternatividade musical do presente? Ou seja, como você vê o universo
musical brasileiro para os que não conseguem chegar na grande mídia? Como você
se insere nisso e as dificuldades?
O momento é tão bom que talvez só se compare às possibilidades dos
anos 60 quando surgiu a bossa-nova, a TV e a industria do disco e difusão
maciça. Há uma revolução nos costumes musicais que é fácil de ser percebida. A
internet e suas possibilidades infinitas de mídia está cada dia mais ganhando
corpo, é inocente quem acha que nunca vai ser acessível a todos. E dela tem-se
as rádios online que são livres, o mp3, os recursos multimídia, o video digital,
o podcasting, redes de relacionamento, blogs. As facilidades em gravar
digitalmente com qualidade e maneira distribuída acelera esse processo, hoje eu
posso gravar uma base guia na minha casa e enviar para um parceiro no Recife
colocar um piano ou outro elemento e depois repassar os arquivos a outros até
completar o trabalho, tudo isso em questão de dias ou até horas, coisa
impensável em outras decadas. A mídia convencional está totalmente nas mão de
poucos, esse é o business da TV e grande corporações de rádio, produzir alguns
artistas e nos enfiar guela a baixo a custo alto, vendendo e ganhando milhões
em nome de uma qualidade imposta à força, é inocência deles achar que sempre
vai ser assim. A mamata acaba quando as pessoas passam a procurar o que gostam
por si próprias e descobrem que há um universo a ser descoberto e não precisam
de que a TV e a rádio guiem seus gostos, muita gente ja está nesse nível de
pensamento e cada vez mais aumenta.
Nisso tudo, costumo dizer não bato em porta trancada. Se as
gravadoras não nos querem, não querem pegar um artista do zero e gastar pra
coloca-lo na mídia, se os artistas da mídia saem dizendo que não existe mais
compositores, quem sou eu pra lutar contra isso? Nem mando. Faço o meu caminho
pouco a pouco, assim 100% das pessoas que consomem minha arte gostam, pois
vieram espontaneamente. Enquanto isso artistas e diretores de gravadora estão
fechados em suas mansões pensando em como manterem-se por cima do sistema e a
arte cada vez mais vai ficando de lado.
LAM - Como você
a música brasileria do momento? O que há de merecido destaque?
Olha eu sou um cara muito peculiar pra falar nesse assunto, eu não
sei o que ta tocando no Faustão nem na novela pois só assisto rigorosamente o
que gosto , vejo muito pouca Tv e quase nada de rádio comercial. No meu carro
só toca mp3 dos independentes que gosto e rádio só ouço online e sobre gente
que é do meu mundão independente. Faz muito tempo que não compro um Cd
comercial, consumo mais gente que merece mas não tem tido o destaque merecido:
Álvaro Cueva, Kleber Albuquerque, Elio Camalle, CEumar, Max Gonzaga, Fernando
Cavallieri, Alexandre Lemos,Tito Pinheiro são alguns exemplos. Acho também que
muita coisa do Clube Caiubi deveria ganhar mais evidência.
LAM - Quais os
projetos de Sonekka? Como você é inquieto, deve haver projetos prontos para
pipocar, num é?
Esse é o ano mais cheião. Em maio em fiz e gravei um show ao vivo
no Crowne Plaza só com músicas minhas e do Zé Edu Camargo, o "Dois em
Uma", foi inusitado porque as pessoas que foram ao show receberam um CD
com caixa e encarte e puderam baixar as musicas no dia seguinte e gravar o CD.
No momento estou em estúdio com os
Tropecas(http://clubecaiubi.com.br/ostropecas) uma banda um pouco mais voltado
pro Rock e letras mais ácidas, une eu , Ricardo Moreira, Vlado Lima, Ricardo
Soares, Lucio Manosso e Fernando Lee, tuido capitaneado pelo igualmente
irriquieto Zé Rodrix. Ja gravamos 9 músicas , jajá tem mais Cd por aí.
Também estou produzindo o CD sde autor do Zé Edu Camargo que vai
ser interpretado por mim, Mariana Leporace e Elio Camalle com produção musical
do Fernando Lee. vai contar ainda com participações especiais de parceiros como
Celso Viáfora, Guarabyra, Zé Rodrix, Vicente Barreto, Sérgio Santos, Guilherme
Rondon, um projto muito bonito.
Ainda nos próximo vou disponibilizar pra download 17 faixas do meu
projeto "Acridoce" (titulo provisório) reunindo algumas canções de
produção de home estúdio e em comunhão com parceiros Brasil afora.
Ufa! Fora as coisas efervescentes do Clube Caiubi e shows com os
Tropeças e DoisemUmas.
ENTREVISTA concedida em 01 de abril de 2004. Bem, Sonekka, meu
amigo, meu parceiro, não fica só por aqui, tem muito mais, veja no Clube Caiubi de Compositores.