quinta-feira, abril 11, 2019

A ARTE DE GHUGHA TÁVORA



LAM - Ghugha, vamos para a pergunta de praxe: como e quando se deu seu encontro com a arte?

13 de maio de 1972, quando eu nasci…;) ou um pouco antes quando fui concebido. A maior arte é VIVER.

LAM - Quais as influências da infância e adolescência foram determinantes para sua definição profissional pela arte?

Me tornar “Imaginauta” e artista visual foi algo peculiar, posto que na família são todxs formadxs em Direito, portanto, sou a “ovelha psicodélica da família”. Viajando ao passado, lembro de ter pedido uma câmera fotográfica para minha madrinha quando eu tinha mais ou menos 05 anos de idade, acho que sou Imaginauta desde que nasci. Gosto de observar o mundo, e o ato fotográfico é um diálogo muito íntimo entre você e a Existência.

LAM - Você desenvolve atividades no Laboratório Imaginautas. O que compreende essas atividades?

São atividades que têm como orientação, a sensibilização estética e o incentivo ao talento criativo das pessoas em relação as mídias de comunicação e também como podemos utilizar as mais variadas linguagens artísticas como artefatos de mediação científica e promover ações que fortaleçam o associativismo entre as Pessoas e o protagonismo social. Veja aqui.


LAM - Você realizou o Floreando Palavras – Encontros Dialógicos, o que quer dizer essa sua ação artística?

FloreandoPALAVRAS é um “dispositivo criativo” Imaginauta que utiliza fotografia de flores (FLORtografias) em vários formatos, que são disponibilizadas ao público em forma de intervenções em espaços públicos. A ideia é incentivar o público a (es)colher uma flor e escrever um verso no verso, ou caso esteja-se falando sobre um tema específico, pedimos que descreva a opinião sobre o mesmo. Depois (re)colhemos as flores e as mensagens e documentamos. A ação foi posta em prática na XXI Feira de Livros de Caxias no MA, e também na re-abertura da Biblioteca Central da Universidade Federal de Pernambuco, na ocasião da SBPC em 2013. Veja mais aqui.


LAM - O que propõe o Constelação EduCriativa?

O Blog ConstelaçãoEduCriativa é um documento transmídia que desenvolvi a partir da minha atuação como consultor de um projeto UNESCO/FUNDAJ em 2013, quando apliquei a metodologia Imaginautas para um grupo de professores de escolas públicas da região. A ideia é propor novas metodologias em inovação pedagógicas que envolvesse artes e Tecnologias da Informação. O título do projeto resume sua proposta uma Rede de Educadorxs Criativxs! Veja aqui.


LAM - Você tem realizado o projeto Estação do Bem. Conta pra gente como se deu essa experiência?

Fizemos um piloto da EstAçãodoBEM! em Catende, a proposta era demonstrar como podemos transformar as estações das cidades da Zona da Mata Sul, em espaços para gestão colaborativa de projetos arte-científicos e eventos culturais, apenas mobilizando as pessoas certas e contando com o apoio da administração pública local. É essencial a participação proativa da sociedade local na construção da sua identidade cultural e artística. Precisamos promover cada vez mais, espaços que promovam o associativismo, a troca de ideias e a construção de conhecimento para fortalecermos a comunidade. Veja aqui.

LAM - Você tem como perspectiva a realização do Fortuna. Conta pra gente acerca dos objetivos e ações desse projeto.

O FO(R)TUNA – Festival Foto/Gráfico do Vale do Una, é a proposta de um pequeno festival de artes foto/gráficas – vamos falar em fotografia e grafismo em todas as suas manifestações e intersecções. Desejamos fortalecer e ampliar a cena local de Palmares em relação ao tema, e também promover encontros, trocas e gerar intercâmbio entre profissionais da área. O encontro deverá contar com a participação do IBAVALEUNA, Biblioteca Fenelon Barreto, Teatro Apolo, Estação de Trem, e claro, ações intervencionistas em espaços públicos.

LAM - Qual o objetivo e o que representa a ação artística Perspectivas Criativas?

PERSpectivasCRIATIVAS! é um movimento de intercâmbio sociocultural e artístico entre PErnambuco e Rio grande do Sul. O objetivo é levarmos uma truPE de artistas pernambucanos levando consigo uma mostra itinerante e transartística da cena local para que sejam apresentadas em 04 cidades do Rio Grande do Sul : Porto Alegre, Caxias, Nova Hamburgo e Canoas. Em cada cidade, iremos realizar intervenções em espaços públicos e também promover rodas de conversas com a população local e artistas de cada cidade, promovendo assim, uma tessitura cultural e artística entre os Estados. Ao retornar, iremos trazer um artista de cada cidade supracitada, para que visitem 03 Cidades em Pernambuco – Palmares, Catende, Maraial e Igarapeba, onde promoveremos as atividades, oficializando assim, nosso intercâmbio.
PERSpectivasCRIATIVAS! representa a ideia de um tempo Presente, onde possamos COMPARTILHAR e fortalecer laços sociais entre o Estados, fortalecer a ideintidade sociocultural do País, e promover o Bem Comum. É sabido das tensões políticas e separatistas entre povos do Sul e Nordeste, e nós vamos apresentar novas PERSpectivas de vida! Pautadas no amor, na solidariedade, no respeito e com muita ARTE, a nossa CULTURA é de PAZ.

LAM - O que é o Festival de Artes do Una (FAUNA), quais atividades envolvem e o universo a ser atingido.

O F.A.UNA – Festival de Artes do UNA, visa promover um grande encontro de artistas da Bacia do Una, que irão convergir e desaguar em Palmares. Seguindo a mesma filosofia do FO(R)TUNA, só que extrapolando para outras manifestações artísticas: música, performance, teatro, dança, poesia, etc. A ideia é também promover 03 dias de atividades na Cidade de Palmares, acolhendo o público e as atividades no IBAVALEUNA, TEATRO APOLO, BIBLIOTECA FENELON BARRETO e Estação de Trem. O F.A.UNA com certeza potencializará a cena local, enriquecendo o repertório cultural e artístico da cidade, como de cada artista participante. Además, irá injetar recursos no comércio local, especialmente gastronomia e hospedaria.


LAM - Fala da sua parceria com o Instituto de Belas Artes Vale do Uma (IBAVALEUNA)?

Sincronicidade e encontro entre um PROFETA e um Imaginauta. Por conta da realização do Laboratório de Impressões SER&GRÁFICAS, pelo FUNCULTURA, que foi recebido pelo IBAVALEUNA, re-encontrei com Paulo Profeta, o mentor e mantenedor do Instituto de Belas Artes Vale do Una. Percebendo o potencial do espaço e a necessidade do seu gestor em fomentar parcerias para que o mesmo pudesse atigir seu potencial de realização para a Cidade, eu oferecí-me para fazer uma “residência artística” e durante a mesma, eu iria desenvolver “dispositivos criativos” Imaginautas para “rodar” no espaço. Desenvolvi algumas atividades em conjunto com colaboradorxs do espaço e lançamos o “ESPAÇOLAVA – Arte Pegando Fogo”, “SARAUNA – Sarau Lítero-Poético-Artístico”, “ATELIÊ BARROFINO” e o “Teatro lUNAr”.  É uma feliz parceria com um grande futuro pela frente! Veja aqui, aqui e aqui.

LAM - Quais outras atividades e projetos você tem ainda por perspectiva realizar?

Estou com ideia e já estou investindo em Palmares. Escrevemos um projeto de Residência para 2020 pelo FUNCULTURA. A PERSpectiva é realizar a residência e desenvolver um total de 10 dispositivos criativos Imaginautas para a Cidade de Palmares, que seriam conectados com o calendário da UNESCO e também com datas significativas do calendário local e suas peculiaridades históricas.


Veja mais da arte de Ghugha Távora aqui, aqui & aqui.
 

sexta-feira, abril 05, 2019

A POESIA DE JOSIAS MOREIRA DE ALCANTARA



INSPIRAÇÃO: MULHER!

Tal qual um botão de rosa
Com desabrochar preciso
Eterniza em verso e prosa
A doçura de um sorriso.
Mulher, minha estrela guia
O melhor da poesia
Já que rege a inspiração...
De um poeta apaixonado
Que faz seu sonho versado
Transformar linda canção!

O bom verso fica vivo
E da vida a inspiração,
Quando encontra um bom motivo
A alegrar seu coração!
Oh! Mulher guerreira e diva
Minha fonte produtiva
E excelência nesse verso.
Sua beleza conduz
O poeta rumo à luz
E se esparge no universo!

SÓ VOCÊ, MINHA FLOR!

Desde que te conheci, as manhãs coloriram nas tardes alvissareiras e meu coração bate em descompasso.
Cada esquina que dobro, sinto a tua presença. Cada jardim florido vejo uma pétala que se abre e desabrocha teu sorriso.
Sinto: sede incontrolável de te beber, desejo sublime de compartilhar as cores do meu fascínio, o afago da minha paixão, a ternura do meu viver.

Pela simples possibilidade de cativá-la, tocá-la, senti-la (e quem sabe) amá-la, sem, no entanto acorrentá-la com as amarras da utopia, o martírio da insensatez, ou petulância da vil promessa.
Sigo a andar pelas noites solitárias, desgarrado e chamuscado pelo vício do teu perfume.
Nas paredes nuas do meu quarto, desenho: teu busto palpitante, teu ventre desfolhado, teu corpo de mulher formosa, perfumada. Projeto você só minha, minha flor.
As horas passam. O sono me persegue. Tento em devaneios fugir do sono para não perdê-la, impossível.
Cansado de buscá-la em vão, durmo, abraçado com o meu maravilhoso sonho. Sonho com a minha flor.

PERDOAR É DÁDIVA


Exercita com coragem e humildade o Dom de perdoar
O perdão acaricia a alma com a luz da sabedoria
Não prendas as lágrimas da gratidão
Livre, ela alimenta o equilíbrio
Não escondas um sorriso prestes ao brilho da graça
Ele representa a estrela do fascínio
Aceita de bom grado um aperto de mão
Pode ser o pacto da redenção
Receba o abraço de quem vos suplica amizade,
Esse gesto pode demonstrar a sinceridade que desconheces.
Acredita na união familiar,
Ela é o espelho dos nossos dias.
Permita que a felicidade se torne o pulsar do seu coração,
E agradece a DEUS pela dádiva do existir.

Somente assim se alimentará da paz espiritual.
Seja feliz, hoje e sempre.
A intolerância transborda o cálice do cético, enquanto a felicidade é o alimento na alma do justo.

EM QUE TEMPO VIVEMOS?

É fundamental no contraste da existência, perguntarmos: em que tempo vivemos? Será no presente promissor, o qual se funde ao grito avassalador da felicidade utópica, ou no tempo em que os fragmentos do passado modelo, alimenta a placenta do próximo suspiro?
Será que ao olharmos as estrelas do firmamento, captamos a magia da jóia que refulge no ar, contagiando o sol, que resplandece de alegria ao enamorar-se da lua?
Será que vivemos mergulhados na insensatez promíscua da intolerância e contaminados pela ociosidade dos incautos?
Com tantas perguntas sem resposta, permeamos as imagens férteis do fascínio, misturamos com o desejo coletivo de conquistarmos nossos espaços, sem a insanidade da guerra, sem a doença do egoísmo, sem saudades, sem temores, sem a necessidade de chorarmos a cada alvorecer.
Após tão ousada reflexão, adentramos no relicário da esperança, pintamos a face oculta do universo. Deslizamos no arco-íris do bem-querer. Libertamos os medos reprimidos e abraçamos a sorte do existir.

O ALFABETO DA AMIZADE

Amigo, vamos pensar
Brindando sobre a amizade,
Conservando o mesmo olhar
Dedicado na bondade.
E dizer que vale a pena
Fazer tal declaração,
Garantir justiça plena...
Habitando um coração.
Isso amigo é na verdade
Justiça do verbo amar,
Karma de identidade,
Leitura para encantar.
Mas amigo, não se esqueça,
Não existe sorte amena;
Onde quer que vá agradeça
Pelo pão... por cada cena...
Que seus olhos hão de ver;
Respirar toda magia,
Sentir a essência do ser
Terno e cheio de alegria.
Uma coisa lhe garanto!
Valorizo todo o amigo;
Xingo às vezes, junto o pranto
Zelo a amizade comigo!

GOSTA DA POESIA?

Você que sempre me lê
E gosta da poesia,
Tem muita sabedoria
E hoje já entendi por que!
Poesia faz pensar
O mundo em todo lugar
De uma forma caridosa!
Você faz dessa leitura
O aprendizado e a cultura
Tal qual verso o cravo e a rosa!

Cada leitura lhe faz
Ter um sentimento e calma,
Qual permeia dentro da alma
A mais intrínseca paz!
Não adianta coisa alguma
Ler ao dia apenas uma
Lê o quanto for necessário
Para viajar no espaço
E se livrar do cansaço...
Muitas vezes mercenário!!!

Responda-me, por favor,
Mas, não fuja da verdade
Ela tem capacidade...
De versar-lhe todo o amor?
Que incendeia a luz do dia
E transborda de alegria
Cada verso degustado!
Se for esse o sentimento
Agradeço cem por cento
O Deus esse resultado!!!

O LIVRE ARBÍTRIO

O Livre arbítrio nos dá
Liberdade de expressão,
Mas, nem sempre nele há
Uma perfeita elisão!
Tem gente que faz cantiga
Outra na maldade instiga
Seu conceito de razão!
Dessa forma o bem e o mal
Tem liberdade total...
De mostrar sua paixão!

A razão é um prato cheio
De recursos naturais
E às vezes fica sem freio
Em seus discursos letais.
Há quem o faça de guia
Tal qual fosse à luz do dia
Defendendo com paixão...
Uma causa autoritária,
Com demonstração hilária,
Da liberdade em ação!

A BAILARINA

Tal qual deusa em seu castelo
Olhar solitário e esguio,
Desfila em seu corpo belo
Qual água em curso de rio...
Tem a postura de garça
E a leveza não disfarça
No andar que não desafina...
Tem tudo de uma princesa
Na atitude e na beleza...
Quando dança a bailarina!


Em seu bailado suave
Gira igual se fosse o vento,
Pois domina o movimento
E o seu corpo esbelto é a chave...
Dança a bailarina dança,
E o estrelato sempre alcança
Igual musa do universo
Nas pontas dos pés entoa
E até parece que voa...
A bailarina no verso!

COMO NASCE A POESIA?

Para nascer poesia, de uma forma bem correta
É preciso sincronia, e ter alma de poeta!
Um bom verso não se fia, sem o olhar de um grande esteta
Que tece com maestria, sua imagem predileta!

Ser poeta é um dom sagrado, mas, poucos o desenvolvem
Ficando despreparado, os fundamentos se movem...
Poeta assim tece o verso, sem apoio do recurso
Que existe nesse universo, sábio em todo o seu percurso!

O poeta e a poesia são pilares e sustentam
Cada laço que se cria e a forma que se alimentam.
É uma liberdade eclética, mas, repleta de emoções...

Por suas noções proféticas, ao moverem corações...
Pintarem de tantas cores, cenários em movimentos...
Constituindo os rigores, vistos nos grandes talentos!

LADRÃO DE LIVROS

Era pura compulsão, roubava, mas não sabia,
que o livro na sua mão... Muito desgosto daria.
Desde cedo a sua avó, era do livro aficionada
e ele quando estava só, fazia do livro a escada.

Mas privado do dinheiro, para comprar seu lazer
o  jovem ia ao livreiro e roubava para ler.
No início roubava apenas, um livro simples... barato
depois já vemos as cenas, de um grande roubo de fato!

Certo dia ele foi preso, e arguido na prisão
disse: hoje não sou indefeso, e farei de coração
à quem quiser aprender, o que o livro ensina a nós...

o tempo dará o saber e livres terão na voz...
uma nova confiança, para enfrentar a batalha
e entender como a esperança, no livro também se talha!


JOSIAS MOREIRA DE ALCANTARA – O poeta, trovador, professor e palestrante Josias Moreira de Alcântara é formado em Marketing e Didática do Ensino Superior, membro da União Brasileira de Trovadores (UBT), da Associação Paranaense de Autores Independentes (ACEPAI), da Academia Brasileira da Poesia Raul Leone de Niteroi (RJ) e autor de mais de dez livros. Veja mais aqui.



sexta-feira, março 29, 2019

SURTOS & POEMAS, DE AGLAÉ GIL



Cavalo de antolhos

Vez por outra eu me surpreendo agindo como um cavalo de antolhos.
Eu me sinto desconfortável com os arreios que me dominam,
eu me revolto contra as mudanças de curso
a que eles me obrigam.

Como se eu fosse outra coisa, outra pessoa,
outra força - que não a minha -
que me impelisse a fazer o que não devo,
a sofrer o que mais não posso,
a desejar o que não me cabe.

Minha fúria, é, então,
a marca que me condena.

Agora que começo a entender isso, talvez seja
mais fácil conhecer essa mulher
que me sorri ali, no espelho,
e, assim, me livrar dos antolhos,
dando lugar a um animal liberto,
que se concede um galope soberano.

Pela doçura de algum amor

Eu pedi que trouxessem as palavras mais duras que pudessem encontrar.
Elas me foram servidas  em um daqueles dias em que se tem fome apenas de
doçuras, mas, ainda assim,
eu sabia que precisava me alimentar de algum amargor.
Salivei e esperei.
Ao redor, havia um mundo de dizeres outros que não meus.
E pensamentos molhados de água com sal.
As palavras, duras, amargas, pediam para ser engolidas em seco,
antes que me fosse permitido qualquer outro sabor.
Virei o tempo, ventei vontades.
E verti o caldo delas todas.
Minhas e suas.
Para depois, poder me fartar de algum amor.

Apocalipses

Vou me lembrar de você mesmo depois
da lua encarnada
do céu escarlate,
das veias abertas
da ampulheta quebrada, cacos espalhados pelo céu.
Vou me lembrar de você.
O que mora na alma fica.
Tatuado em silêncio e oração.

Poesia e só

Não adianta. Poesia para mim é estado de espírito, é rasgo na alma, é palavra nascida naquele oceano em que a lua se lava.
Não adianta. Não meço palavras, escrevo o que sinto, pulo as cercas convencionais, dou uma banana para os provincianos.
Poesia não nasceu em mil e alguma coisa. Nasceu muito antes do tempo, talvez tenha surgido na grande explosão. Virou pó de estrelas, caiu sobre o Everest e veio parar em quem não faz questão de aprisionar sons.
Porque poesia mesmo, poesia, ali, no duro, não é de ninguém.
Anda solta e voa. Passarinha de si.

A vida é mulher. Luas

Ainda é lua cheia e o que me diz?
Sair para azarar os homens nos bailes da melhor idade?
Tentar aprender danças de salão e fingir que de um tempo que não é nosso se tem saudade? Sentar à mesa de um bar qualquer em companhia da cerveja que não fica velha apesar de 'choca'.
Ainda é lua cheia. E o que se quer?
Abrir os braços diante do mar e rejuvenescer?
Brincar com os netos, reaprender?
Soar trombetas? Desaparecer?
Novela das nove para se irritar?
Abraçar o corpo amante, beijar na boca, gozar?
Andar à toa, brigar na trilha. Vociferar?
Ainda é lua cheia. O que me diz? O que lhe falta para se sentir feliz?
Parir estrelas?
Conhecer Paris?
Saltar pedras em rios?
Cantar Bethânia, Gal, Elis?
Ou fazer um mea culpa  ouvindo Marisa cantar “Bem-que-se-quis”?
Agora, lua minguante.
E o que se quer?
Receber a vida todos os dias, mesa posta, cama feita.
Beijar o riso dela, riso como o seu.
Riso em cascata. Mulher.
O banho de todos os mares. O sangue de todos os óvulos.
É. É lua minguante. E o que se quer?
Viver a vida, do jeito que a vida quiser.

A teia

Há toda essa teia. Não sei se fui eu quem a teceu, mas acho bem provável, até.
Porque os dias foram se formando em elos e eu os peguei com as mãos crispadas. Depois, não sei.
Quando voltei, vi esta teia ali, diante e adiante. Muda. Estática.
A nada comeu, ainda. Não há insetos ou afetos mortos. Não há vento.
Ainda que eu queira - e quero com uma força imensa - me entremear ali, não posso sair de minha moldura, onde sou o retrato daquilo que sobrou de mim.
Depois do sono ao qual me entreguei ou para o qual fui lançada.
Depois de meus quereres sem nexo.
Depois de meus amores sem sexo.
E esta paixão, quem sabe última, fica assim, sem graça e sem futuro.
Eu a desejar a teia, imensa, bela, agora brilhando à luz de um raio teimoso de sol em plena noite. Eu a desejar ser dela como jamais fui de alguém.
E ainda assim imóvel. Ainda assim pequena.
Presa à moldura envelhecida de meus cinquenta e tantos anos absolutamente nus.

Retrato na retina

Às vezes a gente quer encontrar uma moldura perfeita para determinada gravura. É tão difícil, nada combina...nada parece construir redoma em torno de algo que se retém de belo...principalmente quando está somente gravado em nossas retinas.
Penso que é assim o que sinto agora.
Fiquei imaginando onde poderia guardar uma lembrança quase perfeita que tenho em mim, de um rosto amado.
É um retrato que gostaria de manter, sempre, na memória.
Aquele sorriso, talvez eu jamais veja novamente. Um sorriso de vida fluindo e de uma ternura sem fim.
Está aqui, gravado em minhas retinas, mas não importa o quanto eu procure ou faça, não consigo emoldurá-lo. Nem mesmo as flores do amor posso usar, pois elas agora me parecem cinzentas, caída, murchas. As pétalas se perdem à toa, tamanha sua fragilidade.
Não quero o vazio, contudo não posso retê-las, porque elas recebem de um vento frio o aviso para que se percam em nome da transformação precisa da natureza.
O mesmo vento castiga meu peito.
Dói menos, porém o vazio que se agiganta, assusta. Isso é tão estranho, diferente e distante de mim.
O relógio já dá as doze badaladas. A noite tem um silêncio que me pede o descanso.
O retrato guardado terá que esperar. Talvez eu o guarde mesmo, para sempre.
Até que ele, amarelado e gasto, nem me diga mais de quem é aquele sorriso.

O que faço?

O que faço de mim
que andei tristonha e
alegre pela vida
e escondi minha dor
pra fazer graça
das coisas disponíveis aos olhos do tempo?

O que faço da marca ajuizada
e enlouquecida
que vence o fantasma
quando eu apenas quero rir
e denegrir a ideia da morte?

Faço graça, de novo? Faço poesia?

Olho bem nos olhos do tempo.
Ele é quem faz graça.
E passa.
Eu faço poesia.
E passo também.
Ela fica.
Nos teus olhos, nas tuas marcas.
Pra sempre.

Tijolos amarelos

Hoje eu vi a estrada de tijolos amarelos em algum ponto do olhar da menina que passou e fez de conta que a vida tinha mais do que ciclones e pés-de-vento.
Era como ler poesia em plena luz de um dia quase todo azul, não fosse por aquele ponto de infinitude amarela nos olhos dela.
Compreendi que não importa a idade que temos, quem somos agora, qual o nosso nome e endereço: somos parte de algo muito maior e que faz todo o sentido quando juntamos as peças do quebra-cabeça, aos poucos, com vontade e capricho. Quando lemos a história escrita por nossos pares.
Somos um pouco de todos que já percorreram a própria estrada de tijolos amarelos, tenhamos 10, 20,30,40,50,60,70...anos.
Porque estamos na vida para viver e, neste mundo, para aprender a caminhar.

Eu

Essa fuga dos dias,
dos pensamentos,
da sensatez.
E eu a ficar,
reduzida a brisa marinha
e a pedra de rio.
Os olhos entreabertos
e lágrima escorrendo
em silêncio
em silêncio
em silêncio.
Esta vida comprida
e eu a lidar.
Mãos aguerridas
e alma poeta.
O sorriso boiando feito uma
meia lua no céu.


AGLAÉ GIL - Nasci em Curitiba, ano de 1960, em um mês de fevereiro antes do carnaval. Era uma manhã de sexta-feira. A paixão pela leitura desencadeou, penso eu, a paixão pela escrita, a que me lancei desde muito cedo, sob a atenção de meu pai, um leitor tão apaixonado quanto eu e que antes de eu saber ler e escrever, lia para os filhos, sempre à noite, quando nos reuníamos em torno da mesa de jantar. Eu ficava fascinada por aqueles mundos que ele trazia à tona, desvendava diante de nossos olhos. Geralmente, um mundo real, pois ele lia História Ilustrada, uma coleção lindíssima. Eu aprendia, quase me afogando com as informações que me vinham como uma claridade abençoada. História e Língua Portuguesa sempre foram as matérias preferidas. Ainda são temas de estudo para mim. Minha formação é em Letras-Português, com ênfase em Produção de Textos [pós]. Trabalho como revisora de textos há trinta anos, porque o trabalho do código de nosso idioma e a tessitura de frases, períodos e textos são para mim como tricotar uma longa manta de lã macia e de muita qualidade. Uma paixão. Eterna. Quanto à História. Bem, estudo muito e sempre, movida pelo prazer da pesquisa e pela sede de conhecimento. Essencial. Tenho apenas um livro publicado: “Memórias de uma Fruta Madura”, de 2015, uma coletânea de meus textos mais intimistas. Não sou afeita a rótulos. Conto pequenas histórias, escrevo poemas, fotografo a vida. Escrevo para me manter sã, para tecer aquela manta que mencionei antes. Gosto da sensação, porque sinto que com ela [a escrita, a manta] eu posso aquecer muitas almas irmãs. É isso. Veja mais aqui.