sexta-feira, abril 15, 2022

CAPIBARIBE & FLAMBOYANS DE RISOMAR FASANARO

 

 

a geografia do meu medo

tem dois nomes

ansiedade e fome

a ciência do meu medo

duas raízes tem

ser eu

não ser ninguém


 

escrever é tecer de aranha

é sol nos fios de orvalho

entrelaçadas malhas

que tecem o amanhã

escrever é morte no orgasmo

é morte que ninguém vê

 


esta voz que mora em mim

um dia ficará quando eu partir

em outra garganta

de asas irá pousar

este canto

que hoje mora em mim

é dádiva fugaz

risco de luz

dentro da escuridão

gesto no espaço

negando o não

 


quando um poema me pega

não tem jeito

ficam pratos sem lavar

roupas por passar

casa pra varrer

me sequestra

até que eu sente

e escreva o que ele quer

 


a chuva levou os cravos

as orquídeas

os gerânios da janela

a noite encobriu os lírios

perdeste o melhor amigo

- nem percebeste –

teus pés pisaram as rosas

se feriram nos espinhos

- nem percebeste –

não viste a primavera

não vista nunca

nem o orvalho da íris

que escorreu

da tela de van gogh


 

Poço profundo

sem roldana:

solidão.


 

um sapo apareceu na cozinha

quem sabe príncipe disfarçado?

dei-lhe um beijo

ele piscou

que príncipe nada

e ainda saiu

pulando

e contando vantagem...

 


ditadura

a dor que senti, não coube aqui

 


junho chegou

trouxe as tristezas de maio

atrás de mim

um tigre faminto

à minha frente

um abismo

 

de pássaro

são teus passos

ainda assim eu sigo

teu voo

teus rastros

 

amor é olho d’água

cresce devagar

cresce

cresce

cresce tanto

que um dia

deságua no mar

ou nos teus olhos

 


RISOMAR FASANARO – Poemas extraídos do livro Capibaribe & flamboyans (Desconcertos, 2021), da premiada escritora, jornalista e professora pernambucana Risomar Fasanaro, autora dos livros Eu, primeira pessoa, singular (Prêmio Teresa Martin de Literatura), Casa Grande e Sem Sala e possui contos e poesias em diversas antologias, além de editar um Blog. Veja mais aqui e aqui.



sexta-feira, fevereiro 25, 2022

NÉSTOGAS & MARWIN LIMA

 

 

I

  

O futuro da guerra

Ursos pardos de guerra

Naquela esfinge as muralhas absolutas

Da mente, da poesia

Reveste a travessia o plano quântico

Automóveis de pedra

Tudo veio do sol de pedra

Amarras d’outros dias

Presas fáceis as plantas corridas

Ora pro nobis da China continental

Amarelo voa por cima das águias

Intuição dos cavalos alegando cobras

Culpando cervos na poesia dura

A arte é a fotografia de vida-sociedade

  


II

  

Os espanhóis ficaram atônitos!

Não se sabe das ideias

Grilos dos meus ombros esporros

Néstogas sinfônica na cabeça

Na cabeça do cabelo

Amarelo a cor do céu

Pitágoras esmurrou Néstogas

  


MARWIN LIMA – O jovem compositor musical, produtor e professor de teoria musical, Marwin Lima, em uma conversa informal com o poeta Vital Corrêa de Araújo foi tomado pela imantação de suas criações néstogas, proporcionando no exato momento daquela conversa a cometer dois poemas instantâneos sob a rubrica absoluta vital. Veja mais aqui.

 



OUTROS POEMAS DE AMANDA ARAÚJO

 

 

PORTA PAPEL DE PORCELANA

 

Porta papel de porcelana

Esboça a parede, rascunha olhos de cerâmica

De canto se lê suavemente

Seu suor de verniz

Salgado e brilhante

Nas marcas do corpo

Suas linhas de giz

Pálida e rígida calafrios sórdidos, alguém diz

Sobre pêlos cheios de alvoroadas

Deita o colo no calor do papel

Guardei no canto da sala

Perto da porta

Dentro do Porta Papel de porcelana.

 

SEMANICALISTA

 

Domingo de prache

O clichê chiava...

A sintonia? Perdeu-se!

Uma vida de passeata

Nas segundas ruas

Riu-se? Taxativamente.

O terço no colo do peito

Tecia a terceira via

Como vinha? Parado.

Dentro do quarto

Cobriu o zelo

Guardou a carta

Quase Magda.

Bravo!

Aqui inda se tocou

Quinze queixas do meio

No quintal da mestria.

Gesticular absorvera

Com exatidão

Era a cesta básica?

Obviamente cheias de juros.

Fez-se choque do brioche

Crochê no sábado

Sauvingnon, adivinhem? Doce e secular.

 

CHECKLIST SEMÂNTICA

 

Póros fechados

Aqui de pincelar

No nivelar nível novélico

Neologismos também tem signos

Engoliu as palavras lexicais

E aboliu as sentimentais

Sabem que vão desde o início

Para onde? Enigmas também tem sentido

A semântica, quem diz? Sabe lá, ou aqui...

Acolá diz talvez.

Minérios desvarios descritos a dedo

Cada qual tem seu segredo

Na ponta minimalista

Compôs seu checklist.

 

ECO

 

Dos alicerces que a vida me proporcionou

A introversão foi meu único escudo

Um silêncio mútuo se refez dentro da taberna

E quando vi já não existia conversa

Avistei, de longe, sim

Um abismo incompreensível

E a timidez se fez novamente meu labirinto

Um labirinto amianto

Inconforme a vida se levava

Trouxe de volta meu companheiro de sempre: o eco

Ecoa do Sul

Ecoa do norte

E em cada canto do mundo

Não havia mais sorte

A vida me direcionava a profundas negritudes

Se apalpava com rapidez cada zumbido ouvinte

Jogava-se magnificamente num abismo, de longe, devastador.

Arrastando pelo solo ríspido

O pouco que ainda restava de queimor

Sombreando meus caules de Lamartine

Com a exatidão de que o Anacreonte brotou.

 

HOLÍSTICO

 

Na bravura que iluminava

O céu latente ladrilhado

Enquanto opções travavam seu destino

Avante! Dizia Ecoava aos desvaneios

Apontando lareiras escaláveis

A claridade afunilava a íris dos olhos

No timbre mais banal

Da luz cristalina pairando entre os dedos

Fez-se silêncio

O sombrio esvaindo aliterações

Invadindo o poço seco

Encontrou-se a pérola da noite

Mais valiosa holística

Traduzido em gueixas exponenciais

Ruptura cambaleante em signos

Jaz o pó sonoro da lua.

 

GRAVITACIONAL

 

No longe torrencial

Avista-se a brisa adocicada

Ponderando o anoitecer em lumes

No selo do timbre

Encontra-se o céu ondulado

Nos lustres de pérolas negras

Não menos que universal

Comtempla-se o acervo de ladrilhos

Da solidez pálida e feroz

No tinto desenhando o celeste

Perdidos nas pálpebras caídas

Bourdeax noutros luares

Caminhei na despedida

Dos destemidos gritos perdidos

Resplanteceu o profundo brilho

Completa-se meia volta

À esquerda do lume

Gravitando o avesso dos lírios.

 

DÉCIMA SOLIDEZ

 

Sob o céu cru

De sombras cintilantes

Lareiras de metalurgia

Craquelava o chão

Dos ventos claros

Sobrava-se a luminância da pulsão décima

Engenhosamente mórbida

Laureando as sebáceas

Correntes de lírios

No campo flamejava

Negritudes maestrais

Entre pérolas enraizadas

Do solo alvo e sublime

Sondava o crepúsculo latente.

 

TRANSLÚCIDO

 

Se escondeu sobre o vidro

Impermeável pensou estar

Ao vento podia-se perceber

Que do outro lado passará

Entre correntes verdejantes

E pastos singelos

Dormia solenemente

Na reiva que cobria o céu

No chão, fazia-se cantoria

Sobre aqueles olhos cor de marfim

Profundos e enigmáticos

Que denunciava o fim.

 

A VIDA INCOMPREENDIDA

 

Desvairados pensamentos perpetuam sob o céu

Lacrimejante ou nublado

Pingos de realidade

Sobram na vertigem

Do olhar humano.

 

PAREDE BRANCA

 

Sem contos ou fábulas

Concorrente do horizonte

Se vale do orvalho

Das marcas invisíveis

Do plano de fundo de uma casa vazia.

 

O CANTO SOLAR

 

pincelando horizontes

de nota em nota

aprovava com veemência

os bemóis e sustenidos

cantarolados à beira

de uma lareira acesa.

 

 

ACIMA DA MÁSCARA

 

Olhos de quem sobreviveu

Da vida os males

Marcas expressivas

De uma caminhada cansativa

Vê-se de longe

Um olhar marcante.

 

VENTOS INCONSTANTES

 

Na maré alta

Estalam ruídos

Camuflam vendavais

De mares

Com ares

Que sopram no litoral.

 

SOB A MÁSCARA

 

Esconde-se expressões

Leitura labial imperceptível

Conjuctura misteriosa

Algumas vezes escapatórias

Noutras os olhos entregam:

Há um sorriso.

 

COMO PASSARINHO SOLTO

 

Liberou perdão

Falou de amor

Cantou saudade

Disse adeus

E voou

No céu azul de Maragogi.

 

A PORTA FECHADA

 

trancou sentimentos

ao lançar farpas

sem prestígio travou

O que seria a forma concreta

No fim de uma reforma

de um casa sem parede.

 

MONDURAS ILUSTRES

 

Pincéis que falam

Diziam quase sem querer

Que a caminhada leve

Estava pintada

No quadro de uma nova jornada.

 

A VIRTUDE DA PRESENÇA

 

Virtualizaram o abraço

Na sociedade da idade mídia

Não só estamos

Mas somos

Apenas avatares

No mundo real.

 


AMANDA ARAÚJO – A jovem escritora e poeta Amanda Araújo é formada em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco, atualmente residente na cidade de Maragogi-AL. Na área da literatura, participou das antologias O Futuro da Poesia (2017) e Dezditos – Poemas Selecionados (2018), organizadas pelo poeta e professor Admmauro Gommes. Na área da educação, possui artigos científicos nas coletâneas DNA Educação, Rumos da Educação e Caminhos da Educação, organizadas pela Editora Dialogar (Veranópolis-RS). Veja mais aqui, aqui e aqui.