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quarta-feira, setembro 23, 2015

ENTREVISTA GILBERTO MENDONÇA TELLES


ENTREVISTA - Gilberto Mendonça Teles é poeta, advogado e professor universitário de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira.
Formado em Letras Neolatinas na Faculdade de Filosofia da Universidade de Goiás e, também, bacharel em Direito na mesma universidade. Defendeu a tese de doutorado em Letras, Drummond: A Estilística da Repetição, publicada em 1970 (Ed. J. Olympio), na PUC/RS.
Na década de 1980 foi professor visitante de Literatura Brasileira na Universidade de Lisboa e no Centro de Apoio da Madeira, em Portugal, e professor-associado na Université de Haute Bretagne, na França. Em 1991 foi professor visitante de Literatura Brasileira e Latino-americana da Universidade de Chicago (Estados Unidos) e, entre 1993 e 1994, integrou a equipe dos Archives de la Litterature Latino-américaine, em Paris (França).
Publicou seu primeiro livro de poesia, Alvorada, em 1955 e sua obra poética ainda inclui os livros Arte de Armar (1977), Nominais (1993) e & Cone de Sombras (1995), entre outros.
Já recebeu 18 prêmios literários, entre os quais: "Álvares de Azevedo" [Poesia], da Academia Paulista de Letras, 1971; "Olavo Bilac" [Poesia], da Academia Brasileira de Letras, 1971; "Sílvio Romero" [Ensaio], da A. B. L., 1971; "IV Centenário de Os Lusíadas" [Literatura Comparada], da Comissão do IV Centenário de Camões, 1972; "Prêmio de Ensaio", da Fundação Cultural do Distrito Federal, 1973; "Brasília de Poesia", do XII Encontro Nacional de Escritores, 1978; "Cassiano Ricardo" [Poesia], do Clube de Poesia de São Paulo, 1987; e "Machado de Assis" [Conjunto de Obras], da Academia Brasileira de Letras, 1989.
Detentor de um currículo invejável que, inclusive, daria para encher várias páginas deste site, Gilberto Mendonça Teles acima de tudo é bastante gentil, simpático, acessível e está disposto sempre a atender os que chegam. Exemplo disso sou eu que depois de me debruçar sobre o seu livro “Hora aberta”, tomei a iniciativa de realizar esta entrevista o que, agora, você, internauta, poderá ter a dimensão do prazer e honra de vê-la aqui reproduzida.

Com vocês, Gilberto Mendonça Teles.

GP - Gilberto, você recentemente comemorou 50 anos de poesia que culminou com a publicação da sua antologia “Hora aberta”, em 2003, pela Vozes. Gostaria, portanto, de começar nossa entrevista perguntando como e quando foi que o menino de Bela Vista de Goiás se encontrou com a poesia, com a literatura? Como se deu esse encontro? Como foi essa descoberta?

Meu caro Luiz Alberto Machado, começo por lhe pedir desculpas pela demora em responder a sua entrevista. Quero que saiba que me sinto muito honrado em aparecer no seu Guia de Poesia. Antes de responder às três perguntas deste item, esclareço que meu primeiro livro, Alvorada, foi publicado em 1955 e, portanto, a comemoração dos 50 anos de sua publicação se deu no ano passado, quando a Academia Goiana de Letras organizou um seminário sobre a minha poesia. A partir daí foram acontecendo outros eventos, no Rio de Janeiro e em universidades estrangeiras, como se verá na introdução de Eliane Vasconcellos no livro “A plumagem dos nomes: Gilberto 50 Anos de Literatura”, a sair brevemente. Aliás, gostaria de que esta entrevista — a última desses eventos — também figurasse nesse livro.
“A Hora aberta”, que você está chamando de antologia, é na verdade a 4ª edição de meus Poemas reunidos. Das três edições publicadas pela José Olympio, a primeira é de 1978 e se chamou mesmo Poemas reunidos: teve prefácio de Emanuel de Moraes e um “Apêndice Crítico” que selecionou a fortuna crítica de meus livros de poemas de 1955 a 1977. A 2ª edição é do ano seguinte, ainda com o mesmo título de Poemas reunidos. Já a 3ª edição, de 1986, incluiu outros livros e tomou o nome de Hora aberta, título que se manteve na 4ª edição, publicada pela Editora Vozes, em 2003. Esta é uma edição, que se poderia dizer de luxo, com livros novos e com os dois primeiros (Alvorada e Estrela-d’alva) completos. Até então esses livros iniciais da minha carreira apareciam com uma seleção de poemas. Na verdade tenho várias antologias (seleções) de meus poemas, tanto no Brasil como em países como Uruguai, Espanha, França, Estados Unidos, Itália, Bulgária, Alemanha, Romênia e em língua catalã. Feitos esses esclarecimentos, vamos passar às questões que você propõe.
Meu encontro com a poesia (se é que realmente a encontrei, pois me vejo sempre em busca) deve ter mesmo o seu “como” e o seu “quando”, como tudo que é submetido a uma apreciação histórica. No entanto, nas autobiografias (e uma entrevista não deixa de o ser), não parece haver apenas um “como” e um “quando”, pois eles se encadeiam numa seqüência de acontecimentos simultâneos e crescentes, em forma de desejo indefinido e de esperança confusa e, com o tempo, se consolidam num projeto de vida, o qual, ao lado de outros projetos de vida, acabam por se transformar no mais importante, naquele sem o qual é impossível o absoluto da vida.
Neste sentido, o “como” e o “quando” iniciais devem ter sido a partir dos seis anos, no meu amor crescente à escola, aos livros, aos exercícios, aos cadernos (que ainda guardo) e no respeito à professora que me levou a decorar um poema de Bilac (“A pátria”) e a recitá-lo em classe. Tudo isso armou na imaginação do menino alguma coisa de gosto, de enlevo, de algo que lhe agradava e que se foi aperfeiçoando pela vida a fora. A leitura de poesia e de prosa na adolescência, o gosto pela leitura, já nos treze e catorze anos, foi consolidando o espetáculo da literatura e me dando consciência futura de que a imaginação, o sentimento e o conhecimento se misturavam na criação literária. Portanto, era preciso ler, era preciso estudar e escrever, escrever, escrever. Com o tempo se fez a autocrítica e a maioria desse material entre os treze e dezessete anos permanece inédita por trás de uma das minhas estantes. Assim, o “encontro” e a “descoberta” foram um processo da infância para a adolescência e desta para a mocidade e para o homem que ainda teima em continuar a ser e agir como menino.

GP -. Nesses mais de 50 anos de poesia, vários livros publicados, muitos prêmios, inúmeras antologias, tudo deixa a indagação acerca de quais influências foram mais marcantes no processo de criação e no seu trabalho ensaístico?
É uma pergunta ao mesmo tempo ampla e sintética. Envolve toda a minha produção na poesia e na crítica. Creio que pode ser assim resumida:
Na Poesia, as influências vêm, primeiro, dos poetas que fui lendo, como os românticos (Casimiro de Abreu, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Gonçalves Dias — nesta ordem de leitura); os parnasianos (Bilac, Raimundo Correia, Vicente de Carvalho, Alberto de Oliveira — também nesta ordem); os simbolistas (Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens); e os modernistas que foram chegando com Mário de Andrade, Menotti, Drummond, Schmidt, Cecília e, mais tarde, Lêdo Ivo, João Cabral e Alphonsus de Guimaraens Filho. São poetas que li mesmo, li tudo, como depois fui lendo todos os modernistas, sem exceção. Assim como leio hoje os novos, os novíssimos, todos os livros que chegam à minha casa: arranjo sempre um tempinho para leitura. Esses os poetas brasileiros, mas fui também me iniciando nos estrangeiros: primeiro os de língua neolatinas que procurei ler ou no original ou em tradução, como os franceses, os italianos, os espanhóis e os portugueses. Li (e ainda leio) Apollinaire, Aragon e Reverdy; Quasímodo, Ungaretti e Montale; Lorca, Vicente Aleixandre e Jorge Guillén; e Fernando Pessoa. Mas li também os de outras línguas: Goethe, Rilke e Hölderlin; Yeats, Eliot, e não sei quem mais. Claro, li também os clássicos principais, gregos e latinos. Isto sem se falar nos contos e romances, que sempre leio.
Quanto à Crítica, outro gênero que cultivo, li e leio o que posso. Aprende-se muito lendo o que um bom crítico fala sobre a literatura e seus gêneros. Às vezes os comentários de um poeta valem mais do que a secura de um crítico, sobretudo os da área universitária e seus discípulos. Os comentários críticos de Alencar, Machado de Assis, Araripe Júnior, Sílvio Romero, José Veríssimo, Agripino Griecco, Tristão de Athayde, Sérgio Milliet, Álvaro Lins, Antônio Cândido e de poetas como Péricles Eugênio da Silva Ramos estão na linha dos que mais me influenciaram, no Brasil. Damaso Alonso, Amado Alonso, T. S. Eliot, Leo Sptizer são meus mestres: me ensinaram a procurar sentidos na linguagem literária.
Não se pode esquecer que, sendo professor de teoria literária e de literatura brasileira, todos os grande teóricos do século XX contribuíram direta ou indiretamente para a minha formação intelectual, para o meu conhecimento das artes, principalmente da arte verbal, da literatura. Assimilei deles o que mais se adequava ao meu gosto e à minha autocrítica e não só passei isso aos alunos (leciono na universidade há mais de quarenta anos), como utilizei esse conhecimento para a criação da poesia como para a criação da linguagem crítica.

GP - Tudo começa com Alvorada, em 1955 e chega até Hora aberta: que avaliação você faz dessa trajetória de mais de 50 anos de poesia?  

A linhadas influencias mencionadas pode dar o sentido (a direção estética) desta parábola que se estende de 1955 a 2005. Bem olhada, essa trajetória revela, em primeiro lugar, dois projetos que se foram desdobrando e se entrecruzando na cátedra e na produção literária — o da poesia e o da crítica. Percebe-se uma continuidade, uma regularidade na publicação dos livros, que foi gerando uma “fortuna crítica” apreciável, que se pode ver em livros como Gilberto: 30 anos de poesia, publicado pela Universidade Católica de Goiás, em 1986; Poesia & crítica: Antologia de textos críticos sobre a poesia de G.M.T, organizado por Dulce Maria Viana em 1988; Gilberto: 40 anos de poesia, editado pela PUC-Rio em 1999; e agora, no prelo, A plumagem dos nomes: Gilberto 50 anos de literatura, organizado por Eliane Vasconcellos, chefe do Arquivo-Museu de Literatura da Fundação Casa de Rui Barbosa. Merece ainda o registro de que, além das várias teses (mestrado e doutorado) sobre a minha poesia, saíram recentemente o livro O selo do poeta, de José Fernandes (Rio de Janeiro, Galo Branco, 2005) e O redemoinho do lírico, de Darcy França Denófrio (Petrópolis, Vozes, 2005). Pelo que se vê, pode-se avaliar esta trajetória talvez como a de um sujeito teimoso que, mesmo contra as vicissitudes da vida e da política (AI-1 e AI-5), não arredou pé da sua crença na literatura e no livro e veio ao longo do tempo tentando ser diferente de livro a livro, embora se sabendo o mesmo na sua diferença.

GP - Estudando sua obra, vê-se que você transita desde formas tradicionais do gênero poético até as mais modernistas, vanguardistas, passando pelos formatos populares do cordel, o que o faz condutor de um regionalismo experimentalista, num percurso que levou Assis Brasil a dizer que sua poesia vai além dos -ismos, bebida na tradição nova de uma nova literatura. O que você nos diz dessa multiplicidade de expressões?
 
Creio que você já respondeu por mim, tal a síntese crítica da sua pergunta. É isto mesmo. Comecei aprendendo as formas da poesia tradicional: aprendi a fazer os versos de sete sílabas com a “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias e com os “Meus oito anos”, de Casimiro de Abreu. Vi depois que era o mesmo ritmo das quadrinhas populares e dos folhetos de cordel, o que me deu com o tempo a noção rítmica dos registros escritos e orais. Depois aprendi a fazer versos decassílabos com Álvares de Azevedo e Castro Alves, como na parte final de “O navio negreiro”. Cheguei aos alexandrinos com Bilac e ao verso livre com Mário de Andrade e Manuel Bandeira, sobretudo Bandeira, que continua a me ensinar o jogo rítmico em poemas metrificados e nos de versos livres. Enfim, lendo os poemas e estudando em manuais de metrificação, como o famoso de Bilac e Guimarães Passos, estudando os versos no grego e no latim e em todas as línguas românicas modernas, adquiri a liberdade de expressar a linguagem poética da maneira que mais me agrada. E rio por dentro quando ouço a crítica que me fazem (sem a coragem de escrevê-la) de que sou tradicionalista porque sei metrificar. E o gozado é que a maioria dessa crítica (oral) mostra nos seus escritos que não sabe nada de poética e de retórica. Exemplo: a besteira dos que criticam o soneto, sem saber fazê-lo. A “multiplicidade de expressões” põe à mostra a angústia da busca, as tentativas de se chegar ao melhor, dentro daquele sentido grego do aretê (αρετή), isto é, virtude de se fazer o melhor em tudo que se faz.

GP -Além de poeta, ensaísta e professor universitário, você já realizou estudos acerca da obra de Drummond, de Camões e sobre a Literatura de Goiás, dentre outros. Qual o seu parecer atual acerca da literatura do seu Estado? O que você destacaria no universo literário?

Antes de responder, vou reduplicar a sua afirmativa e informar que, como professor universitário, sou hoje Professor Emérito da PUC do Rio de Janeiro e da Universidade Federal de Goiás, coincidentemente nos meus 50 anos de literatura. Há uns anos atrás a Universidade Federal do Ceará me deu o título de Professor Honoris Causa. Sou feliz por isto. Continuo lecionando e orientando teses na Pós-Graduação da PUC-Rio e do CES (Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora). Meu livro sobre Drummond (Drummond: a estilística da repetição) está hoje na 4ª edição. Foi minha tese de doutoramento. O livro Camões e a poesia brasileira teve a sua 4ª edição em 2001, em Portugal, pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Mostra a repercussão da obra e do nome de Camões na literatura culta e popular em todos os países lusófonos, na Europa, na África e no Brasil. Quanto a A poesia em Goiás, trata-se de um ensaio de historiografia literária, dos meus trinta anos. Procurei mostrar nele todas as manifestações de poesia, escrita e oral, no Estado de Goiás, da segunda metade do século XVIII até a data de sua publicação, em 1964.
Embora não esteja acompanhando bem a intensa publicação do livro goiano, posso afirmar, pelos que recebo e pelos que foram publicados nos últimos anos, que a atividade literária em Goiás é uma das mais ricas do Brasil, com obras importantes na poesia, no conto, no romance e na crônica. Basta acompanhar o catálogo de uma editora como a Kelps para se ter idéia da efervescência cultural dos goianos. Além dos grandes escritores falecidos como Hugo de Carvalho Ramos, Bernardo Elis, José J. Veiga, Afonso Félix de Sousa, José Godoy Garcia, e no mito Cora Coralina, cuja obra é mais louvada que estudada (estou pondo em negrito), há poetas de valor como os que publiquei no nº 7 da revista Poesia para todos, de 2005.

GP - Qual o propósito que levou você a estudar e publicar seus estudos acerca das obras, dentre outros,  de Drummond e de Camões?

Como acabei de dizer, o livro sobre Drummond (de que ele gostava, conforme me disse por escrito) foi minha tese de doutoramento, defendida na PUC do Rio Grande do Sul, em 1969, no ano do AI-5: acabei de defendê-la e recebi a “condecoração”... Com este livro, mostrei que a estilística, que exige um conhecimento maior de linguagem (da gramática, da filologia, da lingüística e da semiologia) é um instrumento imprescindível na análise da linguagem poética, coisa que o estruturalismo nunca conseguiu fazer bem feito. É só ver os inúmeros ensaios que abarrotaram o armazém (diria Drummond) dos livros e das teses de teoria literária no Brasil. Com relação a Camões e a poesia brasileira foi um livro feito para o concurso da IV Centenário de Os Lusíadas, em 1974. O concurso foi no ano anterior, daí a data da primeira edição do meu livro. Em cada uma das três edições que se seguiram acrescentei novo material. Houve uma comissão de cinco membros de professores e estudiosos de literatura; a maior parte dos professores de literatura portuguesa concorreram. Como eu ganhei o primeiro lugar, com prêmio em dinheiro e a publicação, tive imediatamente o ciúme dos velhos e “famosos” professores que começaram a dizer que eu estava invadindo a área deles. Coisa de fazer rir e que me fez um dia mandar uma deles a pqp. Acho que foi, pois nunca mais me procurou.

GP - Você já foi presidente por duas vezes da União Brasileira de Escritores, de Goiás. Dessa experiência, que avaliação você faz hoje da entidade no fomento à atividade do escritor? Afinal, qual o papel do escritor a seu ver?
Todas as UBEs que conheço, com exceção talvez da de São Paulo, têm como única função social distribuir prêmios anuais. Isso tem lá a sua importância, pois serve de emulação ao escritor, velho e novo. Nisso elas se parecem com os PEN Clubes. Mas elas (vale o cacófato) não têm nenhum serviço de proteção ao escritor, de fomento à atividade do escritor, como está na sua pergunta. Direitos autorais, auxílio social e de saúde, suplementos ou páginas literárias nos jornais, contatos editoriais, nada disso está nos objetivos dessas entidades que funcionam (quando funcionam) como salões de reunião sociais e, até, como lugar de elogios mútuos, de prêmios mútuos, etc.
Quanto ao papel do escritor, é claro que é o de escrever. Mas isto não significa, como queria a famigerada esquerda brasileira, que ele tenha a obrigação de denunciar. Numa resposta a Antônio Rezk, no jornal O Escritor, da UBE de São Paulo, quando ganhei o “Juca Pato”, escrevi que:
Desde cedo ouvi dos escritores mais velhos que a literatura era o "reflexo da sociedade". Mas ninguém no Brasil me dizia qual a natureza desse reflexo e como ele se dava: Era um simples espelho, de estrutura ambígua — de uma, duas ou mais faces? "Refletia" direta, indireta ou simbolicamente? Estava dentro ou fora da sociedade? Enfim, questões que cresceram comigo até que fui encontrando pensadores como Alain Badiou ("A literatura não reflete o real, uma vez que é o real desse reflexo"); teóricos da história, como Jacques Le Goff, para quem "O romance [a literatura] não é produzido para descrever a sociedade e ele não a reflete, pois é parte dela. É a parte inquieta e sombria, é seu grito de angústia, seu esforço para solidificá-la"; e grandes poetas como Willian Butler Yeats, para quem "o espelho deve se tornar lâmpada, converter-se em sua própria atividade criadora e emitir a sua luz própria". Com isto, toda uma teoria romântica, de origem platônica, era posta em xeque no seu absolutismo. Ao lado da concepção tradicional, passei a ver a literatura (em todas as suas manifestações) como uma forma especial de Arte, isto é, uma arte literária, de linguagem autotélica, altamente construída, capaz de ir além dos simples condicionamentos políticos e atuar, estética e criticamente, na formação e na transformação da consciência social. Daí porque os governos discricionários têm sempre medo dos escritores.

GP - E a Academia Brasileira de Letras? Quais são suas perspectivas e avaliações acerca da ABL?

Penso que ela é um mito nacional e também o ideal social de todo escritor. Mas não (será que vale o cacófato?) é só do escritor ao pé da letra ou no espírito da letra. O que conta para entrar lá não é ter um livro, mas possuir um renome ou então um amigo influente nos quadros acadêmicos.

GP - Como nos encontramos realizando esta entrevista para um Guia de Poesia que está hospedado como site da Internet, inevitável tocar no assunto. Por isso de que forma você encara a atividade do escritor com o advento da rede? A Internet tem contribuído para difusão do escritor? Tem propiciado a democratização da informação? Tem colaborado com a difusão da sua obra?

Vejo a redecomo mais um veículo de ampliação da cultura e do gosto literário. Inegavelmente, ela contribui para a difusão da obra literária e do escritor. É um meio de democratização da informação, uma vez que a põe à disposição de um maior número de pessoas, independente de sua possibilidade econômica. Faz pouco tempo (18 de setembro) respondi a um inquérito sobre a importância da Internet para a Literatura. Eis o que escrevi:
Na literatura (e possivelmente em todas as artes) o processo de transformação, no sentido do melhor, é inicialmente dialógico, uma tensão entre a visão consagrada  (que predomina) e a que se quer diferente e, para isso, se diz nova, revolucionária. O que resulta dessa "briga" entre o velho e o novo é mesmo um velhonovo ou um novovelho, uma coisa assim  que só com o tempo se deixa distinguir melhor, ganhando às vezes um nome especial no panorama literário. Nesta perspectiva, a pergunta tem de ser, inicialmente, respondida levando-se em consideração os dois lados:
a)  " A internet favoreceu"? Penso que sim: ela põe o conhecimento à disposição de maior número de interessados que, facilmente, pode comparar e avaliar os elementos da Arte Poética em todo o mundo. Se o internatuta é curioso e está picado pelo desejo de saber, ele acaba adquirindo meios de fazer, de experimentar e de criar o seu objeto literário.
b) " A Inrternet aviltou a Arte Literária"?  Olhada como facilidade e pela ignorância dos que não a conhecem bem, pode-se pensar num possivelmente "aviltamento", no sentido de que a arte não gosta do fácil, pois, como no poema de Drummond, o fácil o fóssil.
Uma possível conclusão é que o talento literário, com Internet ou sem ela, sempre saberá  extrair do novo ou do velho o sumo, a soma e, por isso mesmo, a suma de alguma coisa  original.

GP - Por fim, gostaríamos de saber quais os projetos que o poeta e ensaísta Gilberto Mendonça Teles tem por meta realizar?
 
Neste fim de ano estou indo a Europa (conferências em Portugal e na França, onde se lança La syntaxe invisible, antologia de meus poemas em francês). Volto depois do dia 15 de dezembro e já começarei a ultimar um livro sobre poesia, outro sobre romance, uma seleção das minhas entrevistas, outro volume de crítica e ensaio (Contramargem –II). Está para sair a 4ª edição de Os melhores poemas, da Global; uma antologia em italiano, outra em inglês, e acabou de sair uma em búlgaro. Haja trabalho e esperança! Obrigado, meu caro Luiz Alberto Machado.

Quem agradece sou eu, mestre Gilberto. Entrevista concedida com exclusividade para o Guia de Poesia – Projeto SobreSites, em 2006, e incluída no livro A plumagem dos nomes: Gilberto, 50 anos de literatura (Kelps, 2007). Veja mais aqui, aqui e aqui.

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domingo, fevereiro 08, 2015

ARRIETE VILELA


Ancorei em Maceió por volta do segundo semestre de 94, meados de junho, oriundo da vizinha terra pernambucana.

Levado pela mania de pesquisar e conhecer tudo avidamente deslumbrava-me com a beleza exuberante natural que distava do Pontal até Riacho Doce, ao mesmo tempo que ia me esgueirando em conhecer melhor as virtudes altaneiras locais.

Não posso negar que já visitara a cidade outras vezes, às carreiras, e sempre saía daqui sem saber nem mesmo distinguir um beco de qualquer avenida. Aproveitava, então, agora a oportunidade de aqui residir e desfrutar dessa paisagem paradisíaca.

E foi numa dessas investidas que me deparei com o livro "Dos destroços, o resgate", de Arriete Vilela, uma escritora natural da cidade de Marechal Deodoro - a primeira capital de Alagoas -, mestra em Literatura e premiada nacionalmente, reunindo uns contos de infância com gosto de caju, brincadeiras e reminiscências. Coisas telúricas me buliam por dentro e repassava na minha memória engenhos, animais, avós e muita peraltice. Era tudo muito cristalino feito água de brejo que a gente timbunga ao som da passarinhada, ao gosto da mais diversa fruteira, no eflúvio da mais singela alegria. Assim, era tudo transparente na narrativa de coisas vivas e sentimentais.

Reforço que não foi fácil encontrar nas livrarias da cidade livros de novos autores, somente e, ainda, com dificuldade, Jorge de Lima, Graciliano Ramos ou Ledo Ivo, ou, e olhe lá, nem isso nelas. Quando muito, um poema ou uma crônica desses novos autores alagoanos, uma vez por semana, no caderno cultural da Gazeta de Alagoas. Mas eu queria gente mais próxima, gente andando na traquinagem da arte, no aqui agora, coisa difícil ainda hoje, até.

Foi quando inventei, já por volta de 96, de fundar o periódico Nascente - Publicação Lítero-Cultural - tentando preencher esta lacuna. Que pretensão a minha! E lá se foi o número inaugural, dois, três; recebia mais colaborações do Brasil inteiro e até do exterior, menos de Maceió ou Alagoas.

Não enverguei o propósito e parti disposto, lançando edição com uma entrevista que havia feito com Djavan. Pensei, agora escancaro este território. Nada, eu circulava e sonhava numa barraca da orla da Ponta Verde, distribuindo gratuitamente a edição de cinco mil exemplares e nada acontecia. No meio da boêmia tive um estalo: vou entrevistar Arriete Vilela. Cascavilhei os livros dela nas livrarias, nada. Endoidei e não sei como descobri um telefone de contato.

O Nascente já estava, parece, pela edição seis ou sete. Liguei com a maior cara de pau e disse: quero entrevistar Arriete Vilela! Quem é? Expliquei tudo e a pessoa, ao telefone, alegou que transmitiria o recado. Não senti firmeza e esperei.

Uns dias mais, consegui marcar a entrevista; nós nos encontramos e ela, gentilmente, autografou o "Ócio dos anjos ignorados", recém lançado. Saí dali duplamente satisfeito: com a entrevista e com o livro. Preparei a edição e mandei brasa. Deixei uns duzentos exemplares na portaria da residência dela e depois ela me presenteou com uma visita, querendo mais alguns exemplares. Foi aí que interpelei por um poema para a seção "Poético" do nosso tablóide. Ela me entregou o poema "Teus Olhos". Enquanto lia, surgia uma melodia na minha alma, tomando conta, parindo pronta, de vez. A canção crescia, se perdia de mim pelos poros, pelas vísceras, pelos nervos, atravessava o coração pactuado animicamente. Era o poema da alma escrito com a carne do corpo. Era flagrar a oferenda do avesso, o fio da meada, o poliedro do postigo da vida, essa vida que é a volúpia dos tons de Piazzola: "o gozo de sermos campos lavrados por sôfregas ilusões pagãs".

O pacto entre a canção e o poema alinhavava fantasias e avessos: o amor desordenado, a crueza do espinho fincado na carne, a solidão da noite, "o modo licencioso de apossar-me da alma humana".

A partir de então, a literatura de Arriete cresceu-me: "Vadios afetos" e "Tardios Afetos", em 1999, e a quarta edição de "Fantasia e Avesso", agora em 2001. Eu lia como se tivesse o prazer de ouvir a Ária na corda de sol ou a Bachianinha n.º 5, revolvendo a raiz da terra com a menina frente ao mar dos olhos da mãe na boquinha da noite, "sobre o peito de maduros amores mortalmente desinventados". Eu descobria a diferença entre ser e estar alegre no meio das errâncias, quebrando a frieza e afiando a lâmina da poesia, apascentando feras, quitando os débitos do patrimônio sentimental, mergulhando no abismo do anonimato de todas as dores e felicidades, descobrindo os enredos da alma traduzível, livre, como aves de arribação no exercício secreto da descoberta dos estilhaços, exorcizando o duelo da palavra neste mundo insólito como um ácido no corte: a desumanidade embaçando a memória dos que carecem de ilusão.

O seu depoimento com todas as paixões do ser, saindo com o coração pela boca até se entregar na palma da mão: tudo muito cristalino como a menina Arriete, tudo transparente na transcendência imanente da comunhão poética de Arriete. Era, afinal, a revelação da menina comungando sonhos no vórtice do universo.

Por essa e por todas as razões, do sisifismo do menino que fica adulto e volta a ser menino nos dias e nas noites, que alimento essa natural e cristalina maneira de amar Arriete, sempre Arriete Vilela.

ENTREVISTAA alagoana Arriete Vilela é natural da cidade de Marechal Deodoro. Ela é mestra em Literatura Brasileira e professora aposentada da Universidade Federal de Alagoas.

Vários de seus livros publicados já foram premiados e já estão com diversas edições. Dentre as suas obras estão: Para além do avesso da corda (Edufal, 1980); Pequena história da meninice e outras estórias (Edufal, 1981), que recebeu o Prêmio Carlos Paurílio – Grupo Literário Alagoano; Remate (Edufal, 1983); Carlos Moliterno: vida e obra (Edufal, 1985) que foi contemplado com o Prêmio Comendador Tércio Wanderley – Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas e, também, o Prêmio Organização Arnon de Melo – Academia Alagoana de Letras; O poeta popular José Martins dos Santos (Edufal, 1986); Fantasia e avesso (alcançando quatro edições de 1986/2001); Farpa (Sergasa, 1988), que ganhou o Prêmio Romeu Avelar – Academia Alagoana de Letras; A rede do anjo (Gráf. Ed. Gazeta de Alagoas, 1992); Dos destroços, o resgate (em segunda edição, 1994/1999), que recebeu o Prêmio Romeu Avelar – Academia Alagoana de Letras e o Prêmio Malba Tahan – Academia Carioca de Letras e União Brasileira de Escritores / RJ; O ócio dos anjos ignorados (Gráfica Ed. Gazeta de Alagoas, 1995) Prêmio Cecília Meireles – União Brasileira de Escritores – UBE; Tardios afetos (Gráf. Ed. Gazeta de Alagoas, 1999); Vadios afetos (Gráf. Ed. Gazeta de Alagoas, 1999) Prêmio Jorge de Lima  -  Academia Carioca de Letras e União Brasileira de Escritores /  RJ; Artesanias da palavra (Coletânea de poemas com Gonzaga Leão, José Geraldo Marques, Otávio Cabral e Sidney Wanderley - Grafmarques, 2001); Maria Flor etc (com 2 edições em 2002); Grande baú, a infancia (Edufal, 2003); Frêmitos (Grafmarques, 2004); A Palavra sem Âncora (Maceió, AL, 2005); e Lãs ao vento (Gryphus, 2005), que recebeu o Premio Luzia Aizim de Ficção e Poesia de Mulheres, concedido pela União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro no último dia 27 de outubro de 2006, na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro. Além desses e de outros prêmios, ainda foi agraciada com o Mérito Cultural – União Brasileira de Escritores (Rio de Janeiro – 1988), o Prêmio Imprensa – Categoria: Poesia - Fundação Cultural Cidade de Maceió (Prefeitura Municipal de Maceió-1997), o Prêmio Destaque na Literatura 2001 -  Prefeitura Municipal de Maceió, o Alto Mérito Sociocultural - União Brasileira de Escritores/RJ -2002 e a Comenda Nise da Silveira - Governo do Estado de Alagoas – 2005.

Para quem conhece Arriete Vilela, sabe que se trata de uma mulher simpaticíssima e de uma poética merecedora de aplausos.
Esta é a segunda vez que ela me concede uma entrevista. A primeira, por volta de 1996, quando eu editava o Nascente – Publicação Lítero-Cultural que circulou entre 1996/1999.
Desta vez, Arriete Vilela vem com todos os festejos do seu mais recente livro, Lãs ao Vento, sucesso de público e de crítica.
Com vocês, Arriete Vilela!

LAM - Arriete, de início a pergunta de praxe: como e quando foi que ocorreu o seu encontro com a Literatura?

Posso responder de várias maneiras. Por exemplo: que esse meu encontro com a Literatura é uma longa história. Mas aí eu teria de contar alguns fatos, e esse retorno à infância, embora seja prazeroso, hoje, porque elaboro certos conteúdos por meio da palavra, é também difícil, bordado de lembranças que, se já não sangram, ainda traçam no meu coração uns riscos de tristeza, de desamparo afetivo. Esqueçamos, então. 
Mas posso responder assim: nada me levou à Literatura. Não houve um encontro, pois nasci dela. A Literatura está tão entranhada em mim como uma veia poderosa que me irriga a alma de uma seiva hoje imprescindível à minha vida.

LAM - Você nasceu em Marechal Deodoro, a primeira capital e uma cidade histórica de Alagoas. O que ficou ou foi recolhido da cidade na sua Literatura?

Ficaram, sobretudo, as águas. Água de lagoa, água de cacimba, água de pote, água de rio, água de quartinha, água de chuva. 
A água é um elemento pertinente à minha escrita. Há, inclusive, um trabalho da profa. dra. Enaura Quixabeira que mostra bem isso: “Arriete Vilela e o devaneio aquático da palavra”.

LAM - Na condição de professora e mestra em Literatura Brasileira, você se diz privilegiada por ter podido conciliar a Literatura como profissão e vocação. Como foi a descoberta por essa profissão e vocação?

Essa é também uma pergunta que eu poderia responder de várias maneiras. Mário Vargas Llosa fala de uma predisposição que se pode ter, na infância ou no começo da adolescência, “para fantasiar pessoas, situações, casos, mundos diversos do mundo em que se vive, e essa inclinação é o ponto de partida do que mais tarde poderá se chamar vocação literária”. 
Isso ocorreu comigo. Eu costumava criar histórias e contava-as às minhas colegas. Um dia, já adolescente, percebi que minhas histórias se perdiam, eu mesma as esquecia já na outra semana. Resolvi, então, escrevê-las. Publiquei algumas no Fiat, jornalzinho do Colégio de São José, onde eu estudava. Professores e alunas (à época, só meninas estudavam lá) liam e elogiavam. Fui tomando gosto, entende? 
Tomei gosto, igualmente, pela leitura. E descobri que quanto mais eu lia mais facilidade sentia para escrever. Dos 14 aos 18 anos, li clássicos como Machado de Assis, Dostoievski, Flaubert e Eça de Queirós. Um aprendizado e tanto! 
Então, já completamente seduzida pela Literatura, só me restava cursar Letras e, quase inevitavelmente, tornar-me professora de Literatura.

LAM - O que primeiro rebentou para você: a poesia ou a prosa?

A prosa. Mas, quase intuitivamente, a minha escrita sempre foi marcada pela prosa poética.

LAM - Como foi a experiência de publicar “Para além do avesso da corda”?

Foi um livro que me deu a grande alegria de saber que, já àquela época, eu tinha leitores (risos). Fiz uma edição de mil exemplares, e praticamente todos foram adquiridos logo depois do lançamento. Uma maravilha, não? Hoje, possuo apenas um exemplar.

LAM - Fale um pouco do seu livro “Farpa”.

Em “Farpa” há uns contos (“Cirandinha”) que depois reescrevi, ampliei, juntei a outros, inéditos, e publiquei com o título “Dos destroços, o resgate” (sobre o qual há uma dissertação de Mestrado da profa. ms. Cármen Lúcia Dantas). 
Esse livro foi, anos depois, revisto, ampliado e reeditado sob o título “Grande Baú, a infância” (ainda este ano, creio, sairá uma edição em braile, pela Edufal, o que me emociona bastante).

LAM - Em 1992, você publicou “A rede do anjo”. Fale a respeito desse livro.

Passei alguns anos sem escrever poemas. “A rede do anjo” foi gratificante, porque algumas pessoas, cuja opinião levo a sério, se mostraram bem impressionadas com o livro.

LAM - Em “O ócio dos anjos ignorados”, a profª. Dra. Izabel Brandão destacou o prazer do amor e a paixão da palavra, reunindo uma variedade de sentimentos díspares no caldeirão da sua poética. Há, notadamente, muito de infância, errâncias, silêncios nesse livro. Conta pra gente a sua impressão a respeito disso.

Em 1999, “O ócio dos anjos ignorados” (poemas) foi adotado para a seleção do Programa de Pós-Graduação em Letras e Lingüística da UFAL, e isso me deu uma grande alegria, pois esse livro foi lido por pessoas que possuíam um bom referencial teórico. De todos os meus livros, creio ser esse o que tem menos leitores. A profa. dra. Izabel Brandão fundamentou o estudo dos poemas na teoria de Bachelard, e por ser uma obra densa ficou, de certa forma, marcada como difícil. Segundo a crítica, é um dos meus livros mais importantes.

LAM - Já nos “Vadios afetos”, você ao mesmo tempo teve e vai desconstruindo o verso até o alcance de uma excelência notável, a ponto de se deixar derramar como quem se refaz a cada reconstrução. O que acha disso?

Bom, para resumir o que você quis dizer e acrescentar alguma outra coisa que a gente queira, eu diria, como Manoel de Barros, que “o meu processo de escrever é ir desbastando a palavra até os seus murmúrios e ali encaixar o que tenho em mim de desencontros”. É isso.

LAM - Você incursiona na prosa por livros como “Tardios afetos”, “Fantasia e avesso” e “Grande baú, a infância”. Fale da experiência de trabalhar tanto a poesia como a prosa. Fale, inclusive, do seu mais recente livro, o romance “Lãs ao vento”.

Adélia Prado disse: “Às vezes Deus me tira a poesia; olho pedra, vejo pedra mesmo”.
Quando ocorre isso comigo, busco encontrar a poesia onde aparentemente ela não está: nas entrelinhas da vida. Não sei viver/escrever de forma prosaica. Então, nos momentos em que vejo apenas “pedra”, tento metaforizar o real, porque, como disse Cecília Meireles, “a vida só é possível reinventada”. De modo que a minha prosa é sempre poética. O que quero dizer é que prosa e poesia se confundem no meu fazer literário. É só uma questão de forma. 
Em “Fantasia e avesso” e “Lãs ao vento”, o leitor percebe bem essa minha preocupação com a palavra poética. E como informação, devo dizer que “Lãs ao vento” (romance) foi premiado pela União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro. A premiação foi na Academia Brasileira de Letras, no dia 27 de outubro deste ano. Esse é, aliás, o meu quinto prêmio nacional.

LAM - Você é uma autora premiadíssima e já teve muitas de suas obras como tema de pesquisas acadêmicas. Fale desses prêmios e dessas pesquisas efetuadas sobre a sua obra.

Já me antecipei quanto aos prêmios nacionais. Também já recebi muitos prêmios aqui em Alagoas, sobretudo da Academia Alagoana de Letras, mas só até 1996, ano em que tomei posse como acadêmica, na Cadeira nº 6; pertencente ao quadro dos “imortais”, eu já não podia concorrer aos prêmios (exceto no caso de não haver nenhum inscrito, o que não é comum), e passei então a fazer parte das comissões julgadoras. 
Mas quero registrar aqui a Comenda Dra. Nise da Silveira, com que fui agraciada pelo Governo do Estado, em 2005, por ser considerada uma das mulheres alagoanas que mais têm se destacado na área cultural. 
Um outro registro, embora não se trate de premiação, mas de homenagem: em 2002, a biblioteca setorial da Pós-Graduação em Letras da UFAL passou a ser chamada Biblioteca Escritora Arriete Vilela, por iniciativa da profa. dra. Belmira Magalhães.

LAM - Como você vê a poesia hoje? Quem você destaca no fazer poético contemporâneo?

A poesia é eterna. Na Antiguidade Clássica ou na contemporaneidade, a poesia é a seiva da alma humana, a redenção.
Tenho, naturalmente, preferência por alguns poetas, inclusive alagoanos, porque temos, nesta nossa terra, ótimos poetas. Mas prefiro não citar nomes. Além disso, são escolhas muito pessoais, e cabe a cada leitor eleger os seus poetas preferidos.

LAM - Há espaço para a poesia hoje?

Claro. Manoel de Barros diz que “poesia é quando a tarde está competente para as dálias”. E a tarde sempre está competente para o belo. Não só a tarde, aliás. A manhã, a noite, a própria vida.

LAM - Como a gente está conversando para um Guia de Poesia que está disponível na internet, você acha que essa ferramenta da tecnologia tem contribuído para a difusão da poesia? O seu trabalho está sendo divulgado na internet?

Creio que devemos sempre nos atualizar. Não sou uma pessoa com grandes paixões por computador, mas reconheço que é uma excelente ferramenta de trabalho. Acesso sites de literatura com freqüência, embora reconheça que há muita coisa que não vale a pena. 

LAM - Quais os projetos que você tenciona realizar?

O meu projeto é sempre imediato: sentir e vivenciar a poesia sobretudo nas entrelinhas da vida, no cotidiano, nas coisas mais simples. 
O meu projeto literário está sendo construído aos poucos: estou escrevendo um outro romance.

E mais: dou cursos de leitura e produção de textos; sou convidada constantemente para palestras em escolas e faculdades; faço o 4º período de Publicidade e Propaganda. 
Como vê, ocupo muito bem o meu tempo. Tanto, que levei meses para responder essa entrevista. O que, afinal, me proporcionou o prazer de, virtualmente, conversar com um amigo tão querido como você e com os leitores do seu Guia de Poesia.

Obrigado, Arriete.

Texto e entrevista publicados originalmente no Guia de Poesia do Projeto SobreSites aqui e aqui.




quarta-feira, julho 23, 2014

ENTREVISTA GABRIEL PERISSÉ


GABRIEL PERISSÉ – Mestre em Literatura Brasileira pela USP e Doutorando em Educação pela USP, atua como professor universitário em São Paulo (FASM, Unifei, ANHEMBI-MORUMBI e IPEP) e como palestrante em escolas e empresas. Autor dos livros Ler, Pensar e Escrever, O leitor Criativo e Palavras e Origens - considerações etimológicas. Criou a Escola de Escritores, ministra cursos sobre produção de textos e literatura pelo IDEC - Instituto de Desenvolvimento de Educação e Cultura, e tem desenvolvido um intenso trabalho de formação e orientação de pessoas que desejam escrever melhor. Comentarista literário do Telejornal São Paulo, na TV CBI, colabora em vários sites culturais e é editor da revista internacional Videtur-Letras.

Luiz - O que é e a que se destina o Projeto Mosaico?
Gabriel - O Projeto Mosaico tem como idéia motriz orientar pessoas que querem encontrar e desenvolver um estilo próprio na comunicação escrita, em particular no trabalho literário. Como ong literária, o Projeto Mosaico tem procurado ser uma instância cultural que se interessa pela formação do escritor, o que significa pensar na difusão do hábito da leitura, estimular vocações literárias e colaborar para que as editoras brasileiras dêem mais espaço aos autores nacionais. 
Luiz - Temos ciëncia de que esse projeto mantém uma Escola de Escritores. O que trata esta escola e quais os requisitos de participação? 
Gabriel - Pela Escola de Escritores já passaram mais de 1200 pessoas. Organizamos cursos e palestras que atraem pessoas interessadas em escrever melhor e encontrar formas de aperfeiçoar seu estilo. 
Luiz - Que cursos são disponibilizados pela escola e a quem se destina? Vocës também desenvolvem uma oficina pernamente de texto, o que especificamente é desenvolvido nesta oficina? 
Gabriel - Atualmente, concentramos nossos esforços no curso particular virtual. Estamos também anotando os nomes dos interessados em participar da oficina literária, que tem encontros semanais e será retomada no final de 2002. 
Luiz - Vocês avaliam textos de diversos autores, como se processa esta avaliação e como participar dela? 
Gabriel - Criamos um serviço de avaliação de originais. Pessoas formadas pela Escola de Escritores recebem por esse trabalho, que consiste na apresentação de um parecer, no qual se apontam as qualidades e os problemas do texto submetido à avaliação. A pessoa encarregada de dar esclarecimentos a esse respeito é Laura Almeida - realreal@uol.com.br  
Luiz - Que atividades outras vocês desenvolvem literariamente?
Gabriel - Organizamos saraus literários que são divulgados mediante o Serviço Cultural Ler, Pensar e Escrever, distribuído gratuitamente, com indicações de leituras e outras notícias que interessam às pessoas identificadas com o nosso trabalho. Temos também uma revista internacional, a Videtur-Letras (último número), em parceria com a USP, na qual costumamos publicar autores ligados ao Projeto. Já publicamos 7 antologias literárias, divulgando o trabalho de mais de 140 autores inéditos, e temos a intenção de publicar uma nova antologia ainda este ano. 
Luiz - Vocês trabalham a arte de escrever, a vida literária, como são tratadas tais questões para os que buscam auxílio nos seus cursos e oficinas? 
Gabriel - Acabei de publicar um livro — A ARTE DA PALAVRA —, em que apresento um aspecto da nossa metodologia. Lá são discutidas questões referentes à aquisição do estilo, ao plágio criativo, à construção de um leitorado etc. O importante é frisar que o trabalho do escritor é solitário e solidário. Ou seja, boa parte da carreira de um autor se faz na luta pessoal com a palavra, mas há também uma vida literária, que consiste em divulgarmos o que escrevemos e convivermos com outras pessoas que escrevem. 
Luiz - Como é que se desenvolve o serviço cultural "Ler, pensar e escrever"?
Gabriel - As pessoas pedem para ser incluídas em nossa mala direta e recebem, periodicamente, este serviço cultural. O e-mail de Ana Lasevicius, encarregada da nossa mala direta, é analasevi@uol.com.br  
Luiz - Você que também é autor, qual é, a seu ver, o papel do escritor ou do papel do poeta no mundo de hoje? 
Gabriel - O autor deve fazer ver. Daí a necessidade de que o seu texto, ficcional ou ensaístico, poético ou acadêmico, no papel ou na tela do computador tenha a clareza como principal atributo. Escrever é transbordar, mas é preciso transbordar de modo que o leitor não seja afogado. Os leitores esperam sair de cada leitura com a sensação, e com a certeza, de que foram beneficiados generosamente pela inteligência do autor, pela sensibilidade do autor, pela imaginação do autor. 
Luiz - Você lançou um livro "O leitor criativo", como é que se identifica este tipo de leitor? Ou quais as características necessárias para ser um leitor criativo?
Gabriel - O leitor criativo é co-autor daquilo que lê. O leitor criativo exerce uma recepção ativa, de modo que, após a leitura, torna-se um produtor de sentido, um difusor de realidades, realidades observadas na leitura, absorvidas na leitura, mas, sobretudo, recriadas na leitura. Para eu me tornar um leitor criativo necessito aprender a ler nas entrelinhas, a ler o invisível, preenchendo-as com a minha visão de mundo. 
Luiz - Como autor, como você vê o mercado editorial brasileiro?
Gabriel - As editoras continuam lutando para sobreviver e, por isso, vivem em busca de best-sellers. O importante é salientar que as editoras deveriam ser, além de empresas, locais de encontro entre o escritor nacional e o público brasileiro. Já sugeri a várias editoras que incorporassem a idéia da Escola de Escritores, no sentido de se tornarem, não apenas empresas que recusam ou aprovam originais, mais uma referência de formação para pessoas que querem ser escritores. O mercado editorial não pode deixar de ser um mercado, mas poderia ser também uma escola, uma fonte de aprendizado. 
Luiz - A seu ver, existe algum nome que tenha se destacado atualmente na Literatura Brasileira?
Gabriel - O exemplo do poeta Manoel de Barros! Um poeta que se tornou conhecido e finalmente reconhecido porque insistiu, porque não abandonou a poesia, porque não fez concessões ao seu trabalho.
Luiz - A seu ver, quais as perspectivas hoje para um escritor ou poeta iniciante conseguir publicar seu livro?
Gabriel - Continuam difíceis. Mas é uma questão de trabalhar. E de aperfeiçoar-se. Um escritor precisa cultivar um leitorado, e, para tanto, beneficiar seus leitores. Qual é o bem produzido pela literatura? O texto bem escrito provoca um prazer específico. Esse prazer faz bem ao leitor. É um prazer de ordem estética. Ou intelectual. O escritor iniciante, o poeta iniciante precisam descobrir formas de conquistar uma "imensa minoria", ou seja, um público pequeno, mas qualificado e fiel, a partir do qual construirão uma base de leitores. Com o tempo, uma editora poderá reconhecer o trabalho desse escritor e desse poeta, levando em conta (o que é legítimo) a capacidade de venda desse autor em quem investirá. 
Luiz - O que é necessário para que este escritor ou poeta iniciante, a seu ver, deva ter em mente no processo de criação para que consiga desenvolver um trabalho literário de relevância?
Gabriel - Escrever bem é escrever com tudo. João Cabral de Melo Neto falava que escrever é ir ao extremo de si mesmo. Tal entrega é condição sine qua non para escrever. Querer publicar por uma questão de vaidade, por exemplo, é perda de tempo. Escrever é um serviço que prestamos ao leitor. Um serviço em que lhe entregamos idéias, sensações, sofrimentos, esperanças... tudo isso em forma de palavra. Uma palavra com a qual lutamos. Uma luta inglória, mas que sempre traz a sua recompensa. Para quem escreve e para quem lê.
Luiz - Que conselho você daria para esse pessoal que está começando hoje?
Gabriel - Cultivar o amor à linguagem. Escrever é um ato de amor. Desenvolver esse amor, cuidar desse amor. Tal desenvolvimento é impossível sem o conhecimento. Não se pode amar o que não se conhece. O escritor iniciante deve iniciar-se na arte da leitura. A leitura, mais do que um hábito, deve ser um ato de respiração para o escritor. Escolher os seus clássicos pessoais. Escolher e conviver com os seus autores-gurus. E imitá-los de modo criativo. Conviver com as palavras. Brincar com o dicionário. Brincar com a etimologia. Brincar com os sons das palavras. E com os sentidos. Para que escrever faça sentido. 


Entrevista concedida em 2009 pro Guia de Poesia.