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domingo, julho 05, 2020

AS TRELAS DO DORO, O BACHAREL DAS CHAPULETADAS!!!!



AS TRELAS DO DORO – Gentamiga, vem aí o ebook com As Trelas do Doro! Aguardem. Enquanto isso, confira alguns episódios desse desastrado personagem e suas presepadas!




FECAMEPA – VEM AÍ O EBOOK, GENTE!!!!



FECAMEPA – Gentamiga, vem aí o ebook do Fecamepa!!! O que é isso? Ora, a reunião das doidices, mungangas e pantins da Colônia, Império & República de um determinado país picaresco que alguns acham de chamá-lo de todo jeito, mas que no frigir dos ovos, parece mesmo que é um certo Brasil que são muitos e tantos Brasis!!! É o resultado de uma queimada de pestana numa bibliografia extensa e massuda, coisa só de intrometido que não arrumou uma lavagem de roupa melhor para se ocupar. Enquanto a porqueira não sai impresso nem para leitura virtual, dá uma sacada aí na lista de alguns episódios que são tratados no calhamaço desarrazoado!!!




domingo, abril 01, 2018

A ARTE DE CYANE PACHECO


Desde pequena ela começou a olhar o rosto das pessoas, não olhava o todo, mirava os olhos mais tempo do que o nariz, a boca, as orelhas, as sobrancelhas, de alguns, as rugas e toda sorte de expressões. Durante tantas décadas, passou a ver palavras nos lugares de cada traço, hoje lê com tamanha facilidade às pessoas que, sabe quando são de vera ou quando mentem, se são boas ou más, se olham as estrelas ou preferem ler os letreiros das ruas, distingue os que cedem às dores, esmorecem, plantam seus pés nos solos seguros, temem a fome e o frio, criam raízes resistentes que partem suas asas, que os impede de voar. Reconhece a uma grande distância, os que compreendem o tempo e a velocidade, ri com aqueles que vivem suas intensidades. Às vezes, ela fecha os olhos porque consegue ver as duas coisas, em uma só pessoa. Com os olhos cerrados, chora.


revestir de aço cada veia
desviar o rastro, na terra escrito
retirar da boca, o beijo
gravar na carne, a ponta de cada dedo
rasurar a pele do desejo, a lembrança do grito
devolver o tempo, onde a imaculada ideia, persiste
pensamento antigo
sobressalto nuvioso
que vela a liberdade e desiste
temulento olhar cerrado
sem ar, repetido eretismo
descobrir os rios, as pontes, os montes
e a neblina dos poros macios
tarde da manhã, raios e coriscos
noite atrelada ao sono breve dos amantes

a espera reúne estrelas mortas
sempre falta algo macio na dor
quando morro
cessa o músculo
que fecha os olhos de deus


Era apenas um segredo dentro do outro, como sua fotografia, Senhora A. e, ainda assim, parecia uma guerra, uma corrida, uma multidão enfurecida. Mastigar e engolir os sonhos alheios, soltar flores de ferro e morte sobre outras terras, é algo deselegante e desolador, não acha? Não há ponto de chegada para a ambição daqueles indivíduos, é uma fome imensa, desconhecem os dias de silêncio e êxtase que algumas reflexões nos concedem. Farejam os metais, as jóias e a película que os reveste nos dias de festa, seguem as carruagens e se empoam, às pressas, fingindo que não possuem escamas e que suas línguas bífidas são inofensivas. Minha querida Senhora A., porque às vezes, nos sentimos como bebês envoltos no sono gelado da eternidade? Sim, nós que respeitamos seu voo último, enviamos um abraço da cidade murada que habitamos, e de onde quase não saímos.


Nada do oculto daqueles breves dias, da escuridão que fizera seu corpo despencar e o impelira a arremessar na horizontalidade do verso, o peso que antecedera o riso do bom afeto, está distante de si. Fora uma vigília ébria, uma surpresa inaugural saber-se próxima dos territórios da beleza, talvez tenha ouvido algo parecido, jamais palavras de vera. Dias estranhos, repito, exílio e diálogo (sem pressa), sopro e fome, escuros e futebol, páginas e saliva, líquidos olhares. Merecia exatos trinta dias naquele lugar até que o sonho e a vida, no perpétuo movimento, partissem e a lembrassem que seguir é, sobretudo, fechar os olhos na maciez da solidão. Ali, não era um corpo diante do outro, eram invenções de liberdade, quase impossíveis.


O alvoroço da matilha, o buraco cavado no chão, um céu mais sertanejo que iluminado por torres vãs e, um tropeço que a fez descobrir que tinham razão aqueles que insistiam em dizer que faltava um parafuso em seu corpo. "Dizem que ela tem um parafuso a menos", certamente pelo acaso dos vagalumes, pelos dados que giravam e ela se envergonhava sempre que caíam a seu favor. Aprendera a lição, faltava abraçar o cavalo e enlouquecer. Deparou-se com a incomunicabilidade, estava ali, dedos, punho, pernas e pés avariados, quando soube alguns dias depois que teria que parafusar os ossos, que os estilhaços de vidro estavam migrando para se alojarem nos recônditos da dor, postou-se diante das lâminas como se fosse um personagem de Voltaire. Seria esse o parafuso que lhe faltava? Reconheceu novamente o limite, não avançaria em um tipo de leveza que a faz arremesso de abismo. Todos podiam pensar qualquer coisa que quisessem, que ela possuía mais de sete irmãs e, sendo a sétima podia ser uma bruxa, uma borboleta negra, o gato de Poe, a serpente (inexistente) dos textos bíblicos, até mesmo que é uma mulher só, o que parece demasiadamente perigoso à essa altura do caminho. Sobre essa última tessitura de sua existência deve-se à verdade que carrega no olhar, às recusas por razões antigas, ao fato de colecionar palavras, ao singular percurso de liberdade que empreendeu até aqui, pela delicadeza dos gestos, por soprar suas dores ao vento e por ajustar e aproximar tudo o que se reparte e chora. O destemor havido desde os dias primeiros, a fez voar pelas minúsculas frestas dos sonhos, colada às pontas dos dedos. Recolheu às palavras, imagens e ninhos de olhos abertos diante do mar.


Escrever, soltar as borboletas que engoli, faço isso por causa dele. É amor e viagem das grandes. Daqui a pouco nada mais será, apenas as outras páginas escritas, noutro tempo, por outro amor. Então a palavra é grandiosa diante dos jogos estranhos do viver. Guardarei no unguentório, as derradeiras lágrimas. Esperarei passar o período das chuvas e farei um lerão de mandrágoras, penso nisso desde quando ele era menino.

Um dia, ele vai entender o que há do outro lado dos próprios muros. Ou será sempre o menino cuidado (pela mãe simbólica), que não precisará, sequer crescer ou saber que para si, o amor (há muito), foi feito barricada, muro, cerca, gaiola, cela, perda, cápsula, cadeado e, como ele disse, "porto seguro". Desconhece a força das vagas furiosas quando cobram seus domínios, violentas, arrancam as âncoras, afundam as naus, espalham os corpos à deriva. Impiedosamente, a vida o lembrará que aquilo que propus não era apenas a matéria do desejo, também era a matéria do sal, do equilíbrio delicado do viver: aprender a surfar nos devires, não temer a fúria das águas, correr os riscos necessários ao olhar. Agora é com ele e a tábua das marés. Sei que nem isso ele é capaz de saber, arriscar saltos do penhasco e tecer asas durante o vôo. Seus olhos estão vendados, obedece o tempo e o percurso traçados para si. Nunca saberá sobre o frio na barriga, próprio dos que voam.


Hei de montar estratégias de guerra para o salvamento urgente desse amor. Daquilo tudo que foi vivido: o desejo irrealizado de ser e fazer o outro livre, de cantar e dançar, continua suspenso sobre minha cabeça. Móbile, espada, piano ou apenas uma sombra imaginária, numa dor pendular, quase uma hipnose ou lágrima terçã. Um dia nada mais será. Queria que esse dia fosse hoje.

Aquilo que ainda é amor, dói e resiste ao sumiço instântaneo, às fórmulas, mezinhas, conselhos, à desaparição. Porque é tanto, desdobra-se e se quer inocente como uma lâmina, se quer o tempo todo, intenta escapulir por entre palavras estranhas usadas no meu ser-tão. Desse amor, não falo apenas sobre a saudade, imensa, mas sobre as conchas do mar, sobre o umbigo do meu mundo, sem falar na impossibilidade da mentira quando estávamos, um diante do outro, em silêncio. Jamais nos tocamos, nunca mais nos perdemos desde o susto primeiro. Ele consegue, com grande esforço, mentir para si mesmo, ele acreditou na fraqueza, na fome, na gratidão tirana, no pecado e no medo. Eu tentei avisar sobre a impermanência, sobre a liberdade e segurar suas mãos. Sei que a saudade não é só minha. O amor sente-se sozinho.


Nunca soube o que era um irmão. Estava grudada à minha pele, a palavra "única", principalmente pela conjunção de realidades que tocaram mais à liberdade do gesto do que à mentira do lençol tingido, à omissão do hímem rompido, esse século dezoito que aprisiona o meu amor, a estrada perigosa, os cursos das páginas díspares, era, então, estrangeira essa palavra, que desapartava, que me fazia voltar sozinha quando os meus vizinhos viviam apinhados de gente à mesa, podendo brincar e conversar até dormir. Restou-me o pensamento, um peixe de plástico, de letras escritas (como àrvores) nas paredes, buscando as páginas dos livros, sonhando o abrigo mínimo. Às sobras da solidão entrecortada pelos relógios do trabalho, da escola, dos sonhos distintos, dos finais de semana no clube - espaço, que minha casa tornava-se, através da hospitalidade, também era o mais feliz e justo lugar da estranheza. O mais belo jardim, onde um ateu amanhecia digno e cuidadoso, nos cumprimentando. Àquela liberdade, aqueles dias, todos os outros que seguem à coragem de morrer de amor, mortes antigas e recorrentes, são minhas lanternas e minhas bóias. Meu destemor olhando os outros olhos. Todos os outros olhos que brotam do meu solo natal. Eu queria apenas aprender a rir, serena, diante do mar do olhar do meu amor.


Decidi caminhar sozinha por um bairro antigo, cheio de casas, com algumas vilas iguais à vila que ele se hospeda, observar as pessoas comuns, aqueles rostos mirando o vazio da manhã, homens se movimentando como ele se movimenta, mulheres carregando feixes de ilusões nas costas, nos ventres, delirando na estabilidade dos casamentos sustentados por hábitos devotos, teia de desamor e mentira. Eu os vi naquelas expressões ressequidas de imaginação, os acompanhei, apressando os meus passos, fugindo daquela visão triste, desprovida da beleza que me alimenta. Voltei carregada da consciência de ter inventado a grandeza no outro, aquela que ele talvez não tenha ou reconheça em si. Percorri uma grande distância, soltando no caminho, a memória da dor. Eu não pertenço à miudeza daquela vida, da insuportável solidão que o abriga, do abandono da dignidade, por um teto, uma mãe simbólica e um pão. Nunca seria feliz com a escassez do sensível, lugar onde ele fez sua morada.


Eu coloquei nos teus olhos, o assunto que virou ponte, que sobrevoou a sala de estar, que esvaziou os sentidos e às tuas dívidas e culpas. Apenas esqueci de cortar as cordas, trazer as chaves, retirar o lago que miras sem cessar. Esqueci que um dia, eu me distraí e achei que eram de açúcar tuas palavras e teu coração. Foram quase trezentos dias, arremessados ao mar. Cada gesto, olhar, clivagem perversa, cada saudade minúscula, ora perde-se de vista, afunda, afoga-se em si, indica tantas distâncias que busquei esconder em outro vocabulário, mesmo assim, era quase impossível o diálogo. O naufrágio é o que posso te deixar de herança, aquilo que me pedias diariamente.

Uma das coisas mais importantes que aprendi foi a viver tendo a perpétua coragem de incinerar a dor. Também foi preciso saber não ruminar o passado.

Acordar, no luto dos dias, naquele espaço imenso que se alarga veloz, quebrando os ossos, engolindo areia, chorando os olhos que brotam da cegueira do outro. O tempo foi o melhor regalo, a delicadeza abordando a crueldade seca dos gestos, as minhas mãos e todo o meu corpo, mirando o abismo sem graça dos seus dias. Ele não viu o clarão primeiro. Nunca conseguiu ler as palavras escritas na minha carne. Hoje ele não existe mais comigo. Seguirá o tempo do homem comum, que mais parece os segundos que antecedem à morte. Aquilo que o acaso dispôs, ele não entendeu, ele não é um herói.


É preciso inventar, muito cedo, o lugar de criar e de morrer. Fecho os olhos e careço de intimidade com as quinas das paredes e dos móveis, numa configuração precisa, nada de buscar raízes, exceto na atenção com o tempo, com os ângulos do tempo, raízes aéreas..

O lusco-fusco deve-se às razões várias. Não quis acordar os iogues, que sabem ter a mãe por perto e ressonam de dar gosto. Eu estava morta de saudades deles, nunca vi em nenhum humano essa dimensão da alegria do reencontro. Verifiquei as orelhas e detalhes das patas, fiquei surpresa porque estão gordinhos e saudáveis. Proust enfim, está um adulto! O menino Tapacurá, virou corpulento e menos dependente de Celéste, menos "ameninado" e espigado; encontrei um mancando, Branco, segundo Baía, um mártir, juntou-se "com os sonsos do lugar", principalmente com o "desmaiado" Nietzsche, e brigaram com um cão que tem o dobro do tamanho dos dois juntos, mas estão bem. Nasceram dois filhotes que jurei não batizar, sabendo que o adiamento da castração de Lalá daria nisso, são portanto responsabilidade minha. Se eu tivesse que nomina-los, seriam Benjamin e Muirá-Ubi.


Delicadeza não foi ouvir que meu discurso é extenso, sobre minha incurável prolixidade, meus cacoetes proustianos. Delicadeza foi inventar uma linguagem para ele poder se comunicar sem morrer de embaraço.

Há muitos anos, comecei a perceber a importância do olfato nas relações de amor. Não aquelas besteiras do início dos contratos, dos cheiros no cangote, dessa euforia desmedida e perigosa (essas nem de perfume carecem, mas sempre se dão ao exagero). Prestei mesmo atenção a um costume que me acompanha, há pelo menos quatro décadas, quando comecei a namorar nos meados dos anos setenta. Todas às vezes que estava prestes a ir embora de uma história de amor, o meu olfato reagia, aguçado, apressando à partida. Sempre que os amores findavam, eu trocava imediatamente de perfume. Assim, desfilaram nessa passarela da loucura, às mais apropriadas fragancias, para os narizes amados ou desprezados. Como aditivo da saudade, bastava abrir a tampa de um frasco que estávamos ali, eu, Proust, os amores, o esquecimento, os enredos da memória, os meninos queridos. Esse cacoete passava por mim, eu passava por ele e, nunca havia sido tão preciso como nesse último, afinal, nunca usei perfumes doces. Dessa vez, há nove meses, busquei um buquê de rosas, as flores do japonês, com um susto de intimidade, um abotoar de rosas murchas. Pois bem, quando percebi que estava próxima do lugar da partida desse amor imenso, mudei hoje mesmo, troquei imediatamente o que vaporiza meu corpo. Dessa vez, veio o amadeirado, aroma que enfrenta batalhões, canhões e narizes indiferentes, que lança-se ao tempo de mais de um sentido. Os melhores foram aquelas lavandas do inícios dos 80' que vinham com uma coisa que parecia farinha, vendidas nas lojas de produtos naturais. O Rastro, que minha mãe-outra, Venância, guardava os frascos (não gostou porque mudei), foi com a saudade de um garoto que envelheceu. Acho que esse gesto era de grande fidelidade, afinal o que um homem sentia, o outro não devia sentir, uma espécie de lealdade do olfato. Lembro-me dos dias ripongas e dos oleosos patchulis, nessa época não havia muito rigor. Alguns perfumes, que de tanto amor e delicadeza, eu pensava que estava usando lança-perfume rodouro metálica, sempre me foi estranha a palavra "inebriante" no olhar da paixão . Os masculinos que usei nas longas relações, dividindo com os maridos, que coisa besta essa história do olfato, brincando de marco histórico e findo. Sempre foi assim. Usei todos mas, alguns perfumes não me lembro, nunca usei ninguém.


quem sabe de toda a verdade - detrás das paredes, das folhas sangrentas de papel, aquela entre os livros, os risos, o redemunho, o desespero, aquela música vinda de um povo distante, repetição de notas e letras confusas que o fez urrar, fez brotar o poema infinito para dentro de si, ambiente de escuridão e silêncio, quem sabe, esquece a inocência e não pode deslumbrar-se com essa paisagem carbonizada do destino.

era um ser estranho: tinha sobrado uma parte do tronco, os orgãos genitais muito murchos, no lugar do estômago (não queria mais digerir aquela dor) havia colocado um coração imenso, invertera o poema e engolira a baleia. seu rosto magro era feito de ossos. não tinha pele alguma. sim, suas asas presas às costas, eram os sentidos crus: olho, nariz, pele, orelha de onde pendia o essencial.
senti um arrepio quando o vi, ele não podia mais sair dali: estava enterrado em uma montanha de vermes antigos.


Passei a vida inteira com uma espécie de paixão por ele e há dois finais de semana não desgrudamos um do outro, ele fora durante muitos anos, uma marca que carreguei no corpo, dessas que são impressas a fogo, no lombo dos animais, uma cicatriz, um recolhimento. Nesses dias, ele me falou: "O homem não sabe que é um morto falando com outros mortos", até achei que essa frase saíra das escrituras do meu amigo M, mas ele se referia a um velho tio, aquele que perdera a casa para um louco. Por ele e mais ninguém, fui ciumenta, sim, nenhum deles pode negar que eu carregava esse desenho em minha pele, embora, tenham levado consigo uma resposta mal interpretada, algo parecido com essa comiseração cruel onde o silêncio é o reverso da mentira. Reconheço como legítimo, o ciúme que senti quando ele casou-se com outra, quando o Senhor Jorge L. apareceu ao lado da esposa, sorridente, sem me enxergar ao seu lado, vestida de azul como uma tempestade de Turner. Namorar um homem casado? Não, isso não era do meu feitio, restava-me o inevitável, esperar sua morte e revelar este segredo, que sempre fora nosso. Tantas vezes estivemos juntos, viajamos para lugares distantes, ele no meu colo, dormimos nas fazendas, nos aeroportos, nos hotéis, nas tendas, nas praias desertas e em minha própria casa, onde ele guarda suas bengalas favoritas. Criamos aqueles animais, minha letra marcou a testa de barro do G (que ele trouxe para passar uns dias aqui). Todo o resto foi indignação, insurreição solitária, violência contra as mentiras que me fizeram compreender porque nenhum deles chegou até o último degrau da escada, de tão previsíveis que foram, como a maioria dos homens, exceto o Senhor Jorge L, motivo pelo qual pude distinguir o ciúme dos outros maus afetos. Somente quando envelheci é que percebi estar diante de perguntas e respostas, que urgiam negar, afirmar ou escamotear a realidade, diante de algo comum demais para que se parecesse com ele, o Senhor Jorge L. Receber a culpa da loucura de intuir e constatar, isso sim, me deixava furiosa, um animal irrequieto e violento, porque saia do território dos olhos cerrados, meus e do Senhor Jorge L, para o da deslealdade, dos atores escolhidos. Deslealdade denota posse e mesquinharia, transtorno e miudeza do afeto, mas o ciúme nem tanto: abrir a porta às palavras, aos gestos, ao testemunho, às dores de debulhar todos os grãos do querer, olhar detrás do olhar do outro difere de receber o punhal, acertar o alvo, mentir, não isso não é postar-se com dignidade perante à palavra, isso é coisa da perfídia, coisa ancestral. Havia naquele café prestidigitadores que negavam o que eu podia ver, que circunscreviam na areia do hábito, os domínios do embuste, os fossos de aleivosias, os recursos do tédio e da perversão. Quando o Senhor Jorge L morreu, senti uma dor funda em meu corpo: as paredes demolidas do lugar dos nossos encontros, essa utopia travessa que geograficamente nos traiu, nesse caso, mantendo a verdade dos meus olhos e de suas páginas, ser e não ser, dizer e negar, ocultar e revelar, inventar e rir (numa doidice sem fim), foi quando senti pela primeira vez, o ciúme verdadeiro.


Há dias em que o quarto escurece, o abismo investe, as pernas tremem, o túnel engole seu fim, as coisas se despem de sentido, o lápis se recusa a traçar a linha, o olho de ver a luz, os cães emudecem, os outros tornam-se cada vez mais distantes, o fogo desce calcinando vísceras e orgãos, a tempestade afoga a cama, a notícia ruim fica suspensa e invisível diante da imobilidade do corpo, as notícias se consomem antes dos seus sentidos, a chuva não vem e incinera as folhas; a dor se abriga estática desde o princípio dos dias, o sangue acelera seu percurso, a chama pressente o fim, a veia dilata, o nascedouro do contentamento é definitivamente crestado, ocorre a combustão das cartas esquecidas, as cortinas desobedientes se fecham, o sono e os cílios travam uma peleja desigual, as rosas definham, o rebento nega o abraço, as cordas amordaçam o ânimo, as carpideiras gargalham; os rios e as quedas d'água, convulsionados, arrastam os braços desfalecidos, os alvéolos banham-se em colas de açúcar e goma, a morte aproxima-se bafejando a nuca, a lágrima congela e queima a face, o pensamento não distingue dia e noite, a ventania trás presságios estranhos, o sobressalto enlaça o ponteiro dos minutos e eu me assusto com o mínimo alento para seguir.


Ter sido amada, não a furtou de encher os bolsos com pedras e reinventar o estige, onde mergulhou e fechou os olhos para sempre. Não, não era esse o nome do rio, mas pouco importa, a água diluiria sua loucura, quem teria medo? Ela não, decidiu não seguir aturdida, vulnerável ao delírio emaranhando e turvando seu jardim.

Naquele raso abismo, não se demorou. Sabia que seria destinada a caminhar sempre à frente, sangrar os pés, olhar para aquele homem e, perguntar-lhe: "Como seria substituí-la?". Porque substituir uma rainha que conhece a morte e sente-se dessa, tão íntima? Ela viverá até o fim, carregando consigo a resistência de cessar o fôlego, viverá até o fim, sabendo que quase ninguém a viu nua, naquele cômodo inocente (vamos aprender russo).


Diria no meio da floresta escura, sem deixar nos portais do sonho, as esperanças vãs: "Oito anos. Uma vez. Outra". Nada mais carece ser dito.

Um dia, eu me lembrei que morri, e isso não foi um largo caminho, foram imensos desertos tragados, um a um, como uma sina, uma prova daquilo que jamais deixei de ser, garganta aberta à vida, sem o temor de fenecer. Nesse dia, todos os anos e toda a gente, duvidou que fosse verdade, menos eu, não podia duvidar da goela seca de areia, dos risos triturados juntamente com cristais de rocha, da indiferença que me assustou no início, daqueles falsos convivas (seguindo a tradição de outros mais antigos), nesse dia, naquela hora dos doentes, fechei os olhos. O deserto investiu diante de mim, e eu olhei para ele com a certeza de que sempre fora mercador, cada raio daquela areia queria o dinheiro, o poder, a ganância, assim, foi estendida minha estranheza: transformar o sal da lágrima, em água, hidratar o corpo, seguir, dar gargalhadas subversivas diante daquelas montanhas sem fim. Aprender a rir, naquele lugar, me salvou, aproximou-me do fim da vastidão perversa. Hoje, depois de minha última morte, refaço outros lugares, que me levarão às mortes futuras, sem lágrimas ou areia sob o sol. Hoje posso morrer e rir, brincar de viver sem dar às mãos ao mundo que não desejo.


São baças, eu sei, desde sempre, eu a recuso. Fujo dali porque sei que, em um segundo, ela me convenceria a ir para o lugar de outros silêncios, fingindo não haver monstros ainda mais estranhos que esses que vivem colados às minhas dores. Sei que se veste de azul, que tem longos cabelos escuros e me fita com seus olhos de vidros, enquanto digo: Não! Afugento as formigas, derramo água sobre os peixes mortos, posto-me pétrea para escapar às suas canções. Resisto porque irei até o fim, buscando os sentidos diários daquilo que sou. Recuso o gás, a aiora, o filete de sangue, o voo, viro o meu rosto às águas profundas, à bala, à fera. Eu a vejo diariamente, adentrando o mar, não sem antes olhar para trás, convidando-me para virar um muro de coral.

A barbárie, esse tipo de violência que é soco, bala, alienação, bomba, insanidade e religião, aturde e não há como não chorar, não chegar às emoções mais dilacerantes. Não representa o todo, mas torna-o lugar da mira dos olhares transversais. Entendo como se os dizimados ou silenciados, por sintonizarem a autonomia de seus pensamentos e gestos, todos, fossem meus parentes e dos meus amigos, que seguem essa soberania - a liberdade de pensar, criar, e manifestar publicamente o que desejam (ainda). Não, isso não é pontual, é disseminado, o tempo todo, em quase todos os lugares, há episódios mais evidentes e outros mais discretos, nas ruas, nos templos, dentro das casas, à beira-mar, nos vastos campos férteis da imaginação. Sei que é possível abrir a porta da própria casa para o inimigo, dar-lhe alimento e abrigo, e ele, tomado de ódio, algo ancestral e íntimo, ali se instalar para escolher o alvo, para destruir os espelhos, para exercer toda sua paranóia e pequenez, para alardear seu delírio. Há momentos em que o sectarismo extrapola, que atinge mais fundo a carne e o sentido da própria humanidade, salga os rostos e as calçadas, corrói o sonho.


Ainda há mães que choram, pais, mulheres, homens, netos, filhos, amigos que guardam cicatrizes, há tantos que continuam sangrando diante de uma nova leva de sádicos. Os perversos, fardados psicopatas, insanos, estropícios, criaturas que à maneira daqueles que protagonizaram os palcos do horror de cinco décadas atrás, como os mandantes de crimes bárbaros, os torturadores, os meganhas dementes, os dedos-duros alienados que espiavam tudo às suas voltas para trocarem informações por cargos ou moedas, os carros esquisitos estacionados esperando o bote traiçoeiro e covarde contra todos aqueles que buscavam à justiça social, quebraram braços e pernas dos que, destemidamente, seguiram seus próprios sonhos de justiça, mirando o coletivo. Foram não apenas perversos, foram além: gargalharam ao introduzir ratos vivos nas vaginas das mulheres grávidas, fizeram filas para estuprar as bravas moças, jacularam quando viram os corpos convulsionando com eletrodos nas têmporas. Porcos imundos! Precedentes dos que manejam os cacetetes de hoje e, com seus cérebros ínfimos (seguindo a tradição dos cafajestes-mor), com seus comandantes estúpidos, com sua cólera ilimitada, abjetos e desprezíveis, continuam seguindo débeis líderes, capachos do poder, pisam com seus coturnos furiosos sobre os sonhos gentis das pessoas de bem, destroem as diferenças sejam quais forem, matam alvos negros, pobres, negligenciados por um maldito, patriarcal e misógino Estado. Aqueles que arrastaram corpos no asfalto, que “suicidaram” os intrépidos homens (que foram calados sob o jugo das armas e das ideologias do medo), os que preferem construir esgotos públicos onde jogam os miseráveis, todos os normais coniventes, o vizinho que lança um olhar furioso em direção à singularidade dos outros, as carolas que vivem enroscadas em seus rosários e segregam aqueles que julgam seus serviçais (escravos contemporâneos), o imbecil de classe média filhinho-de-papai, os pobres servis, quem lambe o chão para “o doutor” passar, toda essa excrescência, está novamente aí, impune, escondendo os rostos e às panelas, os patos ridículos, os sapos atrozes, os malfazejos e parvos homens comuns, com os olhos vidrados no mal. Os cassetetes continuam atuando, mães continuam apreensivas e vidas seguem desnorteadas desde aqueles dias escuros. Sabendo que o inimigo, estrategicamente, armou-se de uma covardia nunca vista, cada um de nós têm que se desdobrar em atenção, uns com os outros, ficarmos atentos ao monstro que teima em (novamente) emergir. O inimigo segue matando em escala industrial, como se o fascismo e as práticas ditatoriais, estivessem espalhadas em toda parte, invadindo as mínimas frestas dos dias.

Ainda falta muito para clarear o dia, e minha menina não vem, demora para salvar da escuridão da noite, aquela que embrulhou as ilusões, uma a uma e, as deixou no primeiro parque. Enquanto o sol não acena, não cai a lágrima, não chove por dentro, a menina ouve as antigas canções.


Olhou para o alto e faltava-lhe tanto de Deus, rogou ter mais fé, repetiu que o pai era ateu, buscou tocar à lona azul, cheia de furos, aquela mesma que um dia entreviu e descreveu - o céu da sua infância. Sabia que cegaria se o visse, tinha conhecimento de que toda aquela luz, se estenderia por multiversos, que tantas formas de vida surgiriam diante de si. Temia que algumas a assustasse, que outras a fizesse dormir. Imaginou cada segundo da travessia, molhou os dedos nas águas ácidas do rio, fechou os olhos, simulou a dor, era uma dor antiga, um lugar de passagem, uma coragem rubra e serena, um íntimo abandono. Imaginou os objetos, os modos, os riscos de cada erro. Atravessou os túneis, avistou as lâmpadas acesas, viu surgirem fendas no solo, derreterem-se cordilheiras e, com um compasso, esboçou crateras fundas - suas tinas de banhar os olhos. Está pronta para subir à montanha. Haverá gelo maior do que esse que queima seu corpo? Como será? Continuou à noite, todas às noites sem dias. Quem sabe esse tempo está postado nas inclinações do seu próprio sonho? Quem sabe no dia de sua morte?

Antes que o sol nasça, eu me pergunto: quantas mãos se dão, transmutadas de vida e morte, em um contínuo e estranho movimento? Eu não sei, para nenhum dos dois pólos, me falta coragem, estou nessa vertigem cêntrica, em um ponto neutro e perigoso, apenas amanheço. Sinto-me acompanhada na dúvida e no susto, então, segue para você, esse "outro" (quase quem sou), uma musiquinha de ninar (sugestão sua). Nosso amigo, Arthur R. bem nos lembrou: "Eu é o outro", assim me sinto em relação a você, naquilo que nos faz meninos a desembestar.

Naquelas vitrines, diante das quais as bestas salivam, os risos histéricos miram outras bestas, os maus se reúnem para admirar os objetos, as filas circundam os quarteirões para remediar as mentes perversas, o espetáculo deprimente acontece. Ali, ela avistou instrumentos estranhos, rudimentos que resultam nas medievas dores. Naqueles prados, porque tantos bárbaros? Há homens afáveis que ali vivem, esses se indignam com a cólera dos seus vizinhos, com aqueles que querem cegar os padres, estuprar as moças, atingir mortalmente os jovens, alvejar os transportes, amedrontar as crianças e desonrar as viúvas. O mundo tornou-se um lodaçal sem fim, o ódio move cada um daqueles doentes, daqueles perversos, dos estúpidos homens que perseguem, apedrejam, atiram e esbravejam suas pragas íntimas, contra aqueles mesmos que pretendem levar alimento às bocas famintas. O que fazer para cessá-los nessa hora?


CYANE PACHECO – Reunião de textos, fotos & expressões da artista plástica & visual Cyane Pacheco. Veja mais  aquiaqui, aqui, aqui aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. aqui, aqui e aqui.


quarta-feira, março 21, 2018

IV CONGRESSO INTERNACIONAL DE LITERATURA E ECOCRÍTICA

IV CONGRESSO INTERNACIONAL DE LITERATURA E ECOCRÍTICA – Entre os dias 04 a 07 de junho de 2018, na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), acontecerá o IV Congresso Internacional de Literatura e Ecocrítica (CILE), iniciativa que reunirá pesquisadores nacionais e estrangeiros. O evento tem por escopo a proposta de expansão da educação ambiental em todos os níveis pelo viés interdisciplinar, bem como a II Conferência Bienal da ASLE-Brasil, a ser realizada simultaneamente. A partir do eixo temático A morte da natureza - narrativas das águas e das florestas no Antropoceno, o congresso prossegue como um espaço de diálogos acadêmicos por meio da divulgação de uma relação mais ecocêntrica entre os seres humanos e não humanos e a esperada análise crítica sobre o problema da destruição da natureza e suas consequências para a vida do planeta. Veja mais detalhes aqui.



terça-feira, março 20, 2018

IV COLOQUIO INTERNACIONAL DE LITERATURA E GÊNERO

IV COLOQUIO INTERNACIONAL DE LITERATURA E GÊNERO – Acontecerá entre os dias 5 a 7 de setembro de 2018, na Universidade Estadual do Piauí, em Teresina – Piauí, o IV Coloquio Internacional de Literatura e Gênero: Descolonização, gênero, corporeidade e resistência, e o I Coloquio Nacional de Imprensa Feminina, homenageando escritoras latino-americanas. O evento conta com conferencias, mesas redondas, mesa-plenárias, simpósios, pôsteres, sessões de comunicações livres, minicursos, workshops, lançamento de livros, exposições, feira de artesanato, mostra de filmes latino-americanos, entre outros, numa realização do Núcleo de Literatura e Gênero (NELG) e Núcleo de Estudos Literários Piauiense (NELIPI). Maiores informações aqui.

segunda-feira, junho 15, 2015

ENTREVISTA LEILA MICCOLIS




LEILA MICCOLIS - Leila Miccolis é um amor de gente. Ela nasceu no Rio de Janeiro, é editora, professora de roteiro de televisão, promotora cultural e artista performática.

Já publicou mais de 30 livros, dentre eles: Em perfeito mau estado, Editora Achiamé, Rio de Janeiro, 1987; Do poder ao poder - alternativas na poesia e no jornalismo nos anos 60, Editora Tchê, Rio Grande do Sul, 1987; O bom filho a casa torra, editoras Edicon e  Blocos, São Paulo e Rio, 1992; Achadas e Perdidas e Sangue cenográfico, Editora Blocos, Rio de Janeiro, 1997.

Tem obras publicadas na França, México, Colômbia, África, Estados Unidos e Portugal.

Leila é também teatróloga, roteirista de cinema e escritora de novelas de televisão, entre elas: “Kananga do Japão”, “Barriga de Aluguel” e “Mandacaru”.

Já elaborou verbetes para a “Enciclopédia de Literatura Brasileira” (MEC/OLAC) e também publicou: “Catálogo da Imprensa Alternativa”, 1986, pela RioArte/Prefeitª do RJ.

Publicada na Revista Poesia Sempre nº 7 (Biblioteca Nacional/MEC), consta do Banco de Dados Informatizados do Banco Itaú - Módulo Literatura Brasileira, Setor Poesia (categoria: “Tendências Contemporâneas”) e dos “Cadernos Poesia Brasileira” - vol. 4, “Poesia Contemporânea”, editado pela mesma instituição, 1997.

Seu livro reunindo sua obra quase completa, “Sangue Cenográfico” (Ed. Blocos, 1997) tem prefácios de Heloísa Buarque de Hollanda, Nélida Piñon, Gilberto Mendonça Teles, Ignácio de Loyolla Brandão.

E mais: sua obra é citada e analisada por escritores como: Affonso Romano de Sant’Anna (Ed. Vozes/1978), Glauco Mattoso (Ed. Brasiliense/1981),  Jair Ferreira dos Santos (idem/1986), Assis Brasil (Ed. Imago/FBN/UMC, 1998). Co-edita com Urhacy Faustino Blocos Online.

Desde da década de 70 que a gente mantém contato. Ou seja, desde as publicações da Trote, lembro-me bem. E também pela troca de materiais que publicávamos.

Da minha parte, primeiro, pelos trabalhos alternativos que desenvolvi, com amigos, eu ainda adolescente, através da “Nova Caiana”, revistinha editada pelas “Noites da Cultura Palmarense”, na década de 70. Depois com a revista A Região, editada na década de 80, onde além de ser membro do conselho editorial, eu editava o encarte “Vozes de Uma”, destinado à publicação de poesias e que findou nas Edições Bagaço de hoje; e, por fim, pela edição do tablóide “Nascente – Publicação Lítero-Cultural”, que editei na década de 90.

Além disso, durante esses anos todos, eu ficava extremamente feliz cada vez que recebia um aerograma com um alô e uma poesia dela.

Por isso digo e reitero: Leila é um amor de gente mesmo!

Pois bem, havia tempo que eu queria fazer uma entrevista com Leila. E isso foi logo quando ela me inseriu no rol do Muita Poesia Brasileira. Depois quando ela me convidou para escrever uma crônica quinzenal pro Blocos. Escrevi e, por causa da minha louca agenda, passei a enviar de forma não regular. Ou seja, uma aqui; outra daqui um ano. Mas não é ingratidão minha, é briga por sobrevivência, luta por conquistas.

Agora quero me redimir. E como já disse que Leila é um amor de gente, vejam vocês esta entrevista que ela me concedeu.

Com vocês, Leila Míccolis.

LAM - Leila, este ano você está comemorando 40 anos de poesia. Mas, de início, eu quero fazer a pergunta de praxe: como foi que você chegou na poesia, na arte? Como se deu a comunhão artística?

Meus primeiros versinhos, aos três anos de idade, foram trovas para meu gato e, pasme, para Jesus – sempre tive muita ligação com Ele... Minha mãe me incentivou a lidar com a poesia desde sempre. Devo a ela este incentivo e esse caminho. Ela também me estimulava a participar de muitos concursos literários e, tendo vencido vários, tive mais encorajamento para prosseguir; mas nunca pensei em escrever, como profissão. Fui advogada por alguns anos, só que, como costumo dizer, a literatura é um senhor muito possessivo, acabei por abandonar a advocacia e eis-me serva da escrita: “meu bem, meu mal”...

LAM - Como disse anteriormente, você comemora 40 anos de poesia, tudo começa com "Gaveta da Solidão" em 1965, num é? Fala um pouco dessa estrada toda pela poesia, os prêmios, as publicações, enfim, o seu trajeto poético.

Gaveta é meu primeiro livro (a capa é feita por minha mãe), considero-o infanto-juvenil (risos)... mas nele já estava o germe do que eu desenvolveria com o correr do tempo.

INUTILIDADE

Voltaste.
Nem precisava.

Os elementos mais característicos de minha poesia já estão presentes nesse poema, por exemplo: o minimalismo, a crítica e a visão crítica de uma lírica insubordinada e por vezes até agressiva – como na primeira fase da minha obra.
Gaveta, então, tem o mérito de ter sido o primeiro passo, que é sempre difícil, os chineses costumam dizer que às vezes o primeiro passo equivale a mais da metade do caminho.
No dia do lançamento, o poeta Murilo Araújo falou sobre o livro; hoje, me é motivo de orgulho; mas naquela época eu nem sabia o que era o Modernismo. Fazia arte pela arte.
Por “castigo”, passei muito tempo depois exorcizando o livro... risos.
Agora, eu o vejo uma espécie de registro do quanto avancei: do romantismo piegas à consciência crítica.
Depois seguiram-se: Impróprio para Menores de 18 amores, com Franklin Jorge, em 76, Silêncio Relativo (77) Respeitável Público (80), Maus Antecedentes, com o saudoso Paulo Veras (81), MPB (82), Mercado de Escravas, com Glória Perez (84).
A partir daí, vieram os livros da segunda fase: Em perfeito Mau Estado, De 4, com Marçal Aquino, Glória Perez e Ona Gaia, Só se for a dois, com Urhacy Faustino, O bom filho a casa torra, Olívia, a que não era palito, Estalos, com Urhacy Faustino (haicais) e Sangue Cenográfico – com prefácios de Ignácio de Loyola Brandão, Heloísa Buarque de Holanda, Gilberto Mendonça Teles e Nélida Piñon.
Por último, em 1999, “Sob o Céu de Maricá” (edição limitadíssima que pretendo transformar em livro virtual).
No final do ano passado participei do Projeto Celuler – livros de poesia através de telefonia celular.
Esses são meus livros solos ou semi-solos de poesia.
Há as antologias, livros de prosa, etc. etc. etc. A produção é vasta. Urha também já está com seis livros de poesias, alguns infanto-juvenis, inclusive O Pulo do Sapo, com Cláudia Pacce (Ed. Ática), um de romance que eu acho notável: “Colibri deflora o sexo – sexo, amor e amizade pela Internet”, a primeira obra na época a falar dos chats, inclusive utilizando a própria linguagem das salas de conversação; e atualmente está terminando um novo romance, sobre vampiros, bem diferente das obras tradicionais do gênero.

LAM - Você transita por vários formatos poéticos e já atravessou todo tipo de alternativa poética ao longo dos anos, sendo elogiada pela crítica especializada, enfim, como é que se dá o fazer poético para você?

Sou bem cria da Geração Poética de 70: utilizo o material do cotidiano, do dia a dia, seja através de notícia de rádio, uma frase ouvida na televisão ou em uma música, e até, atos falhos ou erros de digitação, pego tudo, o que mostra que fico antenada o tempo inteiro, aberta ao que acontece a minha volta, e, lógico, dentro de mim também.
Sou um laboratório de criatividade ambulante... J O tratamento bem-humorado é para o leitor segurar o impacto da crítica ferrenha, do soco na boca do estômago. Ele lê, sorri, mas quando acaba se toca: do que é que estou rindo? Na verdade, o público entende perfeitamente o morde e sopra do poema...
Minha formação foi parnasiana e dela conservo a força da rima – havendo mais de cem espécies de rimas, a opção do material de escolha então é farta... No entanto, creio ter conseguido o que Mário de Andrade falava: ritmo individual e ritmo socializante, não só através dos temas que abordo, mas, também, pelo modo como o faço, com rupturas ásperas, quebras inesperadas e cortes abruptos.
Pessoalmente, gosto de todos os tipos de poesia. Acho notável esta imensa gama de modalidades poéticas, sinal da riqueza da poesia brasileira, que só se engrandece com essa polifonia de vozes.
Pena que as obras – principalmente didáticas – parem na Geração 45. Poucas são as que vão além, e, quando o fazem, apenas alinham uma relação de nomes, sem se deter nas tendências pós-modernas em que determinados autores se agrupam.
Quanto à poesia experimental então, esta nunca é sequer mencionada. Na verdade há um enorme desconhecimento da poesia brasileira a partir do Modernismo, como se nada mais tivesse valido a pena, a partir dele – o que não é verdade. Nunca se fez tanta poesia como na contemporaneidade – basta compararmos o número de poetas de que se tem notícia até o final do século XIX com o atual (divulgo em Blocos a minha relação já com mais de 7.000 nomes, tendo ainda outro tanto de poetas para acrescentar). Não vejo este dado como negativo: só se aprende escrever, escrevendo. Negativa é esta indiferença pelo que está se fazendo hoje. Afinal, o passado já se encontra registrado; precisamos portanto, resgatar é o presente.
Se Mário não escrevesse sobre as tensões da época, muito do movimento se teria perdido. Ou nos empenhamos em testemunhar a contemporaneidade, ou ela continuará vaga e ironicamente longínqua e inacessível.

LAM - Você e Urhacy Faustino comandam o Blocos. Conta pra gente como se desenvolve todo o trabalho do portal, como nasceu e quais as perspectivas?

Com muito afinco, dedicação e, quase sempre, entrando pelas horas de sono e pelo dinheiro da sobrevivência. Um site, assim como um jornal alternativo, é um importante veículo de resistência cultural, de trabalho em conjunto (embora muita gente não veja por este ângulo). Então, não tenho em mente apenas fazer amigos, embora isto seja primordial, se não o ato de escrever se esvazia. Porém quem abandonou tudo para aventurar-se a escrever em um país como o nosso, não pode achar que um portal seja apenas um “point” de encontro...
Dá um trabalhão danado administrar quase 18.000 páginas de um portal que cresce sempre mais (já temos 6.000 acessos diários); e o desgaste não é só físico; passa também pelo contato diário com uma multidão muito heterogênea de pessoas, das mais humildes às mais vaidosas – estes bastidores (assim como o das novelas) são um capítulo à parte, um exercício muito difícil, às vezes. E, sendo escrever o meu trabalho, há uma confusão generalizada: poucos param para pensar qual é o limite em que o lazer invade a profissão.
Passamos sete anos mantendo Blocos, nem sabemos como... Os gastos são muitos. Agora conseguimos, através de Mauro Salles, dois patrocinadores: Bradesco e Brasil Telecom.
Também estamos com um Conselho Consultor de primeira – incluindo o atual Secretário da Cultura do Rio de Janeiro, Arnaldo Niskier, Affonso Romano, Lêdo Ivo, Nejar, Carlos Heitor Cony, Glauco Mattoso, entre outros – presenças que, por si só, já respaldam nossas atividades, além dos nossos colunistas maravilhosos, e de um pessoal que está surgindo agora, muito interessante.
Tem gente escrevendo MUITO. E é um privilégio lidar com este material, tentar de alguma forma apresentá-lo ao público, interagir com esses escritores que surgem de todas as partes. Esta interatividade é de grande valor para quem, como eu, se interessa pelas propostas estéticas atuais.

LAM - Você reúne no portal uma infinidade de poetas dos mais diversos gêneros, isso tudo no Muita Poesia Brasileira - MPB, que, salvo engano, é o título de um livro que você publicou. Fala dessa reunião, qual o objetivo dessa reunião?

É, o MPB vem do título de um dos meus livros: MPB – Muita Poesia Brasileira, que foi publicado pela Trote, uma editora que tive antes da nossa Blocos (a Blocos no momento está paralisada, porque estamos reestruturando-a, em outros moldes).
Por extensão, coloquei o Muita Poesia Brasileira no portal, não só porque gosto muito do título como também pela conotação da sigla, que chama atenção para o entrecruzamento poético com outras atividades artísticas, principalmente com a música – e a Geração Poética de 70 teve muita ligação com as letras de música.
Nesta nova fase de Blocos, porém, o título MPB foi substituído por outro: Enciclopédia Virtual Blocos de Poesia Contemporânea, que dá uma dimensão mais abrangente do que pretendemos nessa área do portal.

LAM - Você também desenvolve um trabalho de pesquisa que resultou no Catálogo da Imprensa Alternativa. Fala um pouco a respeito dessa pesquisa, os objetivos e resultados até então.

A RioArte - Prefeitura do Rio de Janeiro – publicou o livro em 1986, e agora deve sair a edição revista e atualizada pela Prefeitura de Imperatriz.
Neste novo projeto, Edmilson Sanchez ficou responsável pelos jornais maranhenses e eu pelos dos demais Estados.
Como fonte de pesquisa baseei-me, no meu acervo pessoal, com publicações de todo o Brasil, até 1999, e o Edmilson também utilizou os jornais do acervo particular dele.

LAM - Você está fazendo mestrado em Teoria da Literatura. O que você tenciona com este estudo acadêmico?

Entender cada vez mais a linguagem, em sentido amplo, aprofundar-me nos estudos lingüísticos, literários, e, também mergulhar mais profundamente nos mecanismos do agir da poesia (através da Poética e da História das Idéias, principalmente). Aliás, todas as minhas atividades paralelas são ramificação do tronco em cuja seiva corre o amor ao meu ofício: o portal, as pesquisas literaturas, as leituras, as opiniões críticas, as análises de texto, o meu show “A Pequena Notável”, a editora, as conferências, os debates, a minha luta pela profissionalização e pela conscientização da classe, tudo é inerente à enorme paixão que dedico ao ato de escrever.
Como já disse em um dos meus livros da década de 80, não sei ser feliz sem caneta e papel por perto (ressalva: na época ainda não tinha computador...).

LAM - Você milita na televisão, com trabalhos em novelas e seriados na televisão brasileira. Como é trabalhar na televisão?

Bem, em televisão não se milita... com tanto autor atualmente, no máximo aquartela-se... J
Brincadeiras à parte, eu gosto muito de escrever roteiros, e os que criamos para a televisão dão mais retorno, porque em um país pouco alfabetizado como o nosso, portanto sem hábito de leitura, a literatura oral é muito melhor aceita, é muito mais entendida e, portanto, prestigiada.
Como eu acho que todos os caminhos da palavra podem levar à literatura, desde que se tenha esta prioridade quando escrevemos, não tenho nenhum tipo de preconceito com qualquer gênero – do pornô ao erudito, passando pelas histórias em quadrinho.
Em todas as áreas há sempre pessoas que pensam que a crítica válida é apenas a destrutiva: daí, existem poetas que acham que traí a poesia escrevendo novelas, e, naturalmente, dramaturgos que consideram uma grande perda de tempo e de fôlego eu escrever poesia...
A situação do intelectual brasileiro, principalmente se ele quer viver do que escreve, é um constante pisar de ovos. No entanto, não temo quebrar alguns, porque, afinal, viver é sempre um risco. E não há como agradar a todos. Ainda bem.

LAM - Além da televisão, você trabalha com cinema, rádio e teatro. Fala dessas experiências, como concilia tantas atividades?

Quem vive profissionalmente de literatura, aprende rápido... risos...
Ser polígrafa não é mérito, é questão de sobrevivência.
Para o rádio eu só fiz um seriado radiofônico, mas nunca tentei vendê-lo, ficou só mesmo como teste experimental, que, inclusive gravamos (Tanussi Cardoso, Eugênia Loretti, Carmen Moreno e eu) com efeitos sonoros, inclusive. Foi muito divertido.
Gosto muito de escrever peças para teatro - tenho algumas encenadas, inclusive uma feita para a Ana Rosa, que a produziu no final de 1993, no Rio: "Se o casamento vai mal... pimenta, alquimia e sal".
A peça mais recente que escrevi estreou em São Paulo, Poesia Br, direção do Jo Martin – e ela me deu duas grandes alegrias: a primeira a de colocar a poesia como tema central de um texto teatral (em geral o que vemos é a poesia transposta para a cena), e a segunda a de ter tido a participação do Urha, que é formado em Artes Cênicas, e da Ana Míccolis, minha prima harpista. Foi um trabalho incrível, inesquecível.
Para cinema, meu único trabalho solo, foi a roteirização final do longa-metragem Terra Prometida.
Sempre trabalho em parceria com João Luiz Pacheco Mendes, um grande profissional da área – agora está encarregado da parte de teatro de Blocos On Line, inclusive – e temos inclusive dois curtas baseados em poemas meus.
Trabalhar com uma equipe de se gosta é um prazer raro e precioso.

LAM - Outra coisa, Leila: você trabalha, realiza cursos e muitas atividades na Internet. Pergunto: a Internet tem contribuído para o desenvolvimento dos seus trabalhos? Como é trabalhar com a Internet?

Eu e a Internet foi paixão à primeira vista. Antes mesmo de eu entrar na rede, em 1996, eu já sabia que gostaria dela. Tipo: “nunca te vi, sempre te amei”... Já sonhava com ela, antes de sermos apresentadas, pessoalmente. E ela sempre excede minhas expectativas.
Atualmente, tornou-se da família, tenho inclusive uma série de problemas, a “Fase Micreira”, dedicada a ela.
Sempre me impressiona muito poder falar com países de cultura tão diferente, em browsers simultâneos – esse abrir janelas para o mundo em conjunto me mobiliza profundamente; além disso, todo dia descubro um site que me acrescenta, uma pesquisa que me interessa, um artigo que me abre novas perspectivas, um jogo que me absorve, uma gif que me encanta, uma palavra que me marca e sobre a qual reflito, um contato que me surpreende. Sem falar dos reencontros pessoais que ela me proporciona: amigos que há anos eu não via e que estão morando inclusive fora do Brasil... Companheiros meus da imprensa alternativa ou poetas que voltam a manter contato (como você inclusive, Luiz Alberto)... é muita gente, e é muita alegria efetiva e afetiva quando isto ocorre.
A Internet para mim consegue ser trabalho (os capítulos de Mandacaru chegavam à Manchete via web) e diversão; nela delicio-me com as conversas e com as receitas vegetarianas, com as viagens (adoro os museus europeus), as descobertas, os fóruns, os debates, notícias, comunicados, informações, os jornais online, enfim, com idéias e emoções em movimento caleidoscópico ininterrupto.

LAM - Mais especificamente, a Internet, a seu ver, tem contribuído para a difusão da poesia, da literatura, da arte, enfim?

É, ela cumpre esse papel também, mas, neste particular, preocupo-me muito com a questão dos direitos autorais. Adoro o virtual, mas também adoro o livro impresso, e penso que um deve complementar e não substituir o outro. A divulgação totalmente desgovernada que em geral se faz na rede, induz-me pensar se ela surte na prática os efeitos desejados. É que já foi o tempo em que um escritor apenas escrevia. Escrever é a ponta de um iceberg, como dizia Torquato Neto. Ou, lembrando Barthes, “o saber literário tem muitos saberes”, inclusive entre eles estão, hoje em dia, lidar com a Internet, com o mercado literário, com a política editorial, com as correntes divergentes, com os paparazzos, com as estratégicas publicitárias e com as estratégias de marketing. Por quê não? O impasse é que a maioria dos autores, principalmente os poetas, ainda têm o sonho romântico de que bastam aparecer para que alguém, em meio de milhares de outros bons autores, o descubra, o escolha, e transforme sua obra em best-seller de fama internacional. Nesta vã espera, cruzam os braços e ficam esperando que caia do céu reconhecimento, prestígio, a fama e dinheiro, muito desapontados e frustrados quando nada disso acontece. Este individualismo e essa vaidade desconectam os escritores da realidade mercadológica. Pensam apenas em aparecer nas vitrines (que é como se referem à Internet, comumente), esquecidos de que as vitrines estão sempre ligadas a uma loja a um comércio, cujas leis de oferta e procura eles precisam entender, mesmo que minimamente, até para poderem enfrentar a competitividade a cada dia mais acirrada.

LAM - Quais os projetos que você está desenvolvendo e quais as perspectivas de realizá-los?

São muitos e bem variados, sempre trabalho em vários deles ao mesmo tempo – além de evitar cansaço, quando estou exaurida de um pego um outro, essa alternância também proporciona um distanciamento crítico muito produtivo.
Há alguns projetos que não param, como a ampliação do portal, meus cursos online de teledramaturgia e a dissertação de Mestrado, para daqui a alguns meses; outros já possuem compasso mais lento como meus roteiros televisivos, as peças de teatro, e, como não poderia deixar de ser, a publicação de vários  livros - não só poéticos e ficcionais, mas teóricos também.
Para quem escreve, as perspectivas de realização são sempre bem mais complexas do que a elaboração do texto, uma vez que não se fica muito à vontade dentro da área executiva; porém, quando os projetos estão prontos, só resta ao escritor acumular as funções de showman ou de businesswoman, e corajosamente ir à luta...

Para conhecer mais Leila Míccolis e o seu trabalho, é só acessar: http://www.blocosonline.com.br/ ou enviar um mail para blocos@blocosonline.com.br.

PS: entrevista concedida ao Guia de Poesia. Veja mais aqui e aqui.