domingo, abril 01, 2018

A ARTE DE CYANE PACHECO


Desde pequena ela começou a olhar o rosto das pessoas, não olhava o todo, mirava os olhos mais tempo do que o nariz, a boca, as orelhas, as sobrancelhas, de alguns, as rugas e toda sorte de expressões. Durante tantas décadas, passou a ver palavras nos lugares de cada traço, hoje lê com tamanha facilidade às pessoas que, sabe quando são de vera ou quando mentem, se são boas ou más, se olham as estrelas ou preferem ler os letreiros das ruas, distingue os que cedem às dores, esmorecem, plantam seus pés nos solos seguros, temem a fome e o frio, criam raízes resistentes que partem suas asas, que os impede de voar. Reconhece a uma grande distância, os que compreendem o tempo e a velocidade, ri com aqueles que vivem suas intensidades. Às vezes, ela fecha os olhos porque consegue ver as duas coisas, em uma só pessoa. Com os olhos cerrados, chora.


revestir de aço cada veia
desviar o rastro, na terra escrito
retirar da boca, o beijo
gravar na carne, a ponta de cada dedo
rasurar a pele do desejo, a lembrança do grito
devolver o tempo, onde a imaculada ideia, persiste
pensamento antigo
sobressalto nuvioso
que vela a liberdade e desiste
temulento olhar cerrado
sem ar, repetido eretismo
descobrir os rios, as pontes, os montes
e a neblina dos poros macios
tarde da manhã, raios e coriscos
noite atrelada ao sono breve dos amantes

a espera reúne estrelas mortas
sempre falta algo macio na dor
quando morro
cessa o músculo
que fecha os olhos de deus


Era apenas um segredo dentro do outro, como sua fotografia, Senhora A. e, ainda assim, parecia uma guerra, uma corrida, uma multidão enfurecida. Mastigar e engolir os sonhos alheios, soltar flores de ferro e morte sobre outras terras, é algo deselegante e desolador, não acha? Não há ponto de chegada para a ambição daqueles indivíduos, é uma fome imensa, desconhecem os dias de silêncio e êxtase que algumas reflexões nos concedem. Farejam os metais, as jóias e a película que os reveste nos dias de festa, seguem as carruagens e se empoam, às pressas, fingindo que não possuem escamas e que suas línguas bífidas são inofensivas. Minha querida Senhora A., porque às vezes, nos sentimos como bebês envoltos no sono gelado da eternidade? Sim, nós que respeitamos seu voo último, enviamos um abraço da cidade murada que habitamos, e de onde quase não saímos.


Nada do oculto daqueles breves dias, da escuridão que fizera seu corpo despencar e o impelira a arremessar na horizontalidade do verso, o peso que antecedera o riso do bom afeto, está distante de si. Fora uma vigília ébria, uma surpresa inaugural saber-se próxima dos territórios da beleza, talvez tenha ouvido algo parecido, jamais palavras de vera. Dias estranhos, repito, exílio e diálogo (sem pressa), sopro e fome, escuros e futebol, páginas e saliva, líquidos olhares. Merecia exatos trinta dias naquele lugar até que o sonho e a vida, no perpétuo movimento, partissem e a lembrassem que seguir é, sobretudo, fechar os olhos na maciez da solidão. Ali, não era um corpo diante do outro, eram invenções de liberdade, quase impossíveis.


O alvoroço da matilha, o buraco cavado no chão, um céu mais sertanejo que iluminado por torres vãs e, um tropeço que a fez descobrir que tinham razão aqueles que insistiam em dizer que faltava um parafuso em seu corpo. "Dizem que ela tem um parafuso a menos", certamente pelo acaso dos vagalumes, pelos dados que giravam e ela se envergonhava sempre que caíam a seu favor. Aprendera a lição, faltava abraçar o cavalo e enlouquecer. Deparou-se com a incomunicabilidade, estava ali, dedos, punho, pernas e pés avariados, quando soube alguns dias depois que teria que parafusar os ossos, que os estilhaços de vidro estavam migrando para se alojarem nos recônditos da dor, postou-se diante das lâminas como se fosse um personagem de Voltaire. Seria esse o parafuso que lhe faltava? Reconheceu novamente o limite, não avançaria em um tipo de leveza que a faz arremesso de abismo. Todos podiam pensar qualquer coisa que quisessem, que ela possuía mais de sete irmãs e, sendo a sétima podia ser uma bruxa, uma borboleta negra, o gato de Poe, a serpente (inexistente) dos textos bíblicos, até mesmo que é uma mulher só, o que parece demasiadamente perigoso à essa altura do caminho. Sobre essa última tessitura de sua existência deve-se à verdade que carrega no olhar, às recusas por razões antigas, ao fato de colecionar palavras, ao singular percurso de liberdade que empreendeu até aqui, pela delicadeza dos gestos, por soprar suas dores ao vento e por ajustar e aproximar tudo o que se reparte e chora. O destemor havido desde os dias primeiros, a fez voar pelas minúsculas frestas dos sonhos, colada às pontas dos dedos. Recolheu às palavras, imagens e ninhos de olhos abertos diante do mar.


Escrever, soltar as borboletas que engoli, faço isso por causa dele. É amor e viagem das grandes. Daqui a pouco nada mais será, apenas as outras páginas escritas, noutro tempo, por outro amor. Então a palavra é grandiosa diante dos jogos estranhos do viver. Guardarei no unguentório, as derradeiras lágrimas. Esperarei passar o período das chuvas e farei um lerão de mandrágoras, penso nisso desde quando ele era menino.

Um dia, ele vai entender o que há do outro lado dos próprios muros. Ou será sempre o menino cuidado (pela mãe simbólica), que não precisará, sequer crescer ou saber que para si, o amor (há muito), foi feito barricada, muro, cerca, gaiola, cela, perda, cápsula, cadeado e, como ele disse, "porto seguro". Desconhece a força das vagas furiosas quando cobram seus domínios, violentas, arrancam as âncoras, afundam as naus, espalham os corpos à deriva. Impiedosamente, a vida o lembrará que aquilo que propus não era apenas a matéria do desejo, também era a matéria do sal, do equilíbrio delicado do viver: aprender a surfar nos devires, não temer a fúria das águas, correr os riscos necessários ao olhar. Agora é com ele e a tábua das marés. Sei que nem isso ele é capaz de saber, arriscar saltos do penhasco e tecer asas durante o vôo. Seus olhos estão vendados, obedece o tempo e o percurso traçados para si. Nunca saberá sobre o frio na barriga, próprio dos que voam.


Hei de montar estratégias de guerra para o salvamento urgente desse amor. Daquilo tudo que foi vivido: o desejo irrealizado de ser e fazer o outro livre, de cantar e dançar, continua suspenso sobre minha cabeça. Móbile, espada, piano ou apenas uma sombra imaginária, numa dor pendular, quase uma hipnose ou lágrima terçã. Um dia nada mais será. Queria que esse dia fosse hoje.

Aquilo que ainda é amor, dói e resiste ao sumiço instântaneo, às fórmulas, mezinhas, conselhos, à desaparição. Porque é tanto, desdobra-se e se quer inocente como uma lâmina, se quer o tempo todo, intenta escapulir por entre palavras estranhas usadas no meu ser-tão. Desse amor, não falo apenas sobre a saudade, imensa, mas sobre as conchas do mar, sobre o umbigo do meu mundo, sem falar na impossibilidade da mentira quando estávamos, um diante do outro, em silêncio. Jamais nos tocamos, nunca mais nos perdemos desde o susto primeiro. Ele consegue, com grande esforço, mentir para si mesmo, ele acreditou na fraqueza, na fome, na gratidão tirana, no pecado e no medo. Eu tentei avisar sobre a impermanência, sobre a liberdade e segurar suas mãos. Sei que a saudade não é só minha. O amor sente-se sozinho.


Nunca soube o que era um irmão. Estava grudada à minha pele, a palavra "única", principalmente pela conjunção de realidades que tocaram mais à liberdade do gesto do que à mentira do lençol tingido, à omissão do hímem rompido, esse século dezoito que aprisiona o meu amor, a estrada perigosa, os cursos das páginas díspares, era, então, estrangeira essa palavra, que desapartava, que me fazia voltar sozinha quando os meus vizinhos viviam apinhados de gente à mesa, podendo brincar e conversar até dormir. Restou-me o pensamento, um peixe de plástico, de letras escritas (como àrvores) nas paredes, buscando as páginas dos livros, sonhando o abrigo mínimo. Às sobras da solidão entrecortada pelos relógios do trabalho, da escola, dos sonhos distintos, dos finais de semana no clube - espaço, que minha casa tornava-se, através da hospitalidade, também era o mais feliz e justo lugar da estranheza. O mais belo jardim, onde um ateu amanhecia digno e cuidadoso, nos cumprimentando. Àquela liberdade, aqueles dias, todos os outros que seguem à coragem de morrer de amor, mortes antigas e recorrentes, são minhas lanternas e minhas bóias. Meu destemor olhando os outros olhos. Todos os outros olhos que brotam do meu solo natal. Eu queria apenas aprender a rir, serena, diante do mar do olhar do meu amor.


Decidi caminhar sozinha por um bairro antigo, cheio de casas, com algumas vilas iguais à vila que ele se hospeda, observar as pessoas comuns, aqueles rostos mirando o vazio da manhã, homens se movimentando como ele se movimenta, mulheres carregando feixes de ilusões nas costas, nos ventres, delirando na estabilidade dos casamentos sustentados por hábitos devotos, teia de desamor e mentira. Eu os vi naquelas expressões ressequidas de imaginação, os acompanhei, apressando os meus passos, fugindo daquela visão triste, desprovida da beleza que me alimenta. Voltei carregada da consciência de ter inventado a grandeza no outro, aquela que ele talvez não tenha ou reconheça em si. Percorri uma grande distância, soltando no caminho, a memória da dor. Eu não pertenço à miudeza daquela vida, da insuportável solidão que o abriga, do abandono da dignidade, por um teto, uma mãe simbólica e um pão. Nunca seria feliz com a escassez do sensível, lugar onde ele fez sua morada.


Eu coloquei nos teus olhos, o assunto que virou ponte, que sobrevoou a sala de estar, que esvaziou os sentidos e às tuas dívidas e culpas. Apenas esqueci de cortar as cordas, trazer as chaves, retirar o lago que miras sem cessar. Esqueci que um dia, eu me distraí e achei que eram de açúcar tuas palavras e teu coração. Foram quase trezentos dias, arremessados ao mar. Cada gesto, olhar, clivagem perversa, cada saudade minúscula, ora perde-se de vista, afunda, afoga-se em si, indica tantas distâncias que busquei esconder em outro vocabulário, mesmo assim, era quase impossível o diálogo. O naufrágio é o que posso te deixar de herança, aquilo que me pedias diariamente.

Uma das coisas mais importantes que aprendi foi a viver tendo a perpétua coragem de incinerar a dor. Também foi preciso saber não ruminar o passado.

Acordar, no luto dos dias, naquele espaço imenso que se alarga veloz, quebrando os ossos, engolindo areia, chorando os olhos que brotam da cegueira do outro. O tempo foi o melhor regalo, a delicadeza abordando a crueldade seca dos gestos, as minhas mãos e todo o meu corpo, mirando o abismo sem graça dos seus dias. Ele não viu o clarão primeiro. Nunca conseguiu ler as palavras escritas na minha carne. Hoje ele não existe mais comigo. Seguirá o tempo do homem comum, que mais parece os segundos que antecedem à morte. Aquilo que o acaso dispôs, ele não entendeu, ele não é um herói.


É preciso inventar, muito cedo, o lugar de criar e de morrer. Fecho os olhos e careço de intimidade com as quinas das paredes e dos móveis, numa configuração precisa, nada de buscar raízes, exceto na atenção com o tempo, com os ângulos do tempo, raízes aéreas..

O lusco-fusco deve-se às razões várias. Não quis acordar os iogues, que sabem ter a mãe por perto e ressonam de dar gosto. Eu estava morta de saudades deles, nunca vi em nenhum humano essa dimensão da alegria do reencontro. Verifiquei as orelhas e detalhes das patas, fiquei surpresa porque estão gordinhos e saudáveis. Proust enfim, está um adulto! O menino Tapacurá, virou corpulento e menos dependente de Celéste, menos "ameninado" e espigado; encontrei um mancando, Branco, segundo Baía, um mártir, juntou-se "com os sonsos do lugar", principalmente com o "desmaiado" Nietzsche, e brigaram com um cão que tem o dobro do tamanho dos dois juntos, mas estão bem. Nasceram dois filhotes que jurei não batizar, sabendo que o adiamento da castração de Lalá daria nisso, são portanto responsabilidade minha. Se eu tivesse que nomina-los, seriam Benjamin e Muirá-Ubi.


Delicadeza não foi ouvir que meu discurso é extenso, sobre minha incurável prolixidade, meus cacoetes proustianos. Delicadeza foi inventar uma linguagem para ele poder se comunicar sem morrer de embaraço.

Há muitos anos, comecei a perceber a importância do olfato nas relações de amor. Não aquelas besteiras do início dos contratos, dos cheiros no cangote, dessa euforia desmedida e perigosa (essas nem de perfume carecem, mas sempre se dão ao exagero). Prestei mesmo atenção a um costume que me acompanha, há pelo menos quatro décadas, quando comecei a namorar nos meados dos anos setenta. Todas às vezes que estava prestes a ir embora de uma história de amor, o meu olfato reagia, aguçado, apressando à partida. Sempre que os amores findavam, eu trocava imediatamente de perfume. Assim, desfilaram nessa passarela da loucura, às mais apropriadas fragancias, para os narizes amados ou desprezados. Como aditivo da saudade, bastava abrir a tampa de um frasco que estávamos ali, eu, Proust, os amores, o esquecimento, os enredos da memória, os meninos queridos. Esse cacoete passava por mim, eu passava por ele e, nunca havia sido tão preciso como nesse último, afinal, nunca usei perfumes doces. Dessa vez, há nove meses, busquei um buquê de rosas, as flores do japonês, com um susto de intimidade, um abotoar de rosas murchas. Pois bem, quando percebi que estava próxima do lugar da partida desse amor imenso, mudei hoje mesmo, troquei imediatamente o que vaporiza meu corpo. Dessa vez, veio o amadeirado, aroma que enfrenta batalhões, canhões e narizes indiferentes, que lança-se ao tempo de mais de um sentido. Os melhores foram aquelas lavandas do inícios dos 80' que vinham com uma coisa que parecia farinha, vendidas nas lojas de produtos naturais. O Rastro, que minha mãe-outra, Venância, guardava os frascos (não gostou porque mudei), foi com a saudade de um garoto que envelheceu. Acho que esse gesto era de grande fidelidade, afinal o que um homem sentia, o outro não devia sentir, uma espécie de lealdade do olfato. Lembro-me dos dias ripongas e dos oleosos patchulis, nessa época não havia muito rigor. Alguns perfumes, que de tanto amor e delicadeza, eu pensava que estava usando lança-perfume rodouro metálica, sempre me foi estranha a palavra "inebriante" no olhar da paixão . Os masculinos que usei nas longas relações, dividindo com os maridos, que coisa besta essa história do olfato, brincando de marco histórico e findo. Sempre foi assim. Usei todos mas, alguns perfumes não me lembro, nunca usei ninguém.


quem sabe de toda a verdade - detrás das paredes, das folhas sangrentas de papel, aquela entre os livros, os risos, o redemunho, o desespero, aquela música vinda de um povo distante, repetição de notas e letras confusas que o fez urrar, fez brotar o poema infinito para dentro de si, ambiente de escuridão e silêncio, quem sabe, esquece a inocência e não pode deslumbrar-se com essa paisagem carbonizada do destino.

era um ser estranho: tinha sobrado uma parte do tronco, os orgãos genitais muito murchos, no lugar do estômago (não queria mais digerir aquela dor) havia colocado um coração imenso, invertera o poema e engolira a baleia. seu rosto magro era feito de ossos. não tinha pele alguma. sim, suas asas presas às costas, eram os sentidos crus: olho, nariz, pele, orelha de onde pendia o essencial.
senti um arrepio quando o vi, ele não podia mais sair dali: estava enterrado em uma montanha de vermes antigos.


Passei a vida inteira com uma espécie de paixão por ele e há dois finais de semana não desgrudamos um do outro, ele fora durante muitos anos, uma marca que carreguei no corpo, dessas que são impressas a fogo, no lombo dos animais, uma cicatriz, um recolhimento. Nesses dias, ele me falou: "O homem não sabe que é um morto falando com outros mortos", até achei que essa frase saíra das escrituras do meu amigo M, mas ele se referia a um velho tio, aquele que perdera a casa para um louco. Por ele e mais ninguém, fui ciumenta, sim, nenhum deles pode negar que eu carregava esse desenho em minha pele, embora, tenham levado consigo uma resposta mal interpretada, algo parecido com essa comiseração cruel onde o silêncio é o reverso da mentira. Reconheço como legítimo, o ciúme que senti quando ele casou-se com outra, quando o Senhor Jorge L. apareceu ao lado da esposa, sorridente, sem me enxergar ao seu lado, vestida de azul como uma tempestade de Turner. Namorar um homem casado? Não, isso não era do meu feitio, restava-me o inevitável, esperar sua morte e revelar este segredo, que sempre fora nosso. Tantas vezes estivemos juntos, viajamos para lugares distantes, ele no meu colo, dormimos nas fazendas, nos aeroportos, nos hotéis, nas tendas, nas praias desertas e em minha própria casa, onde ele guarda suas bengalas favoritas. Criamos aqueles animais, minha letra marcou a testa de barro do G (que ele trouxe para passar uns dias aqui). Todo o resto foi indignação, insurreição solitária, violência contra as mentiras que me fizeram compreender porque nenhum deles chegou até o último degrau da escada, de tão previsíveis que foram, como a maioria dos homens, exceto o Senhor Jorge L, motivo pelo qual pude distinguir o ciúme dos outros maus afetos. Somente quando envelheci é que percebi estar diante de perguntas e respostas, que urgiam negar, afirmar ou escamotear a realidade, diante de algo comum demais para que se parecesse com ele, o Senhor Jorge L. Receber a culpa da loucura de intuir e constatar, isso sim, me deixava furiosa, um animal irrequieto e violento, porque saia do território dos olhos cerrados, meus e do Senhor Jorge L, para o da deslealdade, dos atores escolhidos. Deslealdade denota posse e mesquinharia, transtorno e miudeza do afeto, mas o ciúme nem tanto: abrir a porta às palavras, aos gestos, ao testemunho, às dores de debulhar todos os grãos do querer, olhar detrás do olhar do outro difere de receber o punhal, acertar o alvo, mentir, não isso não é postar-se com dignidade perante à palavra, isso é coisa da perfídia, coisa ancestral. Havia naquele café prestidigitadores que negavam o que eu podia ver, que circunscreviam na areia do hábito, os domínios do embuste, os fossos de aleivosias, os recursos do tédio e da perversão. Quando o Senhor Jorge L morreu, senti uma dor funda em meu corpo: as paredes demolidas do lugar dos nossos encontros, essa utopia travessa que geograficamente nos traiu, nesse caso, mantendo a verdade dos meus olhos e de suas páginas, ser e não ser, dizer e negar, ocultar e revelar, inventar e rir (numa doidice sem fim), foi quando senti pela primeira vez, o ciúme verdadeiro.


Há dias em que o quarto escurece, o abismo investe, as pernas tremem, o túnel engole seu fim, as coisas se despem de sentido, o lápis se recusa a traçar a linha, o olho de ver a luz, os cães emudecem, os outros tornam-se cada vez mais distantes, o fogo desce calcinando vísceras e orgãos, a tempestade afoga a cama, a notícia ruim fica suspensa e invisível diante da imobilidade do corpo, as notícias se consomem antes dos seus sentidos, a chuva não vem e incinera as folhas; a dor se abriga estática desde o princípio dos dias, o sangue acelera seu percurso, a chama pressente o fim, a veia dilata, o nascedouro do contentamento é definitivamente crestado, ocorre a combustão das cartas esquecidas, as cortinas desobedientes se fecham, o sono e os cílios travam uma peleja desigual, as rosas definham, o rebento nega o abraço, as cordas amordaçam o ânimo, as carpideiras gargalham; os rios e as quedas d'água, convulsionados, arrastam os braços desfalecidos, os alvéolos banham-se em colas de açúcar e goma, a morte aproxima-se bafejando a nuca, a lágrima congela e queima a face, o pensamento não distingue dia e noite, a ventania trás presságios estranhos, o sobressalto enlaça o ponteiro dos minutos e eu me assusto com o mínimo alento para seguir.


Ter sido amada, não a furtou de encher os bolsos com pedras e reinventar o estige, onde mergulhou e fechou os olhos para sempre. Não, não era esse o nome do rio, mas pouco importa, a água diluiria sua loucura, quem teria medo? Ela não, decidiu não seguir aturdida, vulnerável ao delírio emaranhando e turvando seu jardim.

Naquele raso abismo, não se demorou. Sabia que seria destinada a caminhar sempre à frente, sangrar os pés, olhar para aquele homem e, perguntar-lhe: "Como seria substituí-la?". Porque substituir uma rainha que conhece a morte e sente-se dessa, tão íntima? Ela viverá até o fim, carregando consigo a resistência de cessar o fôlego, viverá até o fim, sabendo que quase ninguém a viu nua, naquele cômodo inocente (vamos aprender russo).


Diria no meio da floresta escura, sem deixar nos portais do sonho, as esperanças vãs: "Oito anos. Uma vez. Outra". Nada mais carece ser dito.

Um dia, eu me lembrei que morri, e isso não foi um largo caminho, foram imensos desertos tragados, um a um, como uma sina, uma prova daquilo que jamais deixei de ser, garganta aberta à vida, sem o temor de fenecer. Nesse dia, todos os anos e toda a gente, duvidou que fosse verdade, menos eu, não podia duvidar da goela seca de areia, dos risos triturados juntamente com cristais de rocha, da indiferença que me assustou no início, daqueles falsos convivas (seguindo a tradição de outros mais antigos), nesse dia, naquela hora dos doentes, fechei os olhos. O deserto investiu diante de mim, e eu olhei para ele com a certeza de que sempre fora mercador, cada raio daquela areia queria o dinheiro, o poder, a ganância, assim, foi estendida minha estranheza: transformar o sal da lágrima, em água, hidratar o corpo, seguir, dar gargalhadas subversivas diante daquelas montanhas sem fim. Aprender a rir, naquele lugar, me salvou, aproximou-me do fim da vastidão perversa. Hoje, depois de minha última morte, refaço outros lugares, que me levarão às mortes futuras, sem lágrimas ou areia sob o sol. Hoje posso morrer e rir, brincar de viver sem dar às mãos ao mundo que não desejo.


São baças, eu sei, desde sempre, eu a recuso. Fujo dali porque sei que, em um segundo, ela me convenceria a ir para o lugar de outros silêncios, fingindo não haver monstros ainda mais estranhos que esses que vivem colados às minhas dores. Sei que se veste de azul, que tem longos cabelos escuros e me fita com seus olhos de vidros, enquanto digo: Não! Afugento as formigas, derramo água sobre os peixes mortos, posto-me pétrea para escapar às suas canções. Resisto porque irei até o fim, buscando os sentidos diários daquilo que sou. Recuso o gás, a aiora, o filete de sangue, o voo, viro o meu rosto às águas profundas, à bala, à fera. Eu a vejo diariamente, adentrando o mar, não sem antes olhar para trás, convidando-me para virar um muro de coral.

A barbárie, esse tipo de violência que é soco, bala, alienação, bomba, insanidade e religião, aturde e não há como não chorar, não chegar às emoções mais dilacerantes. Não representa o todo, mas torna-o lugar da mira dos olhares transversais. Entendo como se os dizimados ou silenciados, por sintonizarem a autonomia de seus pensamentos e gestos, todos, fossem meus parentes e dos meus amigos, que seguem essa soberania - a liberdade de pensar, criar, e manifestar publicamente o que desejam (ainda). Não, isso não é pontual, é disseminado, o tempo todo, em quase todos os lugares, há episódios mais evidentes e outros mais discretos, nas ruas, nos templos, dentro das casas, à beira-mar, nos vastos campos férteis da imaginação. Sei que é possível abrir a porta da própria casa para o inimigo, dar-lhe alimento e abrigo, e ele, tomado de ódio, algo ancestral e íntimo, ali se instalar para escolher o alvo, para destruir os espelhos, para exercer toda sua paranóia e pequenez, para alardear seu delírio. Há momentos em que o sectarismo extrapola, que atinge mais fundo a carne e o sentido da própria humanidade, salga os rostos e as calçadas, corrói o sonho.


Ainda há mães que choram, pais, mulheres, homens, netos, filhos, amigos que guardam cicatrizes, há tantos que continuam sangrando diante de uma nova leva de sádicos. Os perversos, fardados psicopatas, insanos, estropícios, criaturas que à maneira daqueles que protagonizaram os palcos do horror de cinco décadas atrás, como os mandantes de crimes bárbaros, os torturadores, os meganhas dementes, os dedos-duros alienados que espiavam tudo às suas voltas para trocarem informações por cargos ou moedas, os carros esquisitos estacionados esperando o bote traiçoeiro e covarde contra todos aqueles que buscavam à justiça social, quebraram braços e pernas dos que, destemidamente, seguiram seus próprios sonhos de justiça, mirando o coletivo. Foram não apenas perversos, foram além: gargalharam ao introduzir ratos vivos nas vaginas das mulheres grávidas, fizeram filas para estuprar as bravas moças, jacularam quando viram os corpos convulsionando com eletrodos nas têmporas. Porcos imundos! Precedentes dos que manejam os cacetetes de hoje e, com seus cérebros ínfimos (seguindo a tradição dos cafajestes-mor), com seus comandantes estúpidos, com sua cólera ilimitada, abjetos e desprezíveis, continuam seguindo débeis líderes, capachos do poder, pisam com seus coturnos furiosos sobre os sonhos gentis das pessoas de bem, destroem as diferenças sejam quais forem, matam alvos negros, pobres, negligenciados por um maldito, patriarcal e misógino Estado. Aqueles que arrastaram corpos no asfalto, que “suicidaram” os intrépidos homens (que foram calados sob o jugo das armas e das ideologias do medo), os que preferem construir esgotos públicos onde jogam os miseráveis, todos os normais coniventes, o vizinho que lança um olhar furioso em direção à singularidade dos outros, as carolas que vivem enroscadas em seus rosários e segregam aqueles que julgam seus serviçais (escravos contemporâneos), o imbecil de classe média filhinho-de-papai, os pobres servis, quem lambe o chão para “o doutor” passar, toda essa excrescência, está novamente aí, impune, escondendo os rostos e às panelas, os patos ridículos, os sapos atrozes, os malfazejos e parvos homens comuns, com os olhos vidrados no mal. Os cassetetes continuam atuando, mães continuam apreensivas e vidas seguem desnorteadas desde aqueles dias escuros. Sabendo que o inimigo, estrategicamente, armou-se de uma covardia nunca vista, cada um de nós têm que se desdobrar em atenção, uns com os outros, ficarmos atentos ao monstro que teima em (novamente) emergir. O inimigo segue matando em escala industrial, como se o fascismo e as práticas ditatoriais, estivessem espalhadas em toda parte, invadindo as mínimas frestas dos dias.

Ainda falta muito para clarear o dia, e minha menina não vem, demora para salvar da escuridão da noite, aquela que embrulhou as ilusões, uma a uma e, as deixou no primeiro parque. Enquanto o sol não acena, não cai a lágrima, não chove por dentro, a menina ouve as antigas canções.


Olhou para o alto e faltava-lhe tanto de Deus, rogou ter mais fé, repetiu que o pai era ateu, buscou tocar à lona azul, cheia de furos, aquela mesma que um dia entreviu e descreveu - o céu da sua infância. Sabia que cegaria se o visse, tinha conhecimento de que toda aquela luz, se estenderia por multiversos, que tantas formas de vida surgiriam diante de si. Temia que algumas a assustasse, que outras a fizesse dormir. Imaginou cada segundo da travessia, molhou os dedos nas águas ácidas do rio, fechou os olhos, simulou a dor, era uma dor antiga, um lugar de passagem, uma coragem rubra e serena, um íntimo abandono. Imaginou os objetos, os modos, os riscos de cada erro. Atravessou os túneis, avistou as lâmpadas acesas, viu surgirem fendas no solo, derreterem-se cordilheiras e, com um compasso, esboçou crateras fundas - suas tinas de banhar os olhos. Está pronta para subir à montanha. Haverá gelo maior do que esse que queima seu corpo? Como será? Continuou à noite, todas às noites sem dias. Quem sabe esse tempo está postado nas inclinações do seu próprio sonho? Quem sabe no dia de sua morte?

Antes que o sol nasça, eu me pergunto: quantas mãos se dão, transmutadas de vida e morte, em um contínuo e estranho movimento? Eu não sei, para nenhum dos dois pólos, me falta coragem, estou nessa vertigem cêntrica, em um ponto neutro e perigoso, apenas amanheço. Sinto-me acompanhada na dúvida e no susto, então, segue para você, esse "outro" (quase quem sou), uma musiquinha de ninar (sugestão sua). Nosso amigo, Arthur R. bem nos lembrou: "Eu é o outro", assim me sinto em relação a você, naquilo que nos faz meninos a desembestar.

Naquelas vitrines, diante das quais as bestas salivam, os risos histéricos miram outras bestas, os maus se reúnem para admirar os objetos, as filas circundam os quarteirões para remediar as mentes perversas, o espetáculo deprimente acontece. Ali, ela avistou instrumentos estranhos, rudimentos que resultam nas medievas dores. Naqueles prados, porque tantos bárbaros? Há homens afáveis que ali vivem, esses se indignam com a cólera dos seus vizinhos, com aqueles que querem cegar os padres, estuprar as moças, atingir mortalmente os jovens, alvejar os transportes, amedrontar as crianças e desonrar as viúvas. O mundo tornou-se um lodaçal sem fim, o ódio move cada um daqueles doentes, daqueles perversos, dos estúpidos homens que perseguem, apedrejam, atiram e esbravejam suas pragas íntimas, contra aqueles mesmos que pretendem levar alimento às bocas famintas. O que fazer para cessá-los nessa hora?


CYANE PACHECO – Reunião de textos, fotos & expressões da artista plástica & visual Cyane Pacheco. Veja mais aqui, aqui e aqui.