domingo, setembro 28, 2014

IV ENCONTRO CIENTÍFICO E CULTURAL ENCCULT



IV ENCONTRO CIENTÍFICO CULTURAL ENCCULT – O IV Encontro Científico e Cultural de Alagoas – Enccult, acontecerá nos próximos dias 25 a 29 de novembro, na cidade de Santana do Ipanema, Alagoas, numa realização da Universidade Estadual de Alagoas (Uneal) e universidades parceiras como a Ufal e o Ifal.

UAB TERCEIRA IDADE - Na ocasião será apresentado o trabalho acadêmico Aspectos psicossociais e cognitivos da participação de idosos na Universidade Aberta à Terceira Idade, de autoria da professora mestranda Janne Eyre e dos graduandos em Psicologia, Daniele Nunes, Marcos Henrique Barros e Luiz Alberto Machado.

Veja detalhes aqui.



sábado, agosto 09, 2014

ALGUMAS DO CÉLIO CARNEIRINHO


 Imagem: não sei quem bateu essa foto, mas sou eu na pedraria do rio Pirangi – Palmares – PE.

ALGUMAS DO CÉLIO CARNEIRINHO

Célio Carneirinho – o Célio Carneiro de Siqueira -, era o mais quieto, sossegado e de venta aprumada da patota toda da gente. Como cada um da gente tinha seu pantim, o de Célio era sair com as tiradas inteligentes, curtir bossa nova com uma cara de chiclete Ploc e jeitão de John Lennon, caladão mas certeiro na horagá. Parece que ele se guardava ou se economizava para dar rasteira na gente que compunha duas ou três músicas por dia e falava demais. Ele não, só arrematava!

Como eu já dissera noutra, era da dupla Gulu & Carneirinho o sucesso mais retumbante entre a gente: Leonor. E isso deixava ele todo pavoneado: não havia rodada de birita, conversa jogada fora, petas e patranhas soltas, que não cantássemos todos juntos esse grande sucesso!

O nosso principal divertimento além de livros, muita música e biritada às fumaçadas muitas, era dar umas caminhadas até Água Preta pela estrada de São Manoel, dar umas voltas boas por Pirangi e sair por aí.

Um dia lá depois de coçar muito saco e se encher de tédio no meio do mormaço da tarde, a gente assuntou de ter com o poeta e alfaiate Raimundo Alves de Souza. Corria o maior boato de que ele era pai de Vinicius de Morais e a gente queria tirar a prova dos nove. Peguei um volume duma coleção que tinha a foto de Vinicius, um gravador embaixo do sovaco e fomos bater lá na dele na Rua Nova. Ele nos recebeu cordialmente, mas meio assim porque o negócio dele era ficar na janela soltando cantada para as moçoilas passantes, apesar de segurar um dreno e não ter mais idade para mandar ver. Nesse dia atrapalhamos esse seu afazer já no alto dos seus noventa e três anos. Apesar da idade, ele recitava poemas de cor e contou da sua vida. Inclusive que tivera vinte e três filhos, dois deles jamais vira. Aí disse: - Um deles é engenheiro ou arquiteto lá pras bandas de Brasília.... -, entreolhamo-nos e como o boato de Vinicius era forte, pensamos na hora: - Será que esse homem é pai também do Niemeyer? Nada. O poeta contou amiudado de muitas e todas a respeito de mulheres, o que era verdade. Todo mundo dizia que ele fora um verdadeiro Don Juan estraçalhando a vida de muita donzela. Foi quando entrou Vinicius no papo. Ele não desmentiu e contou uma história de que uma distinta senhora se apaixonara por ele no Recife e dali rolou tudo. Quando ela soube que ele já era casado, chamou uns capatazes e mandou matá-lo... ela era duma família ricaça de usineiros de Alagoas. Um tiro de espingarda acertou-lhe o braço, conseguindo-se livrar do tiroteio. Contou-nos que tempos depois, um granfino de Minas Gerais deitou-lhe admoestações para ele não abrir o bico acerca do namorico e que o mesmo assumiria seu filho num casório no Rio de Janeiro. Acrescentou ele que um seu amigo Zezinho Quaresma lhe dissera tratar-se de Vinicius de Morais e que o mesmo já sabia que era filho único de um pai de muitos filhos. E o velho tinha filho como praga mesmo e tudo brigado de ferro e fogo em Palmares e por esse mundão. Quando ele começou a dizer o nome dos filhos, a panelada começou a cair na cozinha. Baques de coisas lá pra dentro deu-nos a desconfiança de que a esposa dele lá dentro não estava gostando do papo, coisa que ele tratou logo de dar um fim e de quase botar a gente pra fora, depois de recitar uns dez sonetos de sua própria lavra, cada um melhor que o outro. Procuramos depois os filhos dele e cada vez que chegávamos, bastava falar o nome dele pra porta bater na cara da gente. O poeta Juarez Correya foi tirar isso a limpo e depois publicou na revista Poesia que ele editava no Recife, dando conta da paternidade do poetinha. Anos depois conseguimos que os familiares entrassem numa trégua e por iniciativa de um dos netos dele, as Edições Bagaço pôde publicar seus poemas em livro.

Essa foi uma das muitas e tantas outras aventuras nossas que caberia numa coleção de fascículos bem gordinhos duns cinquenta volumes. A maior delas foi quando nos juntamos para irmos até a Serra da Prata, de pé por Pirangi. Arrepara só! Acertado, não sei se sábado, domingo ou feriado, só sei que saímos o dia amanhecendo eu, Ângelo, Gulu, Ozi, Ripe, Mauricinho e Célio – não lembro de mais algum outro da trupe, com o maior alforje de brebotes enlatados, bebida, cigarro, violão e muito papo. Quando chegamos no pé da montanha já era meio dia e faltava muito pra gente chegar lá em cima e ver o panorama. A primeira coisa que Célio reclamou foi: - Pra quê mesmo a gente trouxe a porra desse violão? Nossa, estávamos cansados e até a roupa pesava. Célio foi quem mais sofreu: usava uma calça jeans daquelas bem apertada, assim tipo ele era manequim 46 e usava uma calça 38, deu pra entender, né? E o pior: o saco do cara parecia inchado entre as pernas abertas. Um sufoco! Arranchamos embaixo da primeira sombra que encontramos, esquentamos os quitutes e feijoada enlatada, bebericamos e a conversa era uma só: vamos voltar de Rural, não dá pra voltar a pé. Só que se ficava longe de Palmares, ainda tinha muita terra pra Catende. Decidimos no palitinho e entoamos juntos o Trem das Alagoas de Ascenso Ferreira: “Vou danado pra Catende, vou danado pra Catende, vou danado pra Catende com vontade de chegar”. E que vontade de chegar. Comemos poeira e estrada. Quase cinco horas da tarde foi que achamos a dita Rural salvadora de todos os anjos e santos e améns e voltamos aboletados morto de cansados pra Palmares. Viramos frase d´O Corvo de Edgar Alan Poe: “Nunca mais!”.

Pra encurtar a história, vou provar pra vocês porque o Célio era o mais famoso entre a gente. Como dissera, ele é um dos autores do sucesso Leonor.

LEONOR

Nem mais Ipanema num chope no bar
Num fim de semana de papo pro ar
Quero ver como é, como é que vai ficar
Sem você comigo não dá pra levar
Sem o seu carinho não vou suportar
Leonor, você era a mais linda
Entre as flores do meu jardim sem flor
Amor, foi você tudo que eu tinha
Eu lhe perdi, foi culpa minha
Amor, amor, amor, só Leonor.

Depois, ele mandou ver noutra parceria: Pirangi, com Marco Ripe que hoje se assina Marco de Olinda. Uma música lindíssima!

PIRANGI

Voltei pra rever o pedaço de mim
Que ficou por aqui
Ó Pirangi eu tentei me separar de você

Gosto de lembrar das tardes fagueiras
Que se iam ligeiras
Ó Pirangi eu tentei me separar de você

Mas aqui estou e quero abraçar tuas pedras,
Tua fonte, mergulhar em você e ficar.

Doutra feita, outra maravilhosa parceria que acompanhou o sucesso de Leonor e Pirangi: a parceria dele com Zé Ripe, Mata Sul.

MATA SUL

Terra que o diabo vadeia
Mulher tira homem pra dançar
Coragem não existe nessa terra
Urubu quer uma cana pra chupar

A carniça está toda ocupada
Em contrato com tudo que é doutô
O pior é que a coisa sempre cai
Na mesa do trabalhador
Sim, sinhô
Sim, sinhô
Na mesa do trabalhador.

Essas três músicas são cantadas e gravadas até hoje de tão maravilhosas que são. Célio só não teve muita sorte com uma outra parceria: eu. E conto direitinho o porquê de não vingar. Seguinte: uma sexta feira da paixão de mil novecentos e lá vai teibei, a gente se arranchou na garagem lá de casa e depois de embeiçarmos uns dois botijões de vinho de cinco litros (com mentira e tudo!), a gente achou de selar nosso pacto na primeira parceria musical. Começamos a juntar acordes e a solfejar melodias rascunhando uma letra que no fim deu uma balada até que da boa, só que a gente estava meio bicado e havia baixado um santo tipo Roberto Carlos às avessas. Apois foi. Fizemos, mangamos, rimos que só um da cara do outro e ficou. Ainda sei de cor:

ANTIROMANCE

Ah, esse amor partido, sem gosto e sem cor
Na sua efígie de quadro borrado
Ah, essa dor que murmura
Resmunga terna e segura
Nosso ocaso na inércia do sonho

Ah, que as veredas do amor me corrói
Na insensatez da vergonha
Que me arrebata, me torce
E me põe desolado
Nessa caso meio inacabado

Quantas manhãs refletem o amanhã
E o sentido do gozo e da dor
É que o amor remexe e me trai
E me põe de cabeça pra baixo.

Acho que foi depois dessa que o arrependimento bateu forte nele de resolver de uma hora pra outra tomar tento na vida. E foi, duma vez só deu uma direção na vida: passou no concurso Banco do Brasil e no vestibular de Direito. Por causa disso se avexou logo em noivar para nunca mais dar as caras no meio da gente. Formou-se, acho que já se aposentou e deve estar gozando a vida num restaurante no litoral pernambucano, não sei onde. Um dia desse nos encontramos em Maceió e ele taxativamente disse: - Não tenho mais tesão nenhuma pra essas porras de música. Tô noutra e vamos nessa!

Saravá, amigo Célio & pro povo todo & meninada que já deve estar tomando conta de tudo! Beijabrações.

Veja mais Passando a limpo.



sábado, agosto 02, 2014

PASSANDO A LIMPO

  Imagem: Foto recolhida por Eilson Freire.

Como fui muito andejo entre as escolas, conto logo que comecei no Grupo José Bezerra e, depois duma crise hepática, fui parar na Escola Fraternidade Palmarense para concluir o ensino primário, fazer admissão no Ginásio Municipal onde fiquei os dois primeiros anos do ginasial concluído no Colégio José Ferreira Gomes. Deste saí pro Colégio Diocesano para começar o segundo grau, o qual findei no Colégio Nossa Senhora de Lourdes. Foi aí que continuei minhas estripulias artísticas.

No colégio das freiras fui muito bem recepcionado pela Madre Maria do Espírito Santo que logo me nomeou representante da turma. Lá um timaço de pedras boas: Wilson, Sérgio David, Alexandre Goia, Virginio, Luciano de Chiquinho e outras trocentas pessoas camaradas.

Não parando quieto, estreitei primeiro amizade com o pianista Sérgio David com quem, toda noite de sexta feira, largava os afazeres e cultos da igreja batista para bebericar comigo vinhos e vermutes até altas horas, ouvindo peças pianísticas que eu dispunha na minha modesta discoteca, que ia desde os eruditos aos do rock progressivo e música instrumental contemporânea. A gente viajava na ideia mesmo ao som de Gismonti, Rick Wakeman, Keith Jarret, Tomita, Vangelis, Chick Corea, Duck Ellington, etc e tal. Virávamos a noite, a ponto de um dia lá, a gente se organizar e partir emendando dum dia pro outro pra assistir o espetáculo 1984, de Rick Wakeman, lá no Geraldão, em Recife. Nem lembro que ano foi isso, sei que a gente, curtiu o som e outras fumaçadas de braqueros que rolava adoidado na pista do ginásio, viramos a noite lá e zarpamos de volta de manhanzinha cedo depois uma tocada de improviso que demos no apartamento dum distinto lá que nos acolheu. O negócio deu tão certo pra nossa banda que, anos depois, findamos os dois bancários lotados em agências diferentes do velho e bom Recife, pra nunca mais cruzar as ventas na vida.

Mas voltando a conversa do colégio das freiras, certo dia lá, eu e o Sérgio David havíamos já dado umas ensaiadas num duo violão/piano, chegando a nos dar o topete de querermos apresentar nossas traquinagens no auditório do colégio. Vupt! O negócio cresceu e logo chegaram juntos pra compor a executada, o Wilson que tirava foto e dava uma de baterista, e o Luiz Virgínio que era músico já de estrada que se enturmou com a gente de posse do seu contrabaixo, para, enfim, formamos um quarteto que por completa falta de imaginação, não conseguimos nomear. A gente ensaiou direito e bonito e, num dia lá que não lembro de jeito nenhum de que ano foi, acertei com a madre superiora e ela levou a turma toda pra assistir no auditório. Foi um arraso. Contudo, o quarteto só resistiu a essa apresentação, cada um arribando pruma banda, seguir seus afazeres: eu fui fazer Letras na Famasul; o Sérgio virou bancário e se restringiu ao piano da igreja; Wilson foi tirar foto e imitar seu ídolo Cauby Peixoto; e Virgínio arribou concursado numa instituição federal pra Maceió, só o encontrando uns 30 anos depois. 

 Imagem: Uma das fotos da nossa apresentação no Colégio. Adivinha quem está todo cheio de munganga na bateria! E quem está do lado? O Amaro? Tem mais outras fotos, mas não consigo encontrar.

Anos depois reencontro Wilson e no meio das nossas cachaçadas, certo sábado eu fui armado do meu violão e ressaca inspiradora, até o apartamento dele. Aboletado e jogando conversa fora, a gente começou um papo musical que findou numa parceria duma canção que eu perdi na memória e só devo ter registro dela no meio de uma tuia de fitas cassetes que carrego e nunca mais tive tempo de ouvir. Foi a única parceria e, no frigir dos ovos, esquecível.

Esse mesmo Wilson, filho do saudoso amigo João do Foto (e a sua lambreta envenenada), tornou-se Wilson Fotografias – a sensação das fotos da região! Emendamos muitos bigodes nas maiores biritadas da gente perder até a noção do tempo com outro sujeito que fechamos um trio da gota: Gláucio Braga de Queiroz, mais popularmente conhecido como Gal do Caixão, ou Gal da Funerária, ou Gal do seu Guedes e dona Glorinha e outras tantas afiliações – outro que faz uma data que não revejo. Depois conto as dele.

Hoje o cabra Wilson tomou jeito, virou cantor de verdade (o que muito me envaidece, pois ele gravou no seu cd duas músicas minhas, Cantador e Desnorteio), fez-se vereador e locutor na tradicionalíssima emissora da integração regional, a Rádio Cultura, com o programa Nos tempos do Ferroviário que sempre que posso aprecio pela rede aos sábados de tarde

Todavia, entre as lembranças mais representativas do colégio das freiras, como a da irmã Eugênia, dos colegas de classe e dos amigos professores, uma eu destaco com o maior prazer do coração: o professor Barbosa. Ele era meu vizinho de fundo na Cohab (eu morava na rua D e ele na rua A e não havia muros para divisar as residências. Um andava pelo quintal do outro, à época. Tempos bons). Esse professor, gente boníssima e da melhor estirpe, era um daqueles que faltasse um, ele estava lá pronto para lecionar. Ele era professor de Matemática. Contudo, faltou o professor de religião, ele mandava ver; faltou de Química, ele lá; faltou o de Física, ele na maior; faltou o de Moral e Cívica, oxe, moleza; e era assim: qualquer matéria, ele dominava. Aí, teve um dia que o professor de Inglês não apareceu. Aí, sim. Agora que a gente ia conhecer pela primeira vez a saída do Barbosa. Ôxe, nem deu tempo da gente começar a imaginar como seria o estrupício, logo, no de repente, ele abriu a porta espalhafatosamente e tascou com seu ar envolvente:

- Vamu aprendê ingrês qui portugueis nós já sabe!

Veja mais aqui.


sábado, julho 26, 2014

ENTREVISTA FREDERICO BARBOSA

Frederico Barbosa é poeta pernambucano. Cursou Física pela USP e é formado em Letras/Português. Foi crítico literário no Jornal da Tarde e na Folha de São Paulo, consultor e redator do volume Help! - Literatura, publicado pelo O Estado de São Paulo. Leciona Literatura, Texto e Redação no Curso Anglo Vestibulares. É consultor técnico das coleções Ler é Aprender, do O Estado de São Paulo; Livros, de O Globo; e Biblioteca ZH, do Zero Hora. Dirige atualmente a Coleção Alguidar. Publicou os livros Rarefato (Ed. Iluminuras, 1990), Nada feito nada (ed. Perspectiva, 1993 Prêmio Jabuti), 5 Séculos de Poesia - Antologia da Poesia Clássica Brasileira (Landy Editora, 2000), Contracorrente (Iluminuras, 2000), Louco no Oco sem Beiras - Anatomia da Depressão (Atliê Ed, 2001), Na Virada do Século - Poesia de Invenção no Brasil (Landy Ed, 2002) e Cantar de amor entre os escombros (Landy, 2002).
Luiz - Vamos começar por Pernambuco: como você coloca uma observação entre o Pernambuco da sua infância e o de hoje? De que forma Pernambuco contribuiu para a sua formação poética?

Frederico - Tenho uma relação curiosa com Pernambuco. Vivi em Recife os primeiros seis anos da minha vida. Só isso. Depois, em 1967, vim para São Paulo. Costumo dizer que fui exilado, ou meus pais o foram, depois do golpe militar de 64. É impressionante a quantidade – e principalmente a qualidade – dos intelectuais, que, como eles, deixaram Pernambuco pouco depois do golpe. Dá para imaginar como seria o Recife se lá tivessem permanecido intelectuais como Sebastião Uchoa Leite, Luiz Costa Lima, Márcia e Jorge Wanderley, Ana Mae e João Alexandre Barbosa (meus pais) e tantos outros, na época muito jovens, que vieram para sudeste naquela época?

Mas vou a Pernambuco praticamente todos os anos, durante as férias. Nos últimos 15, pouco tenho ido ao Recife, fico mesmo em Tamandaré, praia que fica 90 km ao sul da capital. Costumo dizer que a minha cidade é São Paulo, mas meu estado é Pernambuco. Acho que dá para entender. A cidade que eu conheço melhor é São Paulo, mas pouco conheço do Estado de São Paulo. Quando tenho qualquer oportunidade, pego o carro e vou “subindo” até Tamandaré.

Na realidade, nos últimos anos o meu contato com Recife vem crescendo bastante. O maior culpado por isso é o poeta, cineasta, professor, agitador de todos os baratos, Jomard Muniz de Britto. Depois que o conheci, passei a me interessar muito mais pela cultura e pela cidade do Recife como um todo. Até escrevi um poema em homenagem à cidade, quando o Recife elegeu João Paulo prefeito. É dedicado ao Jomard e procura dialogar com o grande “Evocação do Recife”, de Manuel Bandeira. Eis o poema:
Vocação do Recife
para Jomard Muniz de Britto

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois –
Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
Manuel Bandeira – Evocação do Recife

Recife sim
das revoluções libertárias
da teimosia ácida
do contra.

Não o Recife da minha infância
de golpe e exílios
gorilas e séquito
de vermes venais.

Recife sim
da coragem Caneca
da conscientização neológica
das lutas ligas lentes
do sempre
não.

Não o Recife sem literatura
no papo raso da elite vesga
a vida mole e a mente dura.

Recife sim
poesia e destino
na memória clandestina
de sombras magras
sobre pontes e postais.

Bandeira
sutil na preterição sim.

Clarice sim
frieza entranhada
na estranheza de ser Recife.

Recife sim
na literatura navalha
só lâmina solar
solidão sem soluços
só suor de João Cabral.

Recife sim
nos cortes certos
de Sebastião
contra a metáfora vaga
e o secreto.

Não o Recife sonho consumo
de turistas e prostitutas
na praia do sim
shopping sem graça
de Boa Viagem.

Recife sim
que em Nova Iorque
se revê
Hudson Capibaribe
ecos de Amsterdam.

Recife rios
ilhas retalhos
retiros velhos
reflexos de Holanda.

Não o Recife que revolta
na extrema diferença.
Não o Recife que expulsou
sua própria inteligência.

Recife sim
que se revolta
vivo.

Faca clara
que ainda fala
não.
Luiz - Como você observa a linha que passa de Ascenso, Bandeira, Capiba, João Cabral, até Antonio Carlos Nóbrega, Lenine, Alceu, Manguebeat?
Frederico - Há inúmeras linhas que podem ser traçadas quando se pensa na literatura produzida em Pernambuco ou, como é o caso de Bandeira e, durante muitas décadas, de João Cabral, por pernambucanos que vivem fora do estado. Na minha linha entrariam Bandeira, Ascenso, Joaquim Cardozo, Cabral, Carlos Penna Filho, Sebastião Uchoa Leite... Todos grandes poetas. Da música não posso falar muito. Gosto mesmo é de jazz... Mas acho que o Manguebeat foi uma iniciativa muito interessante, por misturar, antropofagicamente, inúmeras influências. Recentemente escrevi um poema sobre a rua da Moeda, reduto do rock no Recife. Aí vai:

Rua da Moeda
tapa na cara dos reaças

enquanto
o poeta reaça
na lagoa
(maranhense) carioca
realça a garça
e condena o rock

lá em recife
a turma dança
de negro (fear of the dark)
e canta contra

(quanto mofo
gullar/tinhorão
surdo ao novo
patrono do pagode
banal)

tapa na cara dos reaças:

rua da moeda
dos punks do heavy
do soco socorro
metal pernambuco
contra a paralisia mental

enquanto
um passadista
síntese da direita
do preconceito
da retro seita
brada armorial

na rua da moeda
camisetas negras
mimetizam arrecifes
contra a onda
do fácil fascio
o burro coro coreto
nacional-popular

(quanto mofo
intolerância tola
implicância ditadura
na voz do velho
ariano feito dogma
preconceito feito god)

tapa na cara dos reaças:

rua da moeda
onde rock faz mais sentido
ácido pesado e divertido
contra a nação mesmice
um louco pernambuco dadá

Recife - São Paulo,
fevereiro-abril de 2002
Luiz - Como nasceu, ou melhor, como se deu a descoberta da poesia em Frederico Barbosa?
Frederico - De início, se deu por culpa do futebol. Sou palmeirense roxo (até na Segunda Divisão!) e no começo da adolescência meu maior ídolo era, é claro, Ademir da Guia. Morava, e ainda moro, perto do Parque Antártica, onde ia sempre vê-lo jogar... Um dia, quando eu tinha uns 14 anos, meu pai me mostrou o poema que João Cabral fez para o Ademir... A partir daquele momento não conseguia mais ver o Ademir jogar sem lembrar da descrição do Cabral... Já estava contaminado com o vírus da poesia.

No final da adolescência, no entanto, eu tinha dois grandes interesses intelectuais: a poesia e a ciência. A paixão pela poesia foi se se desenvolvendo, a partir do encontro com o poema de Cabral sobre Ademir, através da leitura de poetas como Gregório de Matos, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, entre os brasileiros, e Edgar Allan Poe, T. S. Eliot, Ezra Pound, William Carlos Williams, Rimbaud, Verlaine e Mallarmé entre tantos outros estrangeiros. Formou-se também a partir do convívio, muito precoce e sempre atento, com poetas como Augusto e Haroldo de Campos, Antonio Risério e Sebastião Uchoa Leite, entre outros.

Durante os anos de colegial, no final da década de 70, em meio à agitação cultural e política que marcaram o Colégio Equipe, em São Paulo, três professores foram fundamentais para fomentar minha vontade e meu vício de escrever poesia: José Luiz Beraldo, com seu rigor na análise cuidadosa dos fenômenos lingüísticos, Aguinaldo José Gonçalves, com suas leituras ricas, entusiasmadas e iluminadoras dos mais diversos poemas, e Gilson Rampazzo, professor de redação que, com suas posições firmes, instigava a discussão e me estimulava a escrever mais e mais, até mesmo, muitas vezes, com o intuito de me contrapor a suas idéias sobre o fazer poético.

No momento de escolher uma “carreira”, no entanto, a ciência me pareceu, de início, mais sedutora. Ingressei, aos 17 anos, no curso de graduação do Instituto de Física na Universidade de São Paulo. Logo percebi, porém, que o meu fascínio com a Física se dirigia mais para o estudo da filosofia da ciência e não para a Física tão abstrata e matemática que se ministrava, naquela época, ao menos, na faculdade.

Também não demorou muito para que eu percebesse o óbvio: tratava-se, acima de tudo, de uma fuga da poesia, que eu continuava a escrever, mesmo durante as maçantes aulas de Física, Química e Matemática. Datam dessa época os primeiros poemas que julguei dignos de publicação e que chamaram a atenção de críticos como Boris Schnaiderman e Haroldo de Campos, que, ao publicarem esses poemas em revistas, muito me incentivaram a trocar definitivamente a ciência pela poesia.

Assim, em 1982, iniciei os cursos de Português e Grego na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da mesma universidade. No ano seguinte, comecei a ensinar Literatura e Língua no Colégio Equipe, onde aprendi a ensinar procurando plantar sempre nas crianças e nos adolescentes o amor pela leitura e pela redação de poesia. É o que procuro fazer, a duras penas, até hoje, mesmo ensinando em um cursinho.
Luiz - Como é a relação entre o poeta, o crítico e o professor?
Frederico- É tudo uma coisa só, não? Acho que as três atividades precisam se exercidas com paixão e rigor. É o que procuro fazer.
Luiz - Como se revela a experiência do professor na confirmação ou na satisfação do poeta e do crítico?
Frederico - É difícil separar as coisas… Só que é muito interessante ver como muitos alunos que tive ficaram interessados em escrever e principalmente em ler poesia... Talvez isso seja fruto da paixão que procuro lhes passar.
Luiz - A crítica seria a base do exercício da cidadania, a atitude participante da poesia?
Frederico - Creio que todo artista tem o dever de refletir sobre sua arte. Nesse sentido não é possível um poeta ser “acrítico”, todos os verdadeiros poetas são, mesmo que não escrevam ensaios, “críticos”. Um artista acrítico não tem qualquer valor, assim como é lamentável que qualquer ser humano seja inconsciente, alienado e conformista.

Quanto à militância da crítica literária, a coisa já é bem mais complicada. Entre 1988 e 1990 procurei desenvolver, exercendo a função de crítico literário dos jornais Jornal da Tarde e Folha de S. Paulo, um trabalho de cunho absolutamente profissional. Jamais ia às redações e dificilmente conhecia os autores que resenhava. Apenas recebia os livros (em algumas épocas, um por semana), lia-os e os resenhava com toda a isenção possível.

Acredito, ainda hoje, que é assim que um resenhista profissional deve praticar o seu ofício: elogiando ou criticando um livro de acordo apenas com sua leitura, conceitos, ou mesmo convicções. No entanto, com o decorrer dos anos, tornou-se completamente impossível proceder dessa forma. A politicagem, os interesses pessoais passaram a predominar e eu via, entristecido, fecharem-se todas as possibilidades de seguir com isenção o trabalho. Passei a escrever apenas textos esporádicos somente sobre o que me interessava de fato.
Luiz - A seu ver, qual a dificuldade de absorção do público com relação à poesia contemporânea?
Frederico - A maior dificuldade, penso, está no acesso do público à literatura em, geral. Quantas livrarias há nesse país? As pessoas não estão acostumadas a ler. O público leitor de poesia é ínfimo em qualquer país, mas num país como nosso, em que as pessoas já lêem me geral muito pouco, a situação fica bem mais complicada. Creio que devemos encontrar soluções criativas para levar a literatura às pessoas.

Trabalhei, durante um tempo, com livros que foram vendidos em banca de jornal. Foi um sucesso inimaginável. Fui consultor e redator do volume Help! - Literatura, publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo, com assombrosas tiragens de 1 milhão de exemplares, e consultor técnico das coleções "Ler é Aprender" (O Estado de S. Paulo), "Livros" (O Globo, Rio de Janeiro) e "Biblioteca ZH" (Zero Hora, Porto Alegre). Além de orientar as publicações, organizei, para essas coleções, vendidas em bancas de jornal a preço sempre inferior a três reais, vários volumes, entre eles, a coletânea Clássicos da Poesia Brasileira, os Poemas Escolhidos de Fernando Pessoa, Os Sonetos de Camões e os Contos Escolhidos de Artur Azevedo, além de assinar diversos dos estudos que acompanham as obras. Muito me empenhei nesse trabalho, já que possibilitou a milhões de brasileiros um primeiro contato com o melhor da literatura luso-brasileira. Para que você tenha uma idéia, só a coletânea Clássicos da Poesia Brasileira vendeu, nas várias edições que teve, cerca de 1 milhão de exemplares...
Luiz - Você fala de inventividade. Depois de todas as vanguardas, como você identifica as possibilidades de invenção?
Frederico - Invenção é tudo na arte. Dizer que a invenção está acabada é como dizer que História morreu... Balela. As vanguardas não foram o único momento inventivo na arte. Homero é um poeta de invenção, assim como Ésquilo, Sófocles... Não consigo conceber um poeta que se sente para escrever um poema “velho”. Ele sempre há de querer dizer algo novo, de maneira nova. Ou não será poeta... E há muitos “não poetas” por aí que se dizem “poetas pós-modernos”.
Luiz - A Internet tem possibilitado um caminho para a divulgação da poesia? Isto tem proporcionado uma descoberta de novos valores? Tem levado a uma maior assimilação do discurso poético por parte do público?
Frederico - Eu escrevi há alguns anos (está no meu site) o seguinte:

“A Internet é o mais democrático meio de divulgação de poesia já criado. Talvez seja a saída para que os poetas se libertem de uma indústria editorial muito mais preocupada com os resultados comerciais imediatos do que com a qualidade e, desde sempre, refratária à poesia. Assim, têm aparecido, nos últimos anos, inumeráveis sites de poesia e literatura na rede. Se, por um lado, isso é muito rico e pode ajudar a despertar um potencial público leitor, por outro lado dificulta a busca, tornando difícil encontrar poemas de real valor, principalmente para quem se está iniciando nas artes poéticas.”

Continuo acreditando nisso. Escrevi essas palavras quando criei o meu site, em 1999. Desde então, já tive mais de 75 mil visitantes no site dedicado à minha poesia e mais de 400 mil no dedicado a estudos de obras literárias. é assombroso. Só o meu livro mais recente, Cantar de Amor entre os Escombros, já teve mais de 8 mil visitas.

Como eu navego batante, já descobri muitos novos valores na rede sim. Alguns deles foram Micheliny Verunschki, de Arcoverde, PE, Lau Siqueira, gaúcho que mora em João Pessoa, Rodrigo de Souza Leão, do Rio de Janeiro, Greta Benitez, de Curitiba, Ronald Augusto, de Porto Alegre, etc.

Quanto a levar “a uma maior assimilação do discurso poético por parte do público”, como você o coloca, acho que ainda é muito cedo para avaliar... Espero que sim.
Luiz - Em um dos poemas do seu Oco sem beiras - Anatomia da Depressão, você traz: "Entre a expressão (banal) e a invenção (genial) fico com a impressão. Invento no leitor a impressão do horror. Imprima-se". Seria a sua contestação?
Frederico - Seria mais uma posição. Tenho horror à poesia “de expressão”, confessional, verborrágica: banal. Tenho enorme admiração pela poesia “de invenção”: genial. Mas busco, com o meu trabalho poético, a “impressão”. Aquilo que os gregos chamavam de “páthos”: imprimir no leitor uma marca forte, “o meu horror”.
Luiz - Como você define seu trabalho?
Frederico - Um rarefato louco no oco sem beiras, nada feito nada contracorrente. Em suma, cantar de amor entre os escombros.
Luiz - Que avaliação você faz do Rarefato até o Cantar de Amor entre os Escombros?
Frederico - São cinco livros de poesia... Com poemas que foram escritos entre 1978 e 2002: 24 anos! Difícil falar, não? Só dá para dizer que, ao contrário de muitos poetas que procuram esconder o seu passado, eu não me arrependo de ter publicado nenhum dos poemas. Acho que isso já diz muito.
Luiz - Como é passar de uma antologia da poesia clássica brasileira e, depois, partir para uma seleção da poesia de invenção no Brasil?
Frederico - São dois trabalhos totalmente diferentes. A antologia Cinco Séculos de Poesia reúne poemas anteriores ao modernismo, de 21 poetas absolutamente consagrados... Já Na Virada do século – Poesia de Invenção no Brasil reúne o que de mais significativo nós (eu e o Cláudio Daniel) conhecíamos da poesia produzida no Brasil a partir dos anos 90. É sempre mais arriscado e sei que cometemos algumas injustiças, até por que já descobrimos alguns autores que desconhecíamos na época em que fizemos a antologia. E se “viver é perigoso”, lidar com gente viva também o é. Mas “poesia é risco”...
Luiz - A seu ver, que nomes novos têm se destacado nessa poesia de invenção?
Frederico - Há muita coisa boa sendo produzida por aí. Mesmo correndo o risco de esquecer alguém, eu diria que os que me vêm à mente no momento são Amador Ribeiro Neto, Lau Siqueira, Micheliny Verunschki, Cláudio Daniel, Fabiano Calixto, Joca Reiners Terron, Paulo César de Carvalho, Jorge Padilha, André Ricardo Aguiar, Rodrigo de Souza Leão e muitos outros que são tão pouco conhecidos...
Luiz - Falemos agora da Coleção Alguidar: quais os propósitos dessa coleção?
Frederico - A iniciativa de organizar a Coleção Alguidar é mais uma tentativa de criar canais de comunicação entre os poetas e o público leitor potencial, que sempre tenho insistido em procurar acordar para a poesia.
A coleção, que será distribuida no Brasil e em Portugal, foi criada para apresentar ao público obras de poesia ou prosa inventiva de autores brasileiros e portugueses contemporâneos. Publicando autores já consagrados, ou inéditos de qualidade, tem como norma a exigência e o rigor. Busca revelar o vigor de uma literatura feita com inteligência, fornecendo ao público leitor da língua portuguesa o “biscoito fino” que ele merece. Procura seguir à risca o ensinamento dos versos de João Cabral de Melo Neto que lhe inspiraram o nome:

“Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.”

Tivemos a honra de publicar, como primeiro número da coleção, o livro A Regra Secreta, de Sebastião Uchoa Leite, que considero um dos maiores poetas que o Brasil já teve. Publicamos também o meu livro, Cantar de Amor entre os Escombros e já temos acertada a publicação dos livros de estréia de Micheliny Verunschki e de Paulo César de Carvalho. Esperamos publicar 2 ou 3 livros por semestre. Espero que dê certo, para que possamos publicar livros destes poetas todos que já citei e de outros que venham a aparecer.
Luiz - Para quem está se iniciando na trilha da poesia, o que o poeta, o crítico e o professor Frederico Barbosa teria a dizer?
Frederico - Caráter e coragem! E desconfie sempre dos caminhos fáceis. Evite a politicagem e lute sempre pelos seus princípios. Assim, certamente você não há de se “dar bem” e levará muita porrada. Mas só assim você talvez se torne um escritor significativo.

Entrevista concedida em 2009 para o Guia de Poesia.