quinta-feira, julho 28, 2022

MONÓSTICOS ENTREOUTROS POEMAS, DE VITAL CORRÊA DE ARAÚJO

 

 

POEMINTUIÇÃO, OU UMA SARAIVADA DE MONÓSTICOS NA NORMOSE DANTANHO E DAGORA

  

Luiz Alberto Machado

 

Desde menino lá estava eu olhos vidrados no meio da feira dos sábados – prestava atenção ao improvisado das glosas nos motes dados aos repentistas e emboladores. Não fosse minha mãe me arrastar pelas orelhas, ali ficaria de esquecer tudo: era para carregar o peso das sacolas de compras, não para ficar entretido gastando as vistas, aboletado nas visões e de braços cruzados. Foi.

Aí, xexéu da cara lisa, imitava o que via e ouvia, sapecando umas quadrinhas infantis que findaram publicadas, pela iniciativa da saudosa professora do primário, Hilda Galindo Corrêa, no suplemento Júnior, do Diário de Pernambuco, editado pelo memorável jornalista Fernando Spencer. Ah, foi o bastante para me achar poeta de cetro e coroa. E era só um menino da beira do rio, avalie.

Foi só um começo, pois ao chegar aos quase 10 anos de idade, santa inocência: enchia o peito por bater o centro na atividade laboral de copista no registro de sentenças prolatadas pelo Juiz da Comarca, juntando o palavreado para mais versejar. Era como se tivesse achado uma botija, logo me agarrando aos dicionários e enciclopédias. A coisa estava ficando séria e, achando pouco, ainda agarrava uma viola de 10 cordas e me danava a compor umas modas estouvadas. Pronto! Agora era o sabiá da parada! Teria êxito nessa empreitada não fosse um irrisório detalhe: não sabia nem acordes nem cantar, tocava assim mesmo, de qualquer jeito, na intuição: telengotengo, larará.

Lá ia eu e o tempo foi passando. Como era tão desajeitado, a minha arte perturbava a paciência alheia: os meus esgoelados das tripas coração levou a uma medida coercitiva – infelizmente meu pai botou os pingos nos iis e tomou uma providência que quase deu certo: deu um puxavanque na viola e sacudiu na caixa dos meus peitos o Tratado de versificação, do Olavo Bilac & Guimarães Passos, com uma recomendação: Tome, aprenda direito! Assim foi, dia sim, outro também, lá vinha ele conferir: coçava o cocuruto e explicava tudo de novo.

Como eu misturava demais as coisas, deu-me, depois, o livro do Amorim Carvalho; também a Teoria do verso, do Rogério Chociay; mais uma Antologia dos Cantadores de Francisco Linhares e Otacílio Batista, e até Violeiros e cantadores, do Câmara Cascudo. Agora sim, era para aprender de mesmo. E finquei pé enrolado com hemistíquios, anaspésticos, aliterações, assonâncias, escansões.

A coisa parecia que ia, de fato. Tanto é que lá pelos 12 ou 13 anos de idade, por aí, entre uns e outros versos tresloucados, sapequei uns estrofados robustos e, entre eles, um que, à época, me deu a maior empáfia e cujo título era Fotogenia enfática de um mentecapto alógico. Repara só o desatino. Mais pavoneado fiquei porque foi mais tarde integralmente publicado no jornalzinho do Grêmio Cultural Castro Alves, do Colégio Diocesano, e, também, exposto pela professora Jessiva Oliveira, no mural da Biblioteca Municipal. Taí, pense num cabra pabo!

A rebuscada toda virou mania e refletiu nas escrevinhações posteriores e nas duas dúzias de músicas que fiz com o parceiro Fernandinho Melo Filho. As músicas eram ótimas, graças ao talento do parceiro, mas as letras – vôte! -, era cada caprichada parnasiana que, ao serem espremidas, só davam pechisbeques. E para encurtar a história: meus versos só serviam mesmo para mangação e pilhérias na cara pelos outros pariceiros, ou pelas costas depois de muita corda. Tinha que ter um limite: ou aprumasse cavoucando o talento, ou partisse para outra.

Persistia e toda verborragia adolescente não resistiu à leitura de Maiakovsky: Poeta é quem cria regras poéticas! E ele, que se considerava uma Nuvem de Calças, dizia mais no seu Como fazer versos: As regras não existem. Eita! Não entendia. E ficou mais embaralhado quando botei as vistas na Essência da Poesia do Eliot: A tarefa do poeta é levar a efeito uma revolução na linguagem. Pronto. E agora? Não adiantaram as leituras dos manuais de prosódia e califasia, dicionários de acordes, tomos poéticos como os de Jean Cohen, Delas & Filliolet, nem tratado de versificação que fosse: não levava jeito mesmo – muito embora insistisse publicando uns livrinhos com meus experimentos poéticos.

Por conta do desarrazoado, sempre me vi um poetastro, um poeta d’água doce. Salvei-me por ser um bom leitor. Vamos lá.

Pois bem.

O que estou querendo dizer de fato é que em todos os Tratados de Versificação o que se considerava era o metro, o ritmo e a rima, para saber que a poesia é a utilização da linguagem humana para fins estéticos. E os versos, também chamados de pé na versificação latina, ou de linha em outros compêndios, em conformidade com a contagem das sílabas podiam ser monossilábicos (como aquela Serenata Sintética do Cassiano Ricardo: Rua / torta. / Lua / morta. / Tua / porta), passando por redondilhas, até dodecassílabos e alexandrinos bárbaros. Também os regulares que podiam ser brancos, polimétricos e livres, por meio de rimas toantes e consoantes, agudas, graves ou esdrúxulas; rica ou pobre; internas e externas, cruzadas, emparelhadas, interpoladas, misturadas. Quanto às estrofes, contam os versos desde dísticos até décimas, com refrões, oitavas e outras tais. E os monósticos? Bem, esses são poemas de uma única estrofe, um único verso. Historicamente estão registrados como tendo surgido lá na mais remota antiguidade, usados nas inscrições como epitáfios nas tumbas e, depois, transformaram-se em epigramas, o que já é outra coisa. Onde tais monósticos? Vi em um ou outro da arquitetural poética do estadunidense E. E. Cummings, na radicalidade da Poesia Pau-Brasil de Oswald de Andrade, nos cleks do saudoso poeta Eno Teodoro Wanke, ou num ou noutro cometimento dos poetas das gerações brasileiras das décadas de 1960/70, como a Práxis de Chamie, a Tropicália e a Marginal.

Diante da pesquisada toda, o que ficou patenteado é que o Vital Corrêa de Araújo - pelo menos no meu modesto entendimento e salvo quaisquer futuras contestações -, é o autor que assumiu, inventou – pois o que era estrofe passou a ser poema - e mais produziu monósticos. Digo e provo. Tanto é que, nesta obra, selecionei, reuni e organizei os poemas dele por partes: primeiro, os Monósticos, em que fica demonstrado o poder de síntese do autor. Entre os tantos de bom calibre, destaco este: Melhor infinito silêncio que blasfêmia da má poesia. Outro que merece menção exemplar: Débeis ou ébrias sílabas convoco para arrimo de verso. Mais um: De sombras ainda inacabadas o poema. Tem mais, muito mais, todos com a sua marca de ousadia e competência. Há ainda para mencionar que nestes poemas estão grandiosas ideias rizomáticas com todas as suas extensões, camadas e dobras, expressando a capacidade de compreensão e interpretação plural do autor a respeito de tudo que está ao seu redor. É só um verso. Ou seja, uma estrofe. Melhor dizendo: um poema de único verso que traz subjacente uma rede múltipla de significações.

A segunda parte deste volume reúne os poemas de O futuro não é assírio, no qual uma experimental poética já se expressa nos primeiros versos do poema Assíria palavra: Reduzí povos a desertos / sarças a cinzas de luz / nações a pó / sopros a esgoto / almas a lama / deuses a gusa / uivos a silêncio úmido / palavras a greda /ouro a ganga pura. Todos os poemas desta parte estão emoldurados com a verve iconoclasta do autor, a exemplo da última estrofe do poema Abominação de Menassés (eis a dor de ser vão): Eis fruto da escolha de Deus / sina de escombro branco / restos de sátiros decapitados / incomensuráveis cacos do vaso eleito / eis margem úmida que se apaga com erro.

Na terceira parte estão os Poemoutros com poemas autoantropofágicos, inversos, imprevisíveis, inacabados, indadivosos, a destempos, ao inclemente leitor, necessário e com dísticos, uni-versos (estes quase todo compostos por outros monósticos), divergentes divagações, avulsos e notas devolutas: Após tudo que nos desacontecem (desacatem) / Fervorosamente espera o brasileiro pelo memento mori cósmico. / (Última e viável alternativa nossa). Também o libertário canto do “Poema não é o que diga poeta mas como disse”: Poema. Forma de nomear sem dizer. / Poema: forma de dar nome a dados da inconsciência. / Quanto mais insensata, melhor denominação. / Dê azo, nunca asas, à rima. / Livre-se de versos presos. / Estrofe pode ser jaula, rima amaina. / Satisfação fecal, bônus à criatura. / Chama farmacêutico. / Mal são.

Na quarta parte estão as Prosas Vitais, nas quais saliento inicialmente os Aconselhos, com este trecho distinguido: Abra ao acaso, pois são poemas todos ditados pelo cru acaso. A página do poema iniciado na folha anterior, leia. E nas Últimas líricas notícias, ele: Por tudo jaz num fluir de aguas do Rio Heráclito. É neste momento que ele define as linhas ilimítrofes da sua Poesia Absoluta (PA).

Por fim, a parte denominada de Palavroutras, reunindo textos críticos escritos por Sébastien Joachim, Maria de Lourdes Hortas, Hildeberto Barbosa Filho e Cláudio Veras, que se debruçaram e teceram considerações relevantes acerca do universo poético do autor.

Agora, sim.

Neste livro o autor expõe a sua voz ditada pela intuição (e pelo inconsciente, mais apropriadamente) experimentando o aleatório das ideias em todas as direções e momentos: decodifica o seu tempo e o agoramanhã. E o faz como quem chuta o pau da barraca: soltando as rédeas para emersão da ilógica interioridade com as aparentemente erráticas emoções superiores extasiantes. Na verdade sua poesia transcende o lógico e a taxonômica barreira do visível conformista e conservador, numa atitude livre de quem rompe todos os limites e regras, pelo fio da navalha na anárquica antilírica e randômica versagem, entre memórias de nenhum enredo.

O fenômeno literário da PA de VCA orbita a espontaneidade porque parece vinda da alma para fazer a ponte entre o que é de dentro e o que é de fora: a arte - a inexplicável centelha divina. Dela frui o poeta inquietantemente apaixonado pela vida: sim, paixão de quem respira, toma fôlego e expira o que vier e de roldão (como se o poeta psicografasse performático com a força superior de Nietzsche: a emissão poética instigante por faíscas e relâmpagos incontáveis). Porquanto pareça inexplicável, não se pode ignorar a PA - sobretudo nestes tempos escatológicos de barbárie e distopias, normose e podridão.

Com este livro o leitor terá a oportunidade de conhecer o experimentalismo do autor e a sua poesia anticonvencional por excelência: uma macroestrutura poemática singular.

  


MONÓSTICOS DE CARBONO

  

Herói: jamais feliz, só falaz.

 

Por que Deus haveria de não existir?

 

O que havia antes de Deus?

 

Fértil decadência brasileira.

 

Auroras trevas gestão. (No Brasil).

 

Sagrado corpo do espirito.

 

Pilha de incertezas. Bem brasileiras.

 

Não tema nova poesia.

 

O perigo na antiga mora.

 

Terra plana. Céu chato.

 

Até da certeza do axioma. Se duvida.

 

Todos os ácidos mais saborosos instauro.

 

É apenas um pronome tu. Eu sou vital.

 

Hiatos de sotaina. Párocos de amiantos azul.

 

O Instinto da morte nesse instante vive.

 

Rumor de rimas não houve ainda.

 

Ouvido que o capte. E decapite.

 

Lâmpada sepultada na cova escura da vida.

 

No cofre, usuras conquistadas. Só quistos.

 

Portos sepultos.

 

Estava na praça onde ovação urrava.

 

Estou a molhar-me de sol.

 

Nuvens parecem-me súbitos cones de fumaça.

 

Todos viemos do vértice do sal. Seu ventre.

 

Sobre relva, urdem o amanhecer. Sombras.

 

Algum, qualquer amanhecer. Vital.

 

 

O FUTURO NÃO É ASSÍRIO

  

Isaías, filho de Amós, orou ao Senhor

prédicas vazaram do seu coração altivo

voaram de sua garganta diatribes duras

perorou ao Senhor dos Exércitos metafísicos

aos comboios angélicos perorou.

Isaías lançou insultos aos soberanos

e o Senhor gostou, riu das lamúrias dos ímpios

gargalhadas de Javé vararam céus

tornaram-se lendas cósmicas.

A prece (trapo de esperança, súplica de prata)

que Ezequias fecundou Isaías conduziu

aos puros e fortes ouvidos do Senhor

oiças que reluziam como luz derramando-se

da assembleia das estrelas (bacia sublevada

de galáxias), magote de brilhos das sendas de Deus

arremessado no coração escuro do homem).

 

Javé na rédea dos exércitos da redenção

(cavalos do futuro disparados nas haras do Senhor)

respondendo a rebanho de dúvidas disse

ouro, especiarias, montes de mirra, vastas cideiras

aloés arguto, azeites finos te esperam

povo eleito do Senhor ungido de Sua glória inteira

e futuro farto de alegria, doçura, centeio, abelha, alfaces te espera.

(Enquanto o Senhor em teus olhos morar).

 

Prédicas de ira, aljava de concílios, buquês de relâmpagos

e coivara sem trégua, catervas de cólera, coleira de estrelas

foram atiradas da boca e dos olhos do Senhor

contra pérfidos incréus heréticos senhores blasfemos

(que vorazes adjetivos não hão de qualificar)

que não mais provarão delícias da terra

que não mais proverá sua sede viva.

  


NOTAS DEVOLUTAS

  

Lixo compósito e opulento vigia

Asquerosa riqueza dos homens mínimos

Acomodados a histéricas prosperidades...

 

Tudo isso enquanto cinzas bebam nuvens.

 

Muitos alguéns entre nós (tristes brasileiros)

Piamente acreditam que o estilo pictórico dos impressionistas

Se deve ao mistério produzido pelos olhos degenerados dos pintores.

 

Após tudo que nos desacontecem (desacatem)

Fervorosamente espera o brasileiro pelo memento mori cósmico.

(Última e viável alternativa nossa).

 

II

 

Vidro enevoado pelo sal

Vermelhos desejos encarniçando-se

Entre nonagenários pedregulhos.

 

Acordou de costas para o alvorecer

A discernir tênue no endiabrado fulgor

A afagar o litoral em esplendor.

 

Metálica litania ouvia-se

A lírico paraíso da palavra voltada

Como se o início do tempo continuasse.

 

Víboras adereçavam o monumento

Onde estátuas volúveis repousavam

Bustos enegrecidos de circunstancias.

 

Ensanguentadas aleluias debruçadas

Sobre gases e tombadilhos

À luz de neons enternecidos.

 

III

 

À espreita da lua vaga

A deitar-se no mar

Em sal crescente a amar.

 

Lençol esvoaçando

Como nuvem de verão

Anúncios do crepúsculo a deslisar.

 

Xale tricotado de azul

Pignoir de anjo anunciado

Por trás do poente aninhado.

 

E foi-se com martelo à mão esquecida

Dos olhos afiados como foice

A penetrar horizonte de eventos.

 

Barco abarrotado

De peças de lingerie de seda

Para anhos atrevidos (e naftalinas).

 

Arcas de tesouro enterrado nas lembranças

Em meio a lodaçais e febres úmidas

Pântanos e à deriva dos sutis instantes.

 


ACONSELHOS

 

 

Caso alguém, algum dia (ou noite) talvez

Abra livro meu da tal (e contaminante)

Poesia absoluta, duas hipóteses:

 

1 Caso folheio – o ao acaso e se depare com algo cáustico em palavras, e pense: o que disso é isso... não se culpe, de imediato, quase automático e precisamente feche-o, e tudo voltará em paz a seu (tolo) espírito.

 

2 Caso decida ler ( o que é muito nem improvável, mesmo impossível), nunca comece jamais pelo começo (o que todo mundo, os 9, 10 bilhões de seres vagando por aí, faz.

Menos eu e agora você.

Abra ao acaso, pois são poemas todos ditados pelo cru acaso. A página do poema iniciado na folha anterior, leia.

Como é poema absoluto não fará diferença.

Inclusive, eu mesmo, quando consigo a necessária coragem para me ler algo que procriei, sempre leio do fim de cada poema para o começo, pois facilita mais o entendê-lo.

Também é de bom tom nunca terminar a leitura dum poema meu, pois, para mim, cada poema (dos quase ou mais de 5 mil que engendrei) é (está, será sempre) inacabado... e inacabável.

Então, má leitura, engasgue sua mente, gaste sua preciosa energia neural... e cure-se, pois ler VCA cura AVC e cerca de 87 doenças.

 


MONÓSTICOS ENTREOUTROS POEMAS – Poemas extraídos da obra Monósticos entroutros poemas (Criaart, 2022), do escritor, jornalista, advogado, professor, conferencista e tradutor Vital Corrêa de Araújo, que é composto pelo prefácio LAM (capa e ilustrações) Poemintuição, ou uma saraivada de monósticos na normose dantanho e dagora, mais uma seleção de monósticos, Poemas Vitais e Palavroutras com Sébastian Joachin, Maria de Lourdes Hortas, Hildeberto Barbosa Filho e Carlos Veras. Veja mais aqui, aqui e aqui.


 


A HISTÓRIA DE MIM, DE GRAÇA LINS

 

 

A HISTÓRIA DE MIM, DE GRAÇA LINS – É um relato meio real/meio ficção da escritora Graça Lins, sobre o Golpe de 1964, em Palmares. Este relato é oriundo de um conto da escritora e foi premiado com a publicação em um Caderno Especial do Jornal do Commércio. Veja mais dela aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 



LÍRICA CHACINÁRIA DE VITAL CORRÊA DE ARAÚJO

 

 

A PALAVRA CALADA QUANDO ESBORRA DE DENTRO É CANTO

 

 

Luiz Alberto Machado

 

 

Uma coisa: ao ler Perls pela primeira vez escarafunchei. Sim. Estava eu um tanto dividido com os equívocos que todos fizemos da interpretação socrática, ou seja, claudicando entre razão-emoção e, ainda por cima, enxergando um planeta igualmente separado pelo que se convencionou por ocidente-oriente. Era como se visualizasse o planeta com o seu corpus callosum amputado. Sim, aquele corpo que é formado por fibras e que está localizado no fundo da fissura sagital, ou inter-hemisférica, associando os dois hemisférios cerebrais; e que penetra áreas simétricas do córtex de cada um deles, com a função de transferir informações de um para o outro, permitindo, portanto, os resultados do trabalho diverso. Por conta disso, trata-se de uma estrutura cerebral que é própria dos mamíferos e que funciona como se fosse uma ponte desempenhando importante papel nas funções psíquicas gnósicas e da fala. Uma vez lesionado o corpo caloso evidencia falha mental geral, acarretando na maioria das vezes alterações psíquicas, perturbações de pensamento, alterações do tônus, desinteresse com o mundo exterior, entre outros sintomas, em conformidade com a literatura neurocientífica. Se, porventura, tiver de ocorrer uma intervenção cirúrgica, o procedimento interrompe a troca de informações entre os dois hemisférios cerebrais, desencadeando a síndrome de desconexão inter-hemisférica. Ou seja, aquele que tem lesionado ou retirado o corpo caloso pode se tornar incapaz de se comunicar, uma vez que as atividades psicomotoras ocorrem por conta da interação entre ambos os hemisférios, a exemplo de tocar algo (o direito) e falar o nome identificando-o (o esquerdo). Inclusive, a agenesia, ou seja, a sua ausência, está associada com aproximadamente 25 síndromes genéticas, erros inatos e metabolismo. Uma desconexão inter-hemisférica (DI) traz notórios prejuízos nas funções psíquicas, de linguagem, de apraxia e gnosia. Pois é. Foi assim que enxerguei o planeta com a dicotomia Ocidente-Oriente, naquela época. Tudo isso acrescido ao bombardeio de situações maniqueístas no discernimento já fragmentado por toda sorte de modas e ideologias especializadas e em detrimento das generalizações.

Graças ao criador da Gestalt terapia, estive dentro e fora da lata de lixo: escrevi tudo que queria que fosse escrito. Vali-me, tal como ele e seus colaboradores, das leituras que fizera de Smuts, Kierkegaard, Buber e outros. Ou seja: um retorno às origens a partir da alteridade, da transcendência do cotidiano e do balanço existencial. Em suma: limpei a minha chaminé. E tudo ocorreu com certa facilidade, vez que as ideias do autor em questão também havia sido influenciado pelo Zeitgeist de então: a Contracultura, a Bauhaus, o Teatro Expressionista de Max Reinhardt e o movimento hippie. Quanta coincidência! E isso era como se eu estivesse batendo o mais solto papo legal com um amigo ao lado. Tanto que era como se Perls cochichasse confidenciando ao meu ouvido: "É lindo ver como escrever ajuda! Eu havia tentado fazer da psicanálise o meu lar espiritual, a minha religião". Oxe! Aí eu metia o verbo e tome garatuja para cima, nada mais incentivador.

Coincidentemente, o encontro com a obra dele se deu justo quando eu havia concluído um estudo de Laurence Bardin: a análise de conteúdo procura compreender aquilo que está por trás das palavras às quais se debruça. Além disso, havia o alerta de Erich Fromm no pé do maluvido: Quer se estude a sociedade ou os indivíduos, sempre se está lidando com seres humanos, e isso quer dizer que se lida com motivações inconscientes deles; não se pode separar o homem como indivíduo do homem como participante social – e, se a gente o faz, acaba não entendendo nenhum. E não deu outra, fui de cara com Allan W. Watts: a psicoterapia oriental e ocidental. Foi aí que juntei cada hemisfério na ideia e os reatei, assim é que deveria ficar para poder então dizer: uma Terra só. Com isso, aprendia a diferença entre entender (latim intendo, como estender, pretender, estar atento), e compreender (do latim comprehendo, conter em si, abranger, encerrar, conter, entender, perceber), quando o segundo é um processo psicológico e que, conforme a taxonomia de Bloom, é uma das habilidades do domínio cognitivo que solicitam a interpretação de um contexto, ou imprimem, a ele, um significado. Tudo isso, acima de tudo, bem clarificado com as leituras de O mistério da compreensão, de Krishnamurti. Em suma, pelo menos parecia que havia mesmo aprendido com a faxina de ter que regularmente limpar a minha chaminé. Tá. E o que tem a ver o procto com os fundilhos das calças? Explico – vá juntando os cacos de doidices que vai dar num quebra-cabeça quiçá interessante. Ou não. Vamos lá.

Foi justamente por essa época – pelo início dos anos 1980 -, que li pela primeira vez o poema A palavra calada, do então recém-lançado livro Burocracial (Pirata, 1982), de VCA. Justo na ocasião em que estava eu às voltas com acordes e solfejos sobre o poema A lavra da vida, do também poetamigo Jaci Bezerra. Por conta disso esqueci o poema de VCA e musiquei o poema do Jaci.

Passou o tempo e só agora reencontrei o poema: desfibra a palavra quando cala / quando o caule da árvore da fala / que é vento verbo e alicerce / anoitece / quando as seivas todas são sugadas / e o trêmulo das folhas proibido / quando os discursos são lacrados / dentro das praças sitiadas / e o som negado aos ouvidos / e o grito cortado na garganta / e o medo aberto no meio abrupto do dia / desfibra a palavra quando a árvore da fala / e os frutos dos gritos são demolidos / pelos silêncios vivos. E era como se vivesse agora o igualmente vivido naquela época, sem tirar nem pôr.

Desta feita, não passei batido: peguei o violão na coxa, danei os dedos e pei: lá, ré, sol... E pá: fusas, colcheias, a goela seca e um gole, teibei: musiquei na hora. Pronto. Corri e mostrei ao VCA no gravador: laralilará. Ele se espantou e deu uma mexida pegando algo e me entregou – de novo- outro saco com um tanto de manuscritos que penei para lê-los. Li e tive que comer bosta de cigano e merda do garrote Jauaraicica para adivinhar os garranchos. Deu trabalho, mas como fui copista cartorário desde menino, decifrei tudo, juntei, selecionei, ordenei e, por fim, o resultado? Organizei, aí está: Líricas Chacinárias. Isto mesmo, a me certificar: uma voz, uma literatura. Só não previa que teria que prefaciar o volume – lá estava eu de novo e sempre na minha falta de categoria: ter de apresentar aquele que é mais famoso do que eu. Como é que pode? Destá.

Tentando cumprir a minha parte, aqui declaro: o título logo me trouxe todas as supostas chacinas contra excluídos, vulneráveis e hipossuficientes, um genocídio programado a ditar dissensões com o azedume da defecção tão vigente e, ainda por cima, sob uma implacável pandemia.

Do outro lado, a poesia de VCA com as suas investigações líricas: A poesia cria o imprevisível, o ainda não dito, estimula o invisível patente, surpreende-nos, confunde-nos, apavora o humano, dilatando seus limites. Era ele sempre de pé e vociferando: Livre das peias dos significados precisos, óbvios ululantes, o poema amplia a significância, porque abre novos meandros e vertentes desconhecidos do entendimento. O dínamo da poesia é a expressão, não a informação, é a forma, não a mensagem pura, em si, mas a expressão, o modo particular ‘’poético’’ desta expressão. E mais com um recado em riste: Leitor, que arque com essa mediação formal, que produza uma concepção das coisas, do ser, do mundo, da vida, capaz de ir ao íntimo da mente, para desse dínamo extrair os dados que construíram o poema, será privilegiado com a captação da beleza da palavra.

Lá para frente encarei o seu poema “A mudança é nociva”: No poema, o abstrato se concretiza, posto ele não ser algo particular, porém singular encadeamento de palavras que não buscam dar sentido ao mundo ou a si, mas expressá-los. [...] Poema é algo vindo do âmago da palavra como fim (e não meio), que diz respeito ao caráter verbal do mundo concebido pelo humano. [...]. E diz tudo isso como quem sabe usar o arsenal dos meios retóricos dispostos pelo cometimento poético, muito à vontade para uso dos níveis fônicos e semânticos propostos por Dufrenne. Como se tal fosse qual Valéry no seu Je disais quelquefois à Stéphane Mallarmé: Não há sentido, não há ideia. Parecia mais quem seguisse à risca o Breton do Manifeste du Surréalisme: Para mim, não escondo, a imagem mais forte é aquela que apresenta o mais elevado grau de arbitrariedade. Esse é o VCA, singular e plural.

E este é o livro que, na primeira parte - a que dá o título ao volume -, ele traz poemas que servem de introito e interprólogos para ser e estar no nome e nas nascentes ao meio dia, meditações e o escambau, palavras que se perderam e o fez diante da morte tropical com o confessional dos velórios brasileiros, a usura e a verdade.

A segunda parte é um longo poema denominado “Cântico novo”: sou poeta atravessado da espessura dos séculos / e das amêndoas do desejo mordido / sou poeta minha clava a palavra em riste / minha fama corre tanto os rios do paraíso / nas veias do futuro íngreme do meu povo / meu verbo de sopro impregna a página do mundo / meu peito estoura, a boca se levanta... Um poema de fôlego, de quem sabe o que faz e diz.

Na terceira parte, “Poemas para azinhavre do espírito”, na qual o poema “Alma e nada (sobre o amor)”, dá o tom original do poeta: O Amor ilusão da alma. / Provisória estação da viagem para o nada. / O Amor é coisa do corpo / (não da alma)... / e mais nada.

Em seguida, os poemas reunidos sob a titularia de “Átomos & desentitulados”, entre os quais destaco o trecho: Rebanhos de água em currais de ondas / léguas líquidas anotadas do convés / incomensuráveis azuis me devorando a visão / a olhar o vê do vórtice da proa / me vi imerso no oceano de mim. Além disso com poemas realçando o vigoroso poder de síntese do poeta, distribuídos entre versos e poemas que se tornam monósticos – aliás, criação sua ao que se considerava até então como modalidade de estrofe.

Na quarta parte, Espíritoanálise: prosas vitais, em que o poeta-interator elucubra, carbura e rumina, tout a court, suas investigações poético-filosóficas: ... Eu vim do útero de Deográcia (da graça de Deus). Útero inóspito, mas vital. Vim dele. Para quê. Para quem? Afinal. Não para mim. Vim para (o) outro. Pois não sou. Sou nada (menos nada). Nada sou. Sendo. Assim. Tal útero, na data tal e eis eu. Fruto da maiêutica natural. Ou de um útero eleata, talvez. O poeta brinca com a prosa e se confirma tanto quanto.

Por fim, “Ritmos cíclicos”, reunindo apreciações e análises críticas de ninguém mais que Sébastien Joachim, Cesar Leal, Cláudio Veras, Yannick Clemon e Anônimo Lilás, nomes representativos da crítica literária.

Pronto.

Aí está mais uma obra do VCA: como eu disse, pleno. Sim, aquele que seguiu Freud: a conquista progressiva do Id e que foi além de Lacan, rumo ao inconsciente individual-coletivo junguiano. VCA está aí: enxuto, com cara de menino que vai viver uns 200 anos, oxalá, escrevendo que só, atravessando dias e noites na sua melhor tradução.

Com esta publicação um outro dado: são ao todo, ao que parece, uns 33 livros publicados de poesias, contando com os que tiveram seleção e organização do poeta e professor Admmauro Gommes, afora outros publicados com ensaios e crítica literária (eu mesmo já perdi a conta!). E, pelo jeito, tem espaço para mais, muito mais – uns 3 mil livros, ou milhões, acho. VCA é uma usina que não só provoca AVC nos normóticos, como salva todos os leitores com a proposta de Livroterapia.

O que dizer mais de Líricas Chacinárias? Ora, leia – no mínimo ocorrerão muitas sinapses neuronais; ou, no máximo ao infinito corre-se o risco mesmo é de viver. Aproveite.

 


 

SOBRE LÍRICAS CHACINÁRIAS

 

 

Chacineiro é um cara muito delicado sobretudo.

 

Tipo Hércules de gravata não borboleta.

 

Todo chacineiro é absoluto

em sua faina sangrenta elogiável.

 

Dedicado a entranhas (bovinas e humanas).

 

A humanidade da chacina é indiscutível.

 

E especialmente lírica, mutatis mutandis.

 

Este poema equivale a um tratado febril

da chacineirista arte vândala.

 

A chacinaria moderna contém

lapsos e repentes do puro sangue

a derramar-se de vísceras abertas.

 

É profissão que incita todo

o mais fundo lirismo real da vida.

 

Sua função aporta judiciosos atos íntimos

das viscerais entranhas oriundos.

 

Desse atro mas sublime oficio toda charcuteria nasce.

das salmouras do instinto.

 

Da desvascularização do carnal vazio.

 

Da salarização de dores ultrassonicas

do mais íntimo do boi obtidas.

 

Tripas e ossos das brasileiras sopas

e artificiais graxas brotam de chacinas.

 

Foices são afiados signos dessa poesia viva.

 

Que uiva bovino coração adentro.

 

Hábeis trituradores tal lirismo favorecem.

 

Aparatos de punhais facilitam

eclosão de salsichas.

 

Rotativas cortam a carne em polvilhos.

 

Elevados bordos da gamela (vaso do sangue)

movimentam o vaivém.

 

(Daí, o Rotary e a mística sanguínea).

 

 


CÂNTICO NOVO

(fragmento)

 

Uivam nômades naus e fundos marinheiros

porque foi devastada a terra

cujos solitários juncos soprastes

a ilha de Cetim foi desolada

e reduzida à cinza de uma quarta-feira seca

eivada de árvores centenárias e saudosas

tuas longas pernas eram cabos

cobertos de bosques ubertosos e enlouquecidos

cujos fêmures tanto te ornaram

teus mastros morreram corroídos de ventos.

 

Tiro fora teu nome fenício

berço do empório marinho

ninho das fortalezas do chão

que se gloriava de tua idade tamanha

cujas raízes abocanharam

três séculos antes de Cristo.

 

Mas, Tiro, já não tens cintura ou amparo.

 

O Senhor abalará teus alicerces e edifícios.

 

Tuas cidadelas serão ajoelhadas.

 

Teus estandartes morderão o pó.

 

Teu reino tremerá, irada Assíria

filha de Sídon, a vertiginosa, pecadora

esquizofrênica Assíria, louca filha de assur.

 

Tuas naus uivam do temor do Senhor.

 

Deus não se apiedará de tua longa desgraça

traidora infrutífera, cadela do beleleu.

 

Hoje somente uma meretriz sem lua

com uma cítara de ossos

canta teus destroços.

 

Teus insensatos punhos hão de perdurar na sombra.

 

Vinho amaro corroerá teu lábio.

 

Clamor de pranto cobrirá tua alegria.

(...)

 

 

PARA NÃO PERDER A ALMA

 

(DORES NÃO ADORO

MESMO QUE DUREM)

 

 

Douras pílulas

para pupila

do futuro durar.

 

(Não há fatos, há apenas interpretações)

Nietzsche

 

Encontre lugar bem lascivo do mundo.

 

Dele exile todo o lírico.

 

Aos sete sentidos dos cadáveres

dedique suas antepenúltimas noites.

 

No principio era pó, depois

a sombra do pó, no fim o pó (supõe-se).

 

Ao desaprumo do mar ofereço

estes poemas lunáticos.

 

(Sob carnal lua do Retiro do Espírito)

 


  

Doloroso amontoado de inépcias

piedade flor escatológica

rosa cúbica admoestada por espinhos vivos

acaso úmido, ontem lato, viço adormecido

algo que amortalha o ímpeto

e enluta o íntimo

 

Efeminaram-se as letras

nos requintes do foro

 

Aristocratizaram-se ideias

(excesso de sutilezas, coisas de exotismos doem)

 

Resta só cães senis último osso

de esperança na justiça divina (que seja).

 


 Assino meu nome na insônia

(com folhas de acácia e água de laranja)

olhos capitulando ao azul câmbio da luz

à névoa do sono cada vez menos

resisto

sombras sempre se insinuando

o ânimo me abandona em meio

a pântano do mar de insônia

entrego-me a trevas restauradoras

(que colho entre os sais do verbo)

e a inútil eternidade não me alcança.

 

LÍRICA CHACINÁRIA – Poemas extraídos da obra Lírica chacinária (Criaart, 2022), do escritor, jornalista, advogado, professor, conferencista e tradutor Vital Corrêa de Araújo, que é composto pelo prefácio LAM (capa e ilustrações) A palavra calada quando esborra de dentro é canto, e composto das partes Líricas Chacinárias, Cântico Novo, Poemas para azinhavre do espírito, Átomos & desentitulados, Espíritoanálise: prosas vitais, e Ritmos cíclicos com estudos e artigos de Sébastien Joachin, César Leal, Cláudio Veras, Yannick Clemon e Anônimo Lilás. Veja mais aqui e aqui.