LUIZ ALBERTO MACHADO

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sábado, julho 19, 2014

ENTREVISTA ANA TERRA


ENTREVISTA ANA TERRA - Ana Terra dispensa apresentação. Por si só o nome da poeta, compositora, escritora, produtora musical e audiovisual e integrante da Coordenação do Fórum Permanente de Música do Rio de Janeiro - FPM/RJ, e sua poesia cantada por inúmeras vozes da Música Popular Brasileira, dizem quem ela é. Sou mais um dos muitos fãs dela que, simpática e gentilmente concedeu esta entrevista pro Guia de Poesia.

LAM - Ana, antes de tudo, a pergunta de praxe: como foi e quando se deu seu encontro com a arte?  

Não sei bem. A arte da palavra escrita me seduziu antes de saber escrever. Também me interessei por desenho e pintura, mas logo vi que para mim, uma imagem não vale por mil palavras. 

LAM - Quais as influências de infância e adolescência que marcaram a sua formação artística? 

Gostava muito das letras das canções e prestava atenção nelas. A musica popular em geral me tocava. Posso citar Vinicius de Moraes como sua mais perfeita tradução. 

LAM – Agora falando da poeta autora do livro de "Letras e Canções". A poeta se realiza nas letras das canções que compõe? 

Sim, a letra de musica me permite a síntese do ser poético que me habita. 

LAM - Você tem parcerias musicais com Joyce, Milton Nasimento, Sivuca, Sueli Costa, Ivan Lins e muita gente de peso da musica brasileira, chegando a cerca de 100 composições musicais. Você faz distinção de poesia e letra, ou uma e outra são duas coisas para lá de distintas? Cada coisa em seu lugar? 

Poesia e letra são distintas, mas me considero poeta porque vivo como poeta. Essa é a minha definição, nessa letra inédita para uma música inédita de Elton Medeiros: 

Poetas
Não só as luzes da ribalta fazem o artista
O belo está mais em quem olha que na coisa vista
Poeta é quem persegue a rima
Plena de harmonia com o universo
Poeta é quem escreve o verso que virá seguir
Assim como em Olinda faz seu santo e sua crença
Assim como o ateu nos salva só por resistir
A lavadeira alva o dia
O Pelourinho toca o sonho
Que lhe pertence a cada amanhecer
Ainda que lhe sangre a mão sorri
Que nem um mangueirense segue
Amém

LAM - Depois veio sua passagem pelo universo infantil com "Histórias do céu e da terra". Conta, então, como foi que sucedeu? 

Produzi esse cd como contraponto ao lixo musical que estava sendo despejado no ouvido de nossas crianças, principalmente pela Xuxa. Mas, claro, que eu não abalei a hegemonia do mercado.
Gostaria de relançá-lo em cd já que só existe em vinil.
Escrevi as letras e convidei músicos para musicá-las.
Chamei crianças, filhos de artistas que já cantavam, Claudio Lins, Davi Moraes, Juliana Caymmi, etc e que ainda cantam. 

LAM - Depois você publicou "Estrela" a sua incursão pela prosa. Fala dessa sua experiência.  

Tenho muitos textos inéditos.
Escrevo agora “Minha arte – relato de uma aprendizagem”: 
“Minha arte - Relato da aprendizagem de uma compositora e escritora. Memórias de uma existência vivida em prosa, verso e música”.*  

Introdução

Minha Arte**

Quando é um deserto tudo é treva, luto e dor
eu desespero o amor eterno disse adeus
você me ergue fortalece e sempre faz
da minha queda um belo passo de balé
Se então é festa lavo a alma outra vez
você me enfeita com as estrelas lá do céu
não sei se rei ou se rainha
mas ao chegar tudo ilumina
e nos revela frente e verso as canções
feliz quem toca
seu mistério tudo ensina
e diz que é sorte e diz que é sina
se num dia aventurado te possui
que eu te mereça
te enriqueça faça jus
tocando forte
e docemente os corações
lembrando sempre
eu sou pequena
apenas cresço se me conduz
a toda parte
minha arte
minha luz

MINHA ARTE (1) é o título de uma parceria com a compositora maravilhosa que é Sueli Costa. Uma noite, quando me mostrava essa música no piano da casa dela, a luz de repente acabou. E ela continuou tocando. Enquanto ouvia a canção eu sentia fortemente a presença de Dolores Duran na sala. Sueli também estava especialmente emocionada. Depois conversamos sobre a vida e percebemos que para nós duas o que sempre nos salvava quando tudo dava errado era o trabalho. E talvez seja para todos que realizam uma atividade criativa. Então escrevi essa letra em homenagem ao privilégio de ser artista.  
Um livro ou um songbook com as minhas letras de música feitas depois de 1981, quando publiquei “Letras e Canções”, é uma idéia normal. Mas escrever um livro auto biográfico seria talvez egocêntrico demais pro meu gosto embora adore biografias e considere a vida de qualquer pessoa sempre interessante porque é única.  
“Minha arte – relato de uma aprendizagem” nasceu da minha participação como ouvinte de um curso de pós-graduação em Ciência da Arte do professor Julio César de Tavares. Não só eu era a única aluna artista sem carreira acadêmica como minha parca educação formal foi apenas até o 2º grau supletivo. Isso e nada é quase a mesma coisa. Sem graduação e dons intelectuais pensei que não daria conta dessa empreitada. Por insistência de uma amiga (2) que se preparava para cursar o mestrado e falava maravilhas desse professor, tomei coragem e fui. Graças a Deus! Suas aulas de sabedoria, generosidade e alegria me fortaleceram para entrar num mundo de pensamento lógico para o qual minha mente não estava treinada e nem tem muita afinidade.  
Sem tese para defender, Julio sugeriu que eu descrevesse a construção de minha própria obra artística e mais que isso, meu processo de conhecimento do mundo como uma experiência de autopoética. Poisies, poesia, em grego quer dizer criação. Organização autopoiética (3) é a definição da biologia da cognição que os cientistas chilenos, Humberto Maturana e Francisco Varella desenvolveram a partir da década de 1960, propondo que os seres vivos se caracterizam por produzirem de modo contínuo a si próprios e que essa organização é proporcionada por certas relações numa rede contínua de interações. Que diferente do que nós é ensinado, a vida não é presidida pela lei da seleção natural, a lei do mais forte, mas pela cooperação, o que Maturana mais tarde vai chamar de biologia do amor.  
Durante esses mais de trinta anos como letrista da MPB e também mais recentemente escrevendo roteiros de cinema e peças teatrais, tenho privilegiado o discurso amoroso como tema. O tão mal falado amor romântico ocupa meu coração tanto quanto as questões gerais que afetam a humanidade como um todo.  
Esse livro é um depoimento de primeira pessoa. Nele estão textos poéticos, políticos, letras de música e trechos de diário entrelaçados com as idéias de alguns pensadores que ao lado de família, amigos, parceiros e amores, de alguma forma iluminaram minha escuridão.  
*Escrito por Ana Terra em 1/03/2009. Fonte: ViaPolítica/A autora www.viapolitica.com.br 
Notas da autora
** Música de Sueli Costa
(1) Música que depois foi gravada divinamente por Jane Duboc e por Lucinha Lins.
(2) Leila B. Artista plástica
(3) “A Árvore do Conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana” de Humberto Maturana e Francisco Varella 
Talvez faça um blog para divulgá-lo, ainda não sei usar a internet direito. 

LAM - Como roteirista, você foi premiada com "Os campos de São Jorge". Fala dessa outra faceta de seu talento.  

O pensamento produz palavras e as palavras produzem imagens, deve ser assim com todo mundo.
Todos os textos são “visíveis” na subjetividade de cada um.
Cenários, figurinos, personagens são produzidos por quem escreve e por quem lê.
O cineasta Luiz Rosemberg Filho, leitor dos meus inéditos me sugeriu escrever roteiro cinematográfico e me ensinou a técnica.
Tive a sorte de ser premiada, mas infelizmente ainda não virou filme que pretendo dirigir, um dia, talvez. 

LAM - Você, ao longo dos anos, tem atuado em defesa da classe artística, chegando a assumir a direção da AMAR e, atualmente, mais uma vez representando a classe. Fala pra gente desse seu engajamento e do trabalho atual de representação da classe.  

Não acredito no sucesso individual, só no coletivo. Por isso tento melhorar as condições de trabalho dos músicos. É uma forma de retribuir por levarem meus versos onde nunca iriam se não fosse pela música.
Pretendo fazer uma boa gestão como Coordenadora de Música Popular da Funarte, indicada pela Cooperativa de Músicos do Rio de Janeiro e pelo Partido dos Trabalhadores – PT.
Fui nomeada no dia 2 de fevereiro, dia de festa no mar.
Tenho que encarar uma máquina burocrática gigantesca e equivocada, mas vou tentar até onde puder. 

LAM - Você tem uma ação múltipla de escritora, compositora, articuladora e que, além de tudo isso, ainda estudou astrologia e psicologia jungiana. Que avaliação você faz de sua trajetória artistica?  

Tenho muito interesse pelos mistérios da vida.
A arte e a ciência são veículos adequados para essa viagem. 

LAM - Quais projetos Ana Terra tem por perspectiva realizar? 

Encenar minhas peças inéditas “Os 4 Elementos”, “Mimoso Manacá” e “Amor meu grande amor”.
Filmar os longas “Os campos de São Jorge” e “JK – Caminhos do Brasil”.
Amar e trabalhar. 
Para quem quiser conhecer mais de Ana Terra acesse o sítio da poetartista

Entrevista concedida em 2009 para o Guia de Poesia.