LUIZ ALBERTO MACHADO

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sábado, julho 19, 2014

ENTREVISTA FERNANDO BRANT


FERNANDO BRANT – Conheci a poesia de Fernando Brant na voz de Milton Nascimento. Pois, foram exatamente as parcerias musicais entre ambos, a exemplo de Travessia, Maria Maria, Canção da América, dentre tantos outros sucessos da dupla, marcando as letras poéticas do compositor que embalam desde a década de 60 até hoje a alma brasileira. Também conheci sua verve poética noutras parcerias, como com Joyce, Wagner Tiso, Lô Borges, Beto Guedes, Toninho Horta, Tavinho Moura, dentre outors. Ele é mineiro de Poço de Caldas, poeta, letrista e roteirista formado em Direito pela UFMG. Já foi repórter de O Cruzeiro e é o atual presidente da União Brasileira de Compositores – UBC. Gentilmente concedeu esta entrevista exclusiva. Com vocês, Fernando Brant.

LAM: Fernando, vou começar com a pergunta de praxe: como e quando ocorreu o seu encontro com a arte?

Vivi, desde menino, cercado de música e literatura. Por influência de meus pais, de meu irmão mais velho, de colegas e do colégio. Crescendo, fui me envolvendo com tudo que se referisse às artes, estimulado pelo que o cinema, o teatro, os livros e a música iam me proporcionando. Sou filho de uma escola pública, no tempo em que escola pública era o que havia de melhor.

LAM - Quais influências marcaram na sua infância e adolescência contribuindo para sua formação?

Na infância, o que ouvia no rádio, principalmente a Rádio Nacional, que tinha muita música e novelas tipo “ Jerônimo” e “ O Anjo”. Quando meu irmão mais velho ganhou seus primeiros salários, ele comprou um toca-discos e uma série de Lps de música brasileira, americana e clássica. Acompanhei, ainda, a pré- Bossa Nova, pela Rádio Inconfidência. E tive colegas que, pelo tamanho de sua cultura, me incentivaram a conhecer tudo o que eles conheciam.

LAM - Você é um dos fundadores do Clube da Esquina. Que avaliação você faz desta reunião de pessoas que levaram de Minas Gerais a voz e a alma para o mundo?

Foi uma reunião que ocorreu naturalmente. Belo Horizonte era uma cidade bem menor, os pontos de encontro eram poucos. Éramos jovens que se interessavam pela cultura e artes em geral. Para que eu entrasse, especificamente, na música, o encontro e a amizade com Milton Nascimento foi essencial. Escrevíamos, compúnhamos e cantávamos as nossas crenças, a nossa vida. E é o que continuo fazendo até hoje.

LAM - Você também escreveu acerca de um outro grupo. Fala pra gente o que é o Clube dos Gambás?

O “Clube dos Gambás” é do mundo e vai bem explicado numa crônica que faz parte do livro com o mesmo nome, publicado pela Record.

A crônica: Os gambás.

Quem chegou com essa conversa foi o Veveco. Poeta da arquitetura, amigo desde não sei quando, ele trazia mais uma de suas criações a respeito da vida e da amizade. Não era um clube estabelecido, com normas e estatutos, o que ele nos apresentava. Era algo inusitado e lógico. As pessoas de sentimentos e interesses semelhantes fatalmente se procuram, se encontram, se afinam. No lugar onde moramos, escolhemos sempre freqüentar os espaços ocupados por gente da nossa espécie. Viajando pelo Brasil e pelo mundo, é inevitável que acabemos topando com alguém que foi feito para conviver conosco. E aí se estabelece um vínculo que atravessa os anos e que faz com que não nos sintamos estrangeiros em cidade em que viva alguma alma irmã.
Um gambá cheira o outro. Esta a filosofia do clube dos gambás, agremiação informal que congrega gente de todas as profissões. Sua sede é o mundo. E as inscrições se fazem automaticamente, basta o gosto pelo mesmo tipo de literatura ou filme, o conhecimento das mesmas canções, o embriagar-se sem culpa pelas coisas boas da existência. Para onde um vai, olha a fila de irmãos abanando o rabo e indo atrás. Ser gambá é entender que vivemos para compartilhar. Estamos juntos no trabalhar e no festejar. Todos os melhores pensamentos do planeta passam por nossas conversas e mesas. E costumamos ser absolutamente solidários.
Gambás foram Carlos Drummond e Mário de Andrade, cujas cartas saem agora em livro. São vinte anos de uma correspondência que revela o íntimo do pensamento de dois homens que fizeram a história da cultura brasileira no século passado. E que permanecem conosco, perfumando o caminho daqueles que, hoje, são tocados por suas lições de vida, poesia e amizade. Nem é necessário lembrar que, no lançamento, esta semana, a gambazada estava toda lá.
Mas gambá não é uma qualidade elitista. Está espalhada por todos os cantos. Os operários da construção civil que, findo o árduo trabalho diário se lavam e se ensaboam antes de voltar para casa, também escolhem, entre os seus, os mais afins. Ao vê-los passar diante de minha janela, vejo que saem em pequenos grupos. O dia não pode terminar sem um papo final e um aperitivo com os mais chegados. Só aí, a volta ao lar.
Falando em lar, não há gambazice maior do que o jogo de sedução entre homem e mulher, moça e rapaz. É um olhar-se, um flertar-se, um paquerar-se, um namorar-se, um conhecer-se. E um arriscar-se nessa aventura suprema do casar-se. Acasalar-se. E na troca de odores e sabores, de flores e temores, de pendores e ardores, os gambás se multiplicam. Ser gambá, enfim, é ser parceiro no amor e na amizade.

LAM - A sua composição tem uma forte carga poética nas parcerias musicais. É por meio da música que você mostra a sua poesia? ou você faz distinção entre poesia e letra de música?

É através da música que, na maioria das vezes, que eu mostro o que penso e sinto. Letra de música, principalmente a de alta qualidade que é feita no Brasil, e poesia são, no mínimo, primas. São maneiras diferentes de trabalhar com palavras.

LAM - Você escreve regularmente para jornais, além de roteiros e letras para balés, cinema e teatro. Como se dá a conciliação dessas atividades no seu trabalho?

Uma coisa completa a outra. Gosto de me expressar em vários meios, expor minhas ideias para meus conterrâneos e contemporâneos. Eu trabalho, enfim, com palavras, acompanhadas ou não de música.

LAM - Você é membro da União Brasileira de Compositores - UBC. Como é que você a questão do autor e os direitos autorais na era da internet?

Estamos numa fase de transição, mas o mundo digital e a chegada de novos meios de difusão e comunicação não acabam com o direito autoral, que é um dos direitos humanos. Dentro de pouco tempo, existem estudos que acompanho há quase quinze anos, as pessoas poderão usar as obras de criação, remunerando os autores. Será mais barato, por ser uso universal e sem intermediários. O acesso de todos continuará, mas os autores não morrerão de fome. O ponto justo está para chegar.

LAM - Você participou da trilha do musical "A fogueira do Divino", onde é abordado a questão da formação por 3 raças da Nação brasileira.

Eu escrevi todas as palavras da “Fogueira do Divino” e o Tavinho Moura
criou todas músicas. O espetáculo foi encenado no Palácio das Artes, em BH, com orquestra sinfônica, nove cantores-intérpretes, um coral de quarenta vozes e mais cinco músicos. O cd foi lançado pela Dubas Musica.

Obrigado, Fernando. Conheça mais do trabalho de Fernando Brant na UBC e veja, também, a entrevista feita com Milton Nascimento ().

Entrevista concedida em 2009 para o Guia de Poesia.